Month: Janeiro, 2007

Os saques da liberdade

Os EUA invadiram o Iraque alegando duas razões principais: que o regime de Saddam Hussein disporia de armas de destruição maciça e que teria ligações à Al-Qaeda. A utilização desses argumentos serviu para reforçar a superioridade moral americana face ao agredido, estratégia que desde sempre tem sido usada por esse país nas muitas guerras em que se tem visto envolvido e que permite que, em defesa dos seu interesses próprios, os EUA se projectem nessas guerras e perante os outros, na mais enjoativa hipocrisia, como campeões abnegados do «mundo livre».

Quase 4 anos depois da invasão do Iraque sob a capa da «guerra ao terrorismo» é hoje sabido que os argumentos usados para legitimar essa intervenção preventiva eram falsos, mais grave, existe a justificada suspeita de que esses argumentos foram premeditadamente manipulados por forma a fornecer à Administração Bush um móbil para uma invasão do Iraque que estava há muito delineada pelos arquitectos neoconservadores da política externa republicana.

Em 2000, o PNAC, principal instituto neoconservador do país, elaborou um trabalho de 90 páginas intitulado «Rebuilding America’s Defenses: Strategies, Forces, and Resources For A New Century»(1). Na elaboração desse documento participaram várias pessoas que viriam posteriormente a fazer parte da Administração Bush. O que ali se apresenta é uma estratégia para assegurar o controlo completo do planeta sob direcção americana, uma ordem global ditada pelos interesses dos EUA. Para isso aponta-se a necessidade de usar o poder militar em larga escala e em diversos pontos do globo e particularmente sobre regimes considerados hostis às conveniência norte-americanas, instalando nesse caso em sua substituição democracias aliadas (naturalmente que a urgência em democratizar os regimes considerados adversos está relacionada com o facto de a democracia ser particularmente permeável ao dinheiro e a influências externas). Dos países apresentados como hostis aos interesses económicos e políticos americanos surgem nesse documento com particular frequência os nomes do Iraque, do Irão e da Síria.

Já em 1998, numa carta dirigida ao presidente democrata Bill Clinton, 18 membros do PNAC, mais de metade dos quais judeus, apelavam à necessidade de intervir no Iraque, usando a mesmíssima alegação das armas de destruição maciça e reforçando a necessidade de defesa dos interesses geopolíticos dos EUA e de Israel e o controlo do mercado petrolífero:

«(…) Apelamos a que aproveite essa oportunidade [referindo-se ao State of the Union Address] e que apresente uma nova estratégia que assegure os interesses dos Estados Unidos e dos nossos amigos e aliados no mundo. Essa estratégia deve apontar, acima de tudo, para a eliminação do regime de Saddam Hussein. (…) Não é preciso acrescentar que se Saddam adquirir a capacidade de usar armas de destruição maciça, como quase de certeza conseguirá se continuarmos no caminho presente, a segurança das tropas americanas na região, dos nossos amigos e aliados como Israel e os Estados árabes moderados, e uma parte significativa da oferta de petróleo mundial ficará em risco. (…) No curto-prazo isto implica uma disponibilidade para empregar a força militar já que a diplomacia está claramente a falhar. No longo-prazo significa remover Saddam Hussein e o seu regime do poder. Isso precisa ser agora o objectivo da política externa americana.» (2)

É, pois, evidente que a guerra no Iraque estava há muito planeada e fazia parte de uma estratégia de hegemonia mundial.

Se, decorridos estes 4 anos, sabemos, porém, que o móbil das armas de destruição maciça não encontrou comprovação e que não foram igualmente provadas ligações do regime de Saddam à Al-Qaeda, não devemos contudo concluir que esta agressão não teve qualquer impacto na «guerra ao terrorismo» tomada de forma mais abrangente.

As agências de espionagem norte-americanas concluíram há pouco tempo que a guerra no Iraque se tornou um factor de disseminação global do terrorismo islâmico e aumentou o seu risco. (3)

Para além disto, um dos resultados da invasão do país de Saddam foi a ascensão do poderio regional do Irão, com tudo o que isso acarreta para o equilíbrio geoestratégico do mundo.

Curiosamente, essa intervenção militar acabou não só por fazer cumprir um dos principais objectivos dos subscritores do documento de 2000 do PNAC( e da carta de 1998) como criou ainda as conjunturas exactas que esse documento descrevia rumo à criação de um mundo sob hegemonia americana, desde o imperativo das intervenções militares em diversos pontos do globo, à confirmação e reforço dos nomes dos regimes hostis ao Novo Império como inclusive levou ao aumento do orçamento norte-americano para gastos militares, tal e qual como era sugerido necessário pelo PNAC.

Uma achega preciosa para compreender uma parte do que sempre esteve em causa em mais esta cruzada liberal foi muito recentemente divulgada. A 7 de Janeiro deste ano, o jornal britânico The Independent revelava que o novo governo do «Iraque livre» se preparava para entregar a companhias norte-americanas e britânicas a exploração das reservas petrolíferas do país, ao abrigo de acordos danosos dos interesses nacionais do povo iraquiano.(4) Aparentemente a lei que permitirá o saque foi mesmo elaborada pelos próprios EUA e entregará a exploração dos recursos do país às grandes companhias «ocidentais» durante um período de 30 anos, naquela que será a primeira operação de larga escala envolvendo interesses estrangeiros desde a nacionalização da indústria em 1972.

Os acordos permitirão aos invasores arrecadar 75%(!) dos lucros provenientes do sector numa primeira fase e 20% numa segunda fase, muito acima da média da indústria para estes negócios.

O artigo do jornal não deixa igualmente de relembrar as palavras de Dick Cheney( também ele membro do PNAC e que antes de ter ocupado a vice-presidência do governo norte-americano era um alto executivo da companhia petrolífera Halliburton) em 1999, a propósito da necessidade de aumentar a oferta de petróleo até 2010 – já depois, portanto, da carta entregue pelos neoconservadores ao presidente Clinton:

«Então de onde virá o petróleo?…O médio Oriente, com 2/3 das reservas mundiais e o mais baixo custo, é ainda onde está o prémio».

E aqui chegamos, ao Novo Século Americano, envolvidos, todos nós, nas guerras do «Ocidente», o bom «Ocidente», as guerras pela liberdade, pela democracia e pelos direitos humanos. Mas os EUA não se limitam a libertar os povos oprimidos, a levar-lhes a boa nova da liberdade e da democracia, libertam-nos também do peso dos seus recursos e da sua autonomia, mas sempre, a estratégia é essa desde a segunda guerra, apresentando estes saques como guerras da moralidade contra a imoralidade.

Mergulhado no mais completo caos, num clima de guerra civil latente, dezenas de milhares de mortos iraquianos depois – o The Lancet estima mesmo que poderão ser mais de meio milhão (5) – e prestes a perder o controlo dos seus recursos energéticos, o Iraque está hoje a caminho de fazer parte do «mundo livre». O ditador, pelo menos, já foi enforcado… A «liberdade americana» fala hebraico e paga-se em sangue e em petrodólares. Quem se segue? Afinal, o mundo é apenas uma grande aldeia à espera de ser salva.

(1) Rebuilding America’s Defenses

(2)Carta de 1998 do PNAC

(3)Spy Agencies Say Iraq War Worsens Terrorism Threat, The New York Times, 24 de Setembro de 2006

(4) Future of Iraq: The spoils of war, The Independent, 7 de Janeiro de 2007

(5)Estudo do The Lancet

Prometheus

Muitos dos que recorreram à opção política concedida pela hipótese “terceira via”, com eles trouxeram, exacta e precisamente, os mesmos “tiques, espasmos e feitios” com que adornavam outras paragens políticas.

O fundamental, essencial e absolutamente indispensável (valha a tautologia) é compreender que o problema não reside na forma da política que se pretende, mas sim no seu conteúdo. E o conteúdo da política é eminentemente cultural. É a cultura que determina a idiossincrasia do fenómeno politico !

(…)O fundamental é estruturar uma nova base cultural, assente na tradição europeia, na memória do povo que somos, e na realidade que enfrentamos.
E é já longo o tempo que percorremos sem querer arrostar o desafío !

Com todo o respeito que me merece António Sardinha, não creio que seja com entoações cristãs-católicas que devemos repensar Portugal e a Europa.
A raiz da cultura europeia fundamenta-se no mito de Prometeu, na entrega ao Homem do fogo que ilumina o conhecimento, que transfigura o “Ente” em “Ser”.
O mito cristão é de origem forânea, é de subserviência a uma divindade opressora, omnipotente e egoísta, redutora da coragem à caridade e do génio ao igualitarismo mediocre e servil.

O Homem europeu dirigia-se à divindade, em pé, de cara levantada, de braço erguido com a mão aberta, em sinal de fraternidade.
E essa atitude determinava-lhe o carácter e moldava-lhe o temperamento !
O Homem europeu nunca se arrodilhou perante nada nem ninguém.
E é essa mentalidade corajosa e fraterna que pretendem destruir (mesmo inconscientemente) os crentes no “ungido” profetizado pelo judaísmo.

A Europa que necessitamos não é somente anterior à revolução maçónica de 1789, mas também anterior ao “sacro império” de Carlos Magno.
Não só anterior ao economicismo de Marx, mas também ao consumismo liberal de Friedman.

Alguns pretenderão que o nacional-catolicismo de António Sardinha traduz a nossa tradição.
É caso para perguntar onde se inicia a tradição : nos “castros” celtas, ou nas catedrais ? Em Tonsoenabiago ou em S. Saturnino ?
É referido um livro de A. Sardinha “Ao Princípio era o Verbo”…
Como pode um tal enfeudamento às teses da Igreja ser produto de uma mente critica, tal como necessitamos para estruturar a nossa verdadeira cultura europeia ?
Sempre o “jugo” da heresia judaica. Para quando o “torque” celta ?

Voltemos “Ao Princípio era o Verbo”…
Os 18 primeiros versetos do Evangelho de João, denominados “Prólogo”, é um texto esotérico escrito em grego que refere :
“En arché en ho logos kai ho logos en pros ton theon…“
traduzido para latim (ecuménico) como :
“In principio erat verbum et verbum erat apud Deum et verbum erat Deus.”

Como se pode constatar “logos” é traduzido por “verbum”, e isso já no século V por Jerónimo (Hieronymus, santo da Igreja) na elaboração da Biblia “Vulgata”.

Ora, “logos” não significa “verbum” (“palavra”), mas sim “razão”.
“No Principio era a razão…” ; “In principio erat ratio…” !

Afirmar “Ao Principio era o Verbo”, significa uma deturpação, a falsificação de um texto. A sempre presente “pia fraus”…
O acerto da realidade pelo mito !

Mas, o monoteísmo em geral e o cristianismo em particular, são reincidentes na falsificação.
Será por acaso, ou por “obra do demónio”, que Eusebius Pamphili (c.263-339), bispo de Cesarea, confessor do imperador Constantino, ficou conhecido na História como “o falsificador” ?

Recordo que a primeira frase do “Bereshit” (1º livro da Torah judaica, a que corresponde o Génese do Pentateuco, na Biblia cristã) diz :
“Bereshit bara Elohim et hashamayim ve’et ha’arets”.
“No principio os Deuses fizeram o céu e a terra…”
que os cristãos (outra vez Jerónimo) traduziram como :
“In principio creavit Deus caelum et terram…” – “No principio Deus fez o céu e a terra…”.
Por que traduziram “elohim” (“deuses”) por “deus”, que em hebreu (arameu) se escreve “Eloah” ?

Uma mente critica, um pensador não influenciado por culturas alógenas à Europa (cristianismo ou marxismo, curiosamente com a mesma origem) não pode estar intelectualmente arrodilhado perante semelhantes despropósitos dogmáticos.

A Nova Europa, o Ocidente, o Hesperial, será verdadeiro… ou não será !

Acima fica um excerto de um texto de António Lugano publicado no fórum Terceira Via. O autor escreve no Prometheus. Visita altamente recomendável!

Lá vão destruindo e rindo…

No término de «mais um ano do fim da nossa pátria» entrou em vigor a nova lei da nacionalidade, aprovada no Parlamento no início de 2006 sem que um único grupo parlamentar tivesse votado contra, sem que um único assomo de verdadeira indignação (ou de dignidade) tivesse sido manifestado no local onde os supostos representantes da nação deveriam zelar por ela… o resultado da abjecção foi assim instituído em meados de Dezembro, às portas deste novo ano, de um novo ciclo, apropriada sinalização para o futuro próximo.

Quando em Fevereiro foi aprovada na Assembleia da República ficámos convictos de que se tratava de um penúltimo passo, apesar de reforçar decisivamente o direito de solo sobre o único critério que assegura a sobrevivência da nação – o direito de sangue –, a votação e as declarações da altura deixaram antever que o objectivo não está ainda completamente alcançado, há ainda espaço para uma estocada final. O Bloco de Esquerda, que é a representação parlamentar em Portugal de uma determinada visão societária que alastrou, qual vírus, por todo o Ocidente, assente em pressupostos anti-tradicionais e anti-patrióticos, funciona por cá como uma espécie de linha avançada que vai progressivamente desbravando caminho rumo à destruição total dos valores e especificidades naturais definidoras da nação.

A abstenção desse partido numa votação que constitui um caso paradigmático de atentado à preservação da nossa matriz cultural, racial e espiritual indica a vontade de continuar a pressionar o espaço político para ir ainda mais longe. Embora esta nova legislação seja, sem dúvida, um triunfo das forças que o BE encarna na Assembleia, a estratégia está bem delineada e não apresenta grande complexidade: conseguido o objectivo principal é preciso ainda assim surgir como descontente e contestatário, porquanto há ainda lugar e intenção de furar mais fundo. Nisso é também importante perceber como o BE se posicionou, após o sucesso parcial na lei do direito de nacionalidade, face à nova lei da imigração.

Compreender a forma como o partido olha a imigração em conjunção com a nacionalidade é compreender não só aquilo em que pretendem transformar o nosso país mas, atendendo à influência que essa organização e alguns lóbis a ela associados ou aproximados têm na sociedade civil, compreender o que ainda enfrentaremos num futuro não muito distante. Porque se algo retiramos das posições dos restantes grupos parlamentares foi a confirmação de que a agenda política de que o Bloco é o ponto mais extremado domina ainda assim, de forma mais ou menos moderada, todo o Parlamento.

Atentemos nas declarações da representante do Bloco de Esquerda (Ana Drago) logo após a aprovação da lei: «São cidadãos nacionais os que aqui vivem, trabalham e constroem família. Obviamente por maioria de razão são portugueses os que aqui nascem. Esta simplicidade, esta clareza, conduziu-nos a defender e a propor a consagração do direito de solo, quem nasce em Portugal, é português. É por esta razão essencial que reconhecendo os avanços da lei apresentada pelo Governo, o BE manteve o seu projecto de lei e absteve-se na votação final e global do projecto do Executivo» (TSF Online, 16 de Fevereiro de 2006)

As palavras de Drago evidenciam a forma como o BE vê a nacionalidade: não a vê, ela não existe realmente, ou melhor, existe ao sabor da conveniência politica dos neomarxistas, Portugal é de todos e não é de ninguém, a utopia internacionalista que é a antítese da nação consegue ter expressão parlamentar no BE ainda mais que no PCP, no fundo espelhando talvez diferenças ideológicas que dividiram tradicionalmente movimentos trotskistas e estalinistas. Para o Bloco, não só são automaticamente portugueses todos os que por acidente do destino cá nascerem como, indo mais longe, são portugueses todos os que aqui vivem, trabalham e constroem família.

E esta posição do Bloco deve ser analisada com a consciência de que falamos do mesmo partido que defende a imigração maciça para Portugal, sob a mais diversa argumentação, ou o proveito do PIB, ou a pretensa sustentabilidade do sistema de pensões, ou a utopia social da diversidade como algo de indiscutivelmente positivo, ou as necessidades demográficas, ou o imperativo humanitário; tudo serve…

Ora, o que se esconde por detrás de um movimento que tem tal concepção do direito de nacionalidade aliado à constante apologia da imigração? É óbvio que o próprio conceito de «imigrante» perde sentido quando a nacionalidade é encarada como direito de todos os que «aqui vivem, trabalham e constroem família» pois que nos tais «todos que aqui vivem, trabalham e constroem família» estão precisamente, por definição, os imigrantes. Se esses imigrantes passam a ter acesso à nacionalidade deixam de existir enquanto tal e passam a ser cidadãos nacionais.

Portanto, a defesa da imigração em conjugação com a visão jurídica da nacionalidade defendida pelo Bloco de Esquerda só pode sustentar um processo de efectiva substituição populacional, de criação de um novo povo, processo indisfarçado, porque a juntar às palavras de Ana Drago e às posições conhecidas sobre o assunto de Francisco Louçã são várias as posições que surgem dessa organização apontando nesse sentido… lembramos que Daniel Oliveira, do mesmo agrupamento, escreveu a 13 de Maio de 2006,nas páginas do jornal Expresso, o seguinte:

«Uma cidade sem imigrantes não é uma cidade. É apenas uma aldeia grande. […] Num país falhado, que os próprios imigrantes vêem como falhado, esta gente não tem nada a perder. Bem lhes podem fechar a porta. Eles entrarão pela janela. Felizmente, tomarão conta das nossas cidades, como os portugueses que queriam viver melhor tomaram Toronto, Joanesburgo ou Estugarda. E, não fôssemos tão estupidamente arrogantes, até fariam qualquer coisa desta Europa aristocrata, falida e snobe. Se tivéssemos aprendido com a América, saberíamos que o futuro é dos melhores. E os melhores são os que partem. Espero que não se integrem na mediocridade nacional. Que venham muitos e façam disto um país».

Note-se no texto acima o patente desprezo do cronista por Portugal, primeiramente «país falhado» e por fim despromovido até da categoria de país, necessitando de vagas de imigração para poder ascender a esse posto. E mais curioso, esses imigrantes, maioritariamente terceiro-mundistas, parte, pois, de povos incapazes sequer de se governarem, esses frutos de culturas vulgares é que viriam fazer disto um país! Não é estupidez, isto… é puro ódio à nação como ela é.

Mas a questão não acaba por aqui, não lhes basta a pressão para que a nacionalidade se dissolva no mar da imigração, é preciso mesmo que aqueles, poucos, que não conseguirem por via da insídia jurídica a nacionalidade, ou pelo menos durante o tempo de espera antes de a obterem, sejam equiparados nos seus direitos aos nacionais.

Leia-se, no contexto desta temática, o que escreve Mamadou Ba, um senegalês que é dirigente do Bloco, sobre a nova lei da imigração (“Nova lei de imigração”, em http://www.esquerda.net/):

«É decerto salutar que este novo quadro proposto pelo Governo tenha trazido alguns avanços, ainda que bastantes tímidos e que não corresponderam à enorme expectativa das comunidades (…)».

Primeiro, como habitualmente na estratégia da esquerda radical personificada pelo Bloco, vem o subtil reconhecimento de que a lei caminha na direcção correcta (a deles) imediatamente seguido de um acervo de críticas que carimbam a necessidade de se ir sempre mais longe; vejamos:

«No entanto, o grosso do projecto mantém o espírito policial e mercantilista do actual quadro jurídico inspirado na ideologia da Europa-fortaleza. À necessidade de uma alteração legislativa, o governo responde pela criminalização e pela selectividade, invocando o papão da “ordem e da segurança pública” para atropelar não apenas os direitos mais elementares dos cidadãos imigrantes, mas sobretudo para legitimar a criação de uma jurisdição especifica nesta matéria, fora da arquitectura jurídica geral que rege todos os cidadãos».

Existem duas ideias-chave que surgem neste pequeno excerto: a «ideologia da Europa-Fortaleza» e o «papão da ordem e da segurança». O que se pretende aqui é a estigmatização das posições que defendem a selectividade e o rigor na política de imigração, a Europa-Fortaleza não é mais que a Europa que não permite a liberalização total da imigração, objectivo da esquerda radical, da mesma forma que qualquer pessoa com sensatez percebe que os fenómenos de imigração colocam realmente problemas de segurança e ordem pública – atestam-no inumeráveis exemplos por toda a Europa Ocidental, desde os subúrbios de Lisboa, aos subúrbios de Paris, aos metros de Londres e Madrid, passando pelos bairros turcos da Alemanha ou às ruas islamizadas da Holanda.

Continua o senegalês:

«Aliás, a figura de consulta prévia ao SEF consignada no artigo 53 é um dos expoentes das artimanhas usadas para que tudo continue quase na mesma.»

O ideal para o Bloco de Esquerda seria transformar o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras numa espécie de serviço de pró-forma, um enfeite.

Mais:

«Além de se manter as quotas (artigo 59) ao contrário do que publicamente anda a defender o governo, nesta sua proposta a imigração continua estritamente ligada ao terrorismo e às várias tipologias de crimes.»

As quotas a que Mamadou se refere e que quer ver abolidas são as que resultam, portanto, do artigo 59, que é o que regula a obtenção de visto de residência para trabalhar por conta de outrem. Mas convém lembrar que com a nova lei de imigração, ao contrário do que sucedia e do que seria, no limite, minimamente sadio, deixa de ser necessário a existência de contrato de trabalho previamente assinado para se poder entrar no país, o que constitui realmente uma abusiva liberalização da política de imigração. O Bloco, porém, como tem por objectivo a remoção de todas as barreiras que permitam uma selecção das entradas no país não se dá por satisfeito enquanto o desregramento não for completo.

E finalmente esta conclusão notável em jeito de indignação:

«Mas o cúmulo desta fobia securitária e que representa a ultrapassagem de todos os limites do admissível e o mais violento ataque às liberdades e garantias é a introdução da biometria no artigo 212.»

Sim! De facto é o cúmulo! É o cúmulo que o dirigente do Bloco insista em menorizar as razões de segurança que devem regular a imigração, chamando-lhe fobia securitária, e é sobretudo o cúmulo que critique a utilização da biometria como um ataque às liberdades e garantias, quando a biometria vai ser usada para garantir que não existem falsificações nos dados das pessoas que pretendem entrar em Portugal, funcionando como um mecanismo de defesa contra as redes de imigração ilegal, a adulteração de documentos, e as consequentes falsificações de identidades.

Senão vejamos, é muito claro a esse respeito logo o ponto 1 do artigo 212 da nova lei:

«Com vista ao estabelecimento ou confirmação da identidade de cidadãos estrangeiros, o SEF pode recorrer aos meios de identificação civil previstos na lei e nos regulamentos comunitários aplicáveis à emissão de cartões de identificação e vistos, designadamente a obtenção de imagens faciais e impressões digitais, recorrendo, quando possível, à biometria, bem como a peritagens.»

Expostas as críticas do BE à nova lei, ela já um insulto à integridade nacional de tão permissiva que é, Mamadou explica, por fim, onde pretende o BE chegar e para que fim trabalha neste campo, usando para isso, em termos comparativos a proposta do partido para a lei da imigração:

«O projecto de lei do Bloco de Esquerda veio precisamente contrariar este ímpeto securitário e mercantil, operando uma viragem substancial quanto ao reconhecimento da igualdade de direitos e de tratamentos entre cidadãos nacionais e cidadãos estrangeiros. Combater o utilitarismo e a esquizofrenia securitária é combater a Europa-fortaleza. (…) Mas a regularização de todos os indocumentados é seguramente uma das mais estruturantes de entre as nossas respostas sobre a maior urgência política que importa resolver neste momento, e em que o projecto do governo está assumidamente omisso. (…) Defendemos não só a equiparação de direitos em todos os actos administrativos e judiciários entre imigrantes e cidadãos nacionais (…) a exigência do nosso diploma é, por um lado, tirar a gestão da imigração da alçada do SEF e, por outro lado, lutar pela efectividade da liberdade de circulação e de instalação em pleno exercício de todos os direitos inerentes à cidadania. (…) Reivindicamos a construção de um órgão de fiscalização misto, composto por entidades públicas e associativas com direito de acesso à Zona Internacional do aeroporto afim de garantir o direito de defesa no que concerne aos processos de recusa de entrada, exigindo o fim dos centros de detenção e denunciando a filosofia das quotas.»

Portanto, novamente a procura de igualizar direitos entre nacionais e estrangeiros, quando é precisamente essa desigualdade que assegura a existência efectiva de uma nação. Se não existe desigualdade de direitos entre os nacionais e os forasteiros então, naturalmente, os limites que definem um país, e por extensão os privilégios que dentro desse pais só devem caber aos seus cidadãos, desaparecem e ficamos a viver, se não formalmente pelo menos de facto, numa mundial sociedade aberta.

Depois, pretendem a legalização de todos os indocumentados, e isso explica também as críticas constantes à Europa-Fortaleza e aos mecanismos de controlo de falsificação de documentos; da crítica à Europa-Fortaleza e ao papão securitário, chegamos com o Bloco à defesa da Europa-Regabofe, onde o contorno da lei é premiado com a legalização incondicional.

Finalmente, o Bloco, como referimos anteriormente, pretende esvaziar o poder do SEF; não só afirmam que pretendem o término das restrições sobre a imigração lutando pela efectividade de circulação e instauração de gentes de todo o mundo para e na Europa, ressalvando uma vez mais, a possibilidade de o fazerem detendo os mesmíssimos direitos que qualquer cidadão nacional, como desejam sujeitar o controlo da imigração e das fronteiras ao julgamento de associações, com certeza ao estilo das que são formadas por membros do partido para intervir na sociedade cívica sem a conotação directa da sigla partidária – como a famigerada Frente Anti-Racista, ou aquelas associações de «animadores culturais» que aparecem na televisão a armar escarcéu de cada vez que alguma autarquia tenta derrubar construções ilegais.

A Europa-Regabofe, de Mamadou , Drago, Oliveira e Louçã, não estará concluída enquanto a imigração não estiver completamente liberalizada, sem mínima selecção ou controlo, sem lugar para a «filosofia das quotas»(sic) e enquanto os serviços de fiscalização das fronteiras não estiverem sujeitos aos humores e vontades de «associações cívicas»( devidamente penetradas, claro está), enquanto não acabar a distinção de direitos entre os nacionais e os forasteiros, que é, em última análise a essência jurídica da nacão. À adulteração do direito de nacionalidade é, pois, preciso aliar um reforço da imigração e uma equivalência em todo o plano legislativo entre os portugueses e os outros… Há alguns anos Ernest Renan, na Sorbonne, propunha-se responder a uma questão: O que é uma nação? Este foi o título de uma célebre conferência ali pronunciada em 1882… longe vão esses tempos, hoje, um pouco por todo o Ocidente, os produtos do neomarxismo, como o Bloco de Esquerda, podem, através da sua actividade política, responder a uma outra questão: Como acabar com uma nação?

O Bloco de Esquerda em Portugal, como os seus partidos irmãos na Europa, está habilitado a escrever o manual de pensamento e acção que dá resposta à última questão, uma vez que a primeira, de Renan, parece despertar cada vez menos interesse entre as classes dirigentes. São três os eixos, e ficaram bem enunciados acima: Agir sobre o direito de nacionalidade, liberalizar a circulação e fixação de pessoas e homogeneizar a restante legislação entre nacionais e estrangeiros. É sobre estes três pilares que assenta a luta das forças anti-nacionais, é nestes três pontos que o Bloco assume a posição mais extremada mas, e isto é fundamental para se perceber como decorre este processo e que valores dominam nesta área os países europeus e Portugal em especial, é fundamental notar que o governo PS actuou em 2006 precisamente sobre os três eixos referidos, primeiramente arruinando ainda mais o direito de nacionalidade, que já se encontrava demasiado afastado do jus sanguinis, depois através da nova lei da imigração que flexibilizou o fenómeno e acabou com vários dos factores de restrição (e no entanto também eles eram já quase insignificantes, como fica provado pela elevadíssima percentagem de estrangeiros em Portugal, um país que está longe de ser um paraíso económico) e finalmente com o Plano para a Integração dos Imigrantes, o tal que apresenta 123 medidas afectando 13 ministérios e que, entre muitas outras coisas, visa, por exemplo, assegurar a igualdade de acesso ao emprego entre os portugueses e os estrangeiros, atacando o que deveria ser, numa sociedade sã, a natural prioridade nacional no mercado de trabalho( e que de resto nem sequer esteve nunca devidamente definida no nosso país). Assim, temos que o PS( friso novamente que sem verdadeira oposição de outros partidos) agiu precisamente sobre os 3 pontos que apresentámos acima como eixos de acção do Bloco, naturalmente de forma menos extremada, mas a natural evolução da ordem política, o entendimento das agendas que dominam a nossa sociedade, o nosso tempo de renúncia e ódio auto-infligido, levam-nos a compreender que assistimos a um processo gradual, em que o que hoje nos parece demasiado será amanhã muito pouco, é um processo que não está ainda terminado, o Bloco é tão-somente a guarda avançada que vai furando as primeiras barreiras de resistência e é em face desse extremismo do Bloco que medidas como as do PS, altamente lesivas da nação, passam por moderadas ou sensatas. Há ainda mais para arrasar, as críticas bloquistas garantem-nos isso e indicam o que aí vem…

É sintomático destes «spenglerianos» tempos de decadência ocidental que vivemos que estejamos a assistir ao triunfo das formas prescritas por aqueles cujas propostas representam o aniquilamento dos países europeus, é sintomático de um tempo kafkiano que por toda a Europa se persigam pessoas e associações ditas de «extrema-direita» (por que critérios de arbitrariedade…) mas que se teçam louvores e se recompense nos órgãos de informação e nos órgãos políticos aqueles que trabalham para o fim da própria pátria, é sintomático de um tempo de inversões e involuções que o Estado, ao invés de ser a legítima materialização institucional da nação e espelho desta, garante acima de tudo da sua independência e preservação da sua identidade histórica, se tenha transformado no seu maior inimigo. O Estado não é já a projecção natural da nação mas antes um monstro consumido pelas mais nefastas doenças ideológicas e interesses vários, que visa ele mesmo criar uma nação ao seu serviço, um novo povo.