A verdadeira religião da Europa

by RNPD

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“Há uma religião do Ocidente. Essa religião é o antigo paganismo grego ou latino, celta ou germânico…esse paganismo valia os outros. Ele não está assim tão longe de nós. Nunca somos mais do que pagãos convertidos…o pagão é aquele que reconhece o divino através das suas manifestações no mundo visível”. Foi assim que em 1965 o Cardeal Jean Danielou respondeu à questão. A Europa é um continente pagão. Simplesmente ela esqueceu-o durante séculos por múltiplas razões.

Definição do paganismo

Mas o que significa então “pagão”? Cultos demoníacos e magia negra? Nostalgia estéril de esteta? Ideologia totalitária sobre fundo de exaltação da força brutal? Nada disso corresponde à realidade dos diversos paganismos da Europa tradicional. Se uma ínfima minoria de neo-pagãos pode perder-se nesse género de impasse, é lamentável, mas isso não permite caricaturar a mais antiga religião do continente, que podemos definir como a religião dos ciclos da natureza e do cosmos.

O paganismo é, por definição, cósmico e portanto eterno. Ao contrário, as religiões abraâmicas, e sobretudo o cristianismo e o islão, apesar dos seus múltiplos empréstimos dos cultos anteriores, fundam-se sobre a revelação dada pelo seu Deus ciumento num dado momento e lugar: são religiões históricas, que conhecem um começo e um final. O paganismo, quer seja celta, hindu ou shintoista (japonês), ignora essa visão segmentada do tempo e prefere uma visão cíclica. Da mesma forma, aceita a pluralidade das vias religiosas, reflexo da multiplicidade de figuras divinas: Apolo e Dionísio simbolizam polaridades aparentemente contraditórias mas bem complementares. O primeiro não é jamais imaginável sem o segundo, como o Uno não é imaginável sem o Múltiplo.

Mas, dir-me-ão, esse paganismo desapareceu há 2000 anos, vencido na Europa pela fé cristã., noutros sítios por outras revelações (o islão no norte de África e na Turquia, outrora cristãs). Os estudos históricos, cada vez mais folheados – e libertados dos preconceitos cristãos – mostram que aquilo que podemos chamar, para simplificar, paganismo europeu, nunca desapareceu e que a conversão do nosso continente fez-se muito lentamente…e sem doçura (excepto na Irlanda e na Islândia)

Conversão pela força da Europa pagã ao cristianismo

A conversão foi imposta, pelo ferro e pelo fogo. Ela estendeu-se por séculos: os lituanos, por exemplo, não foram convertidos – pela força – senão nos séculos XVI e XVII. Nas nossas regiões, os antigos cultos politeístas foram cobertos com um verniz cristão, frequentemente muito superficial.

Veja-se o culto dos santos, das fontes, das procissões, as fogueiras dos santos populares (e todo o calendário de festas), e mesmo a Trindade, muito pouco monoteísta. É apenas na Contra-Reforma, em reacção ao protestantismo, que a Igreja católica ergue uma grelha eficaz. Mas as mentalidades, o que Jung chamava o Inconsciente Colectivo, conservaram as estruturas mentais do paganismo; apenas os vocábulos mudaram. Da mesma forma, o estudo da nossa cultura mostra que na Europa todos os renascimentos foram feitos por um recurso à memória pagã: O Renascimento italiano ou francês, o Romantismo alemão, etc. Mas hoje, neste início de século XXI, face ao triunfo aparente do materialismo mais aviltante, face também à ofensiva de religiões selvagens e frequentemente exóticas (as “seitas”), face sobretudo ao islão cada vez mais massivamente presente sobre o nosso solo (com as consequências que este tipo de colonização implicam, vide a Índia ou a Macedónia), como dizer-se pagão sem passar por um excêntrico? Comecemos por criticar diversos preconceitos.

Os deuses contra o materialismo

Desde logo, paganismo não combina de todo com materialismo. Honrar os deuses, que são potências e não pessoas, não significa adorar o bezerro de ouro. Neste sentido, um pagão consequente está mais próximo de um cristão repugnado pela mercantilização do mundo do que de um consumidor satisfeito. Depois, o pagão não pode ser membro de uma qualquer “seita”, que fecha sempre os seus membros numa visão paranóica do mundo, com a sua espera do Apocalipse, o seu culto do livro único que contém todas as verdades e dos eleitos, únicos que serão salvos. O pagão vive numa relação de co-pertença com o cosmos, do qual não é nunca o centro.

O seu livro é a natureza, mesmo se admite que Homero, por exemplo, é um autor “inspirado”. O pagão não se refugia em paraísos artificiais nem em miseráveis consolações d’além-mundo (…)

O Shinto japonês é uma religião pagã. O elemento feminino ocupa aí, portanto, um lugar importante.

Para o pagão a ética é por definição trágica, feita de aceitação do destino, encarado como um desafio para provar a fidelidade à sua visão de Honra, para oferecer um nome sem mácula aos seus descendentes.

Porque o pagão situa-se numa continuidade, a da terra e dos mortos, como dizia Barrès. Ele define-se como herdeiro de um legado ancestral, que lhe cabe enriquecer e transmitir. O pagão, se tem a cabeça nas estrelas, mantém os pés bem firmados sobre a terra que é a sua, sem jamais perder o contacto com essas duas dimensões. Ele é filho da terra negra e do céu estrelado.

Face à pretensão monoteísta de deter a única verdade – e de impedir os outros de escolher o seu caminho para o divino – o pagão faz prova de tolerância, no sentido em que ele sabe, no mais profundo de si, que o caminho para o divino pode fazer-se por uma infinidade de vias.

Um tal mistério não pode nunca resumir-se a um catecismo predeterminado nem a um conjunto de gestos repetidos de maneira mecânica. Mas tolerância não significa laxismo: como tolerar tudo o que restringe a soberania do homem (as drogas, os condicionamentos ideológicos ou mediáticos, os estilos de vida doentios)? Ora, a actual sociedade ocidental, entrada numa fase de “involução” cada vez mais notória, parece comprazer-se na exaltação das modas mais dissolventes, na confusão sistemáticas das referências, na destruição de todos os laços, por exemplo familiares e comunitários.

A religião da Europa

Concluamos esta breve nota evidentemente incompleta. A religião da Europa é de essência cósmica. Ela encara o universo como eterno, sujeito a ciclos. Esse universo não é visto como estando vazio de forças nem como “absurdo” como pretendiam os niilistas. Tudo faz sentido, tudo são forças e potências impessoais regidas por uma ordem inviolável, a que os indianos chamam dharma (conceito mais tarde recuperado pelos budistas), termo que pode parecer um pouco exótico, mas que os Gregos traduzem por Kosmos: Ordem.

Depois de milénios, a nossa religião tradicional, reflexo da tradição primordial, incentiva o homem a inserir-se nessa ordem, a conhecer-lhe as leis implacáveis, a compreender o mundo na sua dupla dimensão, visível e invisível. O pagão de hoje, como há três mil anos, faz suas as divisas do Templo de Apolo em Delfos: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses” e “Nada em Excesso”.

Christopher Gérard, Revue Renaissance – Réflexion et Culture, Abril de 2002, N°5 (via Vouloir)