Categoria: Citações

Três conselhos apenas…

Mas Ega entendia que o Sr. Afonso da Maia devia descer à arena, lançar também a palavra do seu saber e da sua experiência. Então o velho riu. O quê! Compor prosa, ele, que hesitava para traçar uma carta ao feitor? De resto, o que teria a dizer ao seu país, como fruto da sua experiência, reduzia-se pobremente a três conselhos, em três frases — aos políticos: «menos liberalismo e mais carácter»; aos homens de letras: «menos eloquência e mais ideia»; aos cidadãos em geral: — «menos progresso e mais moral».

Eça de Queiroz, Os Maias

Também suspeito o mesmo…

“Suspeito que muitas das grandes mudanças culturais que abrem caminho para a mudança política são largamente fenómenos estéticos” – J.G.Ballard

O homem das cidades cosmopolitas…



A miséria parece uma secreção do progresso, da civilização. Não é nos campos (até em plena crise), onde a vida é simples e sem ambições, que a miséria se torna aflitiva, dramática. A sua tragédia sem remédio desenvolve-se antes nas cidades, nas grandes capitais, tanto mais insensíveis e duras quanto mais civilizadas. A mecanização, o automatismo do progresso que transforma os homens em máquinas, isolam-no brutalmente substituindo os seus gestos e impulsos afectivos por complicadas e frias engrenagens. O homem das cidades, modelado, esculpido na própria luta com os outros que lhe disputam o seu lugar ao sol, é talvez, sem reparar, a encarnação do próprio egoísmo.

António de Oliveira Salazar, in ‘Salazar: O Homem e a Sua Obra’

E se Tyler Durden fosse a Inglaterra?

«Nunca tinha vivido tão perto do perigo e contudo nunca me tinha sentido mais seguro. Nunca me tinha sentido mais confiante, e isso notava-se a milhas de distância. E quanto a isto, a violência? Tenho de ser honesto – tomei-lhe o gosto. Depois de levares uns murros e perceberes que não és feito de vidro, não te sentes vivo a não ser quando testas os teus limites.»

Matt Buckner, Green Street Hooligans (2005)

O sentido da Honra

«O verdadeiro sentido da honra é a recusa em pactuar com o que é feio, baixo, vulgar, interesseiro, não gratuito; uma recusa de se vergar perante a força só por ser a força, perante a paz só por ser a paz, perante o bem-estar só por ser o bem-estar. A honra implica, naquele que a possui, um sentido altivo e resoluto do risco, do jogo onde se arrisca perder a vida ou ganhar a estima dos pares, um sentido do trágico do destino e também da dignidade do infortúnio.»

Lucien Febvre

Retalhos heróicos do quotidiano…

«Permanecer só, numa sociedade onde, cada dia mais, o vosso interesse evidente é o de se juntarem aos demais, é esta forma de heroísmo que vos convido aqui a saudar!»

Henry de Montherlant

Asfixiado pelo burguês

«Não se trata aqui do homem conhecido das escolas, da economia política ou da estatística, nem do homem que aos milhões anda pela rua e não tem mais importância do que a areia ou a espuma dos mares: pouco adiantam alguns milhões a mais ou a menos; são material e nada mais. Não, nós falamos aqui do homem no sentido elevado do termo, do largo caminho da encarnação humana, do homem verdadeiramente real, dos imortais. O génio não é tão raro como em geral nos parece, nem tão frequente como pretendem as histórias literárias, a história universal e até mesmo os jornais.(…) É tão estranho e entristecedor que homens de tais possibilidades surjam como lobos da estepe e com “duas almas, ai!” e que mostrem tamanha afeição cobarde ao burguês. Um homem capaz de compreender Buda, um homem que tem noção dos céus e dos abismos da natureza humana, não deveria viver num meio em que domina o senso comum, a democracia e a educação burguesa. Só por cobardia continua a viver nele, e quando as suas dimensões o oprimem, quando a estreita cela do burguês se torna demasiado apertada, ele atribui tudo isto ao ‘ ‘lobo” e não quer aperceber-se de que, às vezes, o lobo é a sua parte melhor. Tudo o que há de feroz dentro de si ele atribui-o ao lobo e tem-no por mau, perigoso, o terror dos burgueses; mas ele que, no entanto, crê-se um artista e supõe ter sensibilidade, não é capaz de ver que fora do lobo, atrás do lobo, vivem no seu interior muitas outras coisas: que nem tudo o que morde é lobo; que dentro de si habitam também a raposa, o dragão, o tigre, o macaco e a ave-do-paraíso, e que todo este mundo é um éden cheio de milhares de seres, formosos e terríveis, grandes e pequenos, fortes e delicados, mundo asfixiado e cercado pelo mito do lobo — tanto como o verdadeiro homem que nele há é asfixiado e preso apenas pela sua aparência de homem, pelo burguês.»

Hermann Hesse in O Lobo da Estepe

O que eles fizeram aos nossos povos…

«Não somos nada; na verdade, aos horrores do século XX, as nossas democracias responderam com a “religião da humanidade”, ou seja, pela universalização da ideia do semelhante e pela condenação de tudo o que divide ou separa os homens (…) Isso significou que, para não mais excluir ninguém, a Europa teve de se desfazer de si mesma, “desoriginar-se”, não guardar nada mais das suas origens do que o universalismo dos direitos do homem. Esse é o segredo da Europa. Nós não somos nada.»

Alain Finkielkraut, em entrevista ao Le Monde, 11 e 12 de Novembro de 2007

Primeiro… romper a apatia.

Não tenho de vos dizer que as coisas estão más. Toda a gente sabe que as coisas estão más. É uma depressão. Todos estão sem trabalho ou com medo de perder o emprego. O dólar vale um níquel, os bancos estoiram, os comerciantes guardam uma arma debaixo do balcão. Marginais andam à solta nas ruas e não há ninguém que pareça saber o que fazer, e não há fim para isto. Sabemos que o ar está irrespirável e a nossa comida contaminada, e sentamo-nos a ver televisão enquanto um jornalista qualquer nos diz que hoje tivemos quinze homicídios e sessenta e três crimes violentos, como se isso fosse o que é suposto acontecer. Sabemos que as coisas estão más – pior que más. Estão loucas. É como se tudo em todo o lado estivesse a enlouquecer, por isso já não saímos à rua. Sentamo-nos em casa, e lentamente o mundo em que vivemos vai-se tornando mais pequeno, e tudo o que dizemos é” Por favor, ao menos deixem-nos em paz nas nossas casas. Deixem-me ter a minha torradeira, a minha televisão e as minhas jantes de metal e não direi nada. Deixem-nos só em paz”. Bem, eu não vos vou deixar em paz. Quero que fiquem furiosos! Não quero que protestem. Não quero que se amotinem – não quero que escrevam ao vosso deputado porque não sei o que vos diria para escreverem. Não sei o que fazer sobre a depressão e a inflação e os russos e o crime nas ruas. Tudo o que sei é que primeiro têm de ficar furiosos. Têm de dizer “Eu sou um ser humano, porra! A minha vida tem valor!”. Por isso quero que se levantem agora. Quero que todos se levantem das cadeiras. Quero que se levantem agora mesmo e vão à janela. Abram-na, ponham a cabeça de fora, e gritem “ Estou farto desta merda e não vou aturar mais isto!”. Quero que se levantem agora mesmo, vão até à janela, abram-na, ponham a cabeça de fora e gritem” Estou farto desta merda e não vou aturar mais isto!”. As coisas têm de mudar. Mas, primeiro vocês têm de ficar furiosos!… Têm de dizer” Estou farto desta merda e não vou aturar mais isto!”. Depois logo vemos o que fazer com a depressão, e a inflação e a crise do petróleo. Mas primeiro levantem o rabo da cadeira, abram a janela, ponham a cabeça de fora e gritem, digam-no:” Estou farto desta merda e não vou aturar mais isto!”

Network (1976)

O comunismo é uma versão caricatural da modernidade liberal

null

“Quando vi na Checoslováquia as primeiras habitações sociais, julguei estar a ver a própria manifestação do horror comunista. Só mais tarde compreendi que o comunismo me mostrava, numa versão hiperbolizada ou caricatural, os traços comuns do mundo moderno. A mesma burocratização omnipresente. A luta de classes substituída pela arrogância das instituições com os utentes. A degradação do saber artesanal. A imbecil juvenofilia do discurso oficial. As férias organizadas em manadas. A fealdade do campo donde desaparecem as marcas da mão camponesa. A uniformização. E, entre todos esses denominadores comuns, o pior de todos: a falta de respeito pelo indivíduo e pela sua vida privada…
A experiência do comunismo afigura-se-me uma excelente introdução ao mundo moderno em geral; tornou-me mais sensível aos fenómenos absurdos que estamos prontos a ver aqui como sendo de uma inocente banalidade ou como um atributo necessário da Santa Democracia.”

Milan Kundera, Les Testaments Trahis,Gallimard, Paris, 1993 (via Nonas)

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.