Fundamentos filosóficos para a Nova Direita (parte 2 de 4)

by RNPD

Eucken: Cisão entre consciência e acção

Numa segunda etapa, onde os contornos deste pensamento em termos de enquadramentos ( espácio-temporais) se precisam, nasce o neo-idealismo , projecto filosófico que pretende realizar as promessas e as aspirações universais do idealismo mas num enquadramento preciso. Num outro enquadramento, outros homens farão o mesmo, de modos diferentes, criando formas culturais e políticas diferentes, adaptadas ao seu tempo e ao seu espaço.

– O diferencialismo nasce ou reemerge, assim, no pensamento europeu com o questionamento colocado pelo neo-idealismo.

– Os neo-hegelianos tomam uma certa distância em relação ao hegelianismo de estrita obediência, destacando a existência factual e incontornável do diverso, que nenhum Estado omnipotente e nenhuma administração demasiado rígida das coisas pode apagar.

– Os neo-kantianos tentam sair das interpretações demasiado rígidas ou demasiado especulativas do pensamento de Kant, abrindo-se à metafísica tradicional, à ética, às descobertas do empirismo, à sensualidade.

– Eucken, face a essas formas hegelianas ou kantianas criticadas pelos seus próprios adeptos, constata, mais alargadamente, uma “despersonalização” da civilização sob o efeito do industrialismo técnico: a grande questão da segunda metade do século XIX é colocada. O que fazer, como não perder, sob os golpes de uma modernidade exageradamente esquematizante, esta miríade de possibilidades na alma de milhões de homens únicos e originais? Depois de ter observado o abismo aumentando entre a consciência (o ideal, a visão ideal, o ideal-tipo, os arquétipos, as visões arquetípicas projectadas em direcção ao passado ou ao futuro) e a acção no mundo concreto, Eucken conclui que é necessário voltar de novo à situação onde pensamento e acção não estavam ainda separados e sugere uma resposta “personalista”. Sendo que o personalismo era nele uma força:

-Que vai em direcção ao ideal ou regressa aos arquétipos,

-Que sai dos torpores estereotipados,

-Que adquire maturidade ou maioridade (Kant) libertando-se dos dogmas ou das limitações da ideologia das Luzes, como os partisans honestos dessa ideologia das Luzes haviam querido sair das limitações impostas pelos escolásticos de todas as ordens (e sem querer fazer das Luzes uma nova escolástica),

-Que acciona a subjectividade num trabalho político; público ou comunitário.

O seu objectivo é criar uma civilização suportada por homens dispostos a renunciar à sua subjectividade imediata e individual para assumir o seu papel de “seres pessoais” e decididos a regressar a esse ponto de unidade da existência em que pensamento e acção não estão ainda separados. Mais tarde outros nomearão este ponto de unidade como «Tradição» e tentarão trazer ou restaurar os elementos religiosos e políticos tradicionais.

Do neo-romantismo ao ultra-vitalismo

A ideia de um enquadramento espácio-temporal que limita mas ao mesmo tempo permite a expressão a todas as possibilidades surgidas ao longo do tempo nos confins desse limite, a necessidade de sair dos entorpecimentos e das prisões, a necessidade de um envolvimento pessoal, constituem assim as descobertas primeiras da crítica do idealismo, do iluminismo e dos processos mecanicistas. O neo-romantismo, numa etapa posterior, quererá apreender a vida de forma imediata (sem filtros e sem obstáculos) e na sua dimensão a-lógica. Este postulado faz desabar todos os ídolos idealistas ou neo-idealistas, como o “Estado Ético”, o culto da lógica e da razão. Nos neo-idealistas, o Estado, a lógica e a razão deveriam esforçar-se por tomar em conta outras dimensões da vida, de estar mais atentos ao vivido. Os neo-românticos quererão “penetrar no fundo original de nós mesmos”, reencontrar uma familiaridade purificante e vivificante com a mãe natureza. Se esta familiaridade está intacta o homem escapa completamente à armadilha da consciência e da reflexão, porque a vida é uma dado que escapa a toda a reflexão. A virtude cardinal numa tal óptica é a intuição. Contrariamente às posições de Eucken, o vivido, nesta óptica intuitiva-vitalista-materialista, invade tudo, o homem torna-se incapaz de recuar, de planear acções a longo termo. Para os neo-idealistas e Eucken a experiência vivida é central mas permanece uma “vivência” reflectida. A derrapagem ultra-vitalista, denunciada algumas vezes como um “biologismo exaltado”, chamou a atenção crítica de Ortega e Gasset( que acreditava encontrar um lugar justo no “vitalismo racional”) e das escolas tradicionalistas( Guénon, Evola). Escreve Henri Arvon:” A vida, não estando já submetida ao veredicto da razão, liberta-se de toda a tutela e arroga-se o direito de impor os seus próprios critérios, que deduz dos seus instintos, sejam eles os mais obscuros e os menos confessáveis”. Por seu lado, os biologistas insurgem-se igualmente contra o prometimento anti-cultural implícito num biologismo exacerbado. Assim, Jakob von Uexküll( 1864-1944) afirma:” A experiência humana não é suficiente para entender a vida, pois que a razão humana é ela mesma um produto da vida. Toda a experiência está necessariamente ligada aos limites da inteligência do sujeito que realiza a experiência. A vida, no entanto, que cria os sujeitos ultrapassa os limites de cada sujeito. A vida não é egocêntrica, nem mesmo antropocêntrica…”.

Simmel e a tragédia da cultura

A “lebensphilosophie”, o vitalismo, correram o risco de uma sobrevalorização dos sentimentos e dos instintos contra o intelecto porque haviam sofrido uma repressão. Certos avatares deste vitalismo desembocaram assim no irracionalismo ou numa mística desregrada. O mergulho necessário e indispensável no oceano do vivido deve sempre ser acompanhado de lucidez, prelúdio à acção consciente e planeada. Senão, surge outro risco, o vitalismo pode vir a aceitar desvios inaceitáveis sob o pretexto de que são factos do mundo e dotados de uma certa força, seja mesmo de inércia ou de “catagogia”( direcção ao baixo).

Para Georg Simmel( 1858-1918), sociólogo e filósofo original, a vida é uma situação agonística( NdT: referente a luta, combate) face ao meio, ao ambiente, aos limites que o espaço fixa. Porquê? Porque a vida procura compreender-se, reproduzir-se, aumentar as suas potencialidades, ultrapassar o seu fim (a morte). Qual é então a estratégia da vida? A sua estratégia é produzir formas sócio-culturais, estas formas são emanações da vida, mas apartam-se gradualmente, afastando-se da sua fonte ao longo do tempo. Produz-se então o que Simmel chama a Wendung zur Idee, ou seja, o processo de desvitalização das instituições, das formas, das manifestações culturais, para se tornar pura ideia, pura representação, forma morta, forma desvitalizada, forma rígida. Neste processo de afastamento da ideia em relação à vitalidade, à fonte vital, a ideia adquire uma dinâmica própria que se volta contra a vida. É a revolução que devora os seus filhos, a instituição que calcifica e contraria o livre desenvolvimento dos cidadãos e dos empreendimentos, etc. Para Simmel este processo é a tragédia da cultura, processo em que as forças ideais, produzidas pela vida, se voltam contra a própria vida.

Face a este processo, onde está a liberdade humana, em que consiste? Consiste em abrir novos horizontes para a vida, lutando contra as formas esclerosadas. Para Simmel, a ética não está numa “generalidade” definida de uma vez para todas mas num continuum preciso, histórico, circunstancial, pessoal. De onde não pode haver lei geral válida, não tanto porque existiria uma pluralidade de valores ou politeísmo de valores mas porque existe, de facto, pluralidade das expressões da vida, e estas expressões não poderiam ser deliberadamente ignoradas. A exposição de Simmel, as grandes linhas do seu pensamento, são modelos que devem servir de inspiração à Nova Direita na sua luta contra as escleroses dominantes. Uma leitura ou uma releitura de Simmel mostra-se imperativa porque ela permanece vitalista:

– Evitando o afundamento na prolixidade dos factos do mundo,

– Indicando-nos os perigos de um conservadorismo que gostaria de manter formas mortas,

– Sugerindo uma prática da liberdade que seja simultaneamente “abertura ao mundo” – denunciando as éticas falaciosas que se fundam sobre generalidades inexistentes no real.

Simmel continua actual.

O organicismo como contestação radical

Este conjunto de referências ao organicismo nascente, a Gusdorf, a Eucken, à filosofia da vida, ao neo-idealismo, a Simmel, não está isento de implicações políticas, sobretudo em França. Estes corpos doutrinais, solidamente firmados constituem uma refutação radical das práticas políticas centralizadoras e jacobinas. Sugerem explicitamente outras formas de governo, desejosas de manter vivas as diferenças orgânicas, nascidas da História e da Geografia, logo do tempo e do espaço, da durabilidade e da terra. Estas outras formas são necessariamente federais, subsidiárias, regionais ou linguísticas/ dialécticas/ étnicas. Não assentam sobre esquemas definidos por escribas isolados nas suas torres de marfim mas sobre factos do mundo visíveis e tangíveis. Toda a Nova Direita coerente deve, portanto, basear-se sobre os pensamentos que se inscrevem neste filão orgânico, para desenvolver uma crítica sistemática dos poderes e instituições vigentes, guardando sempre como exemplo modelos de instituições praticáveis e não abstractos, que foram inscritos, num momento ou outro da História, num continuum enraizado. Neste sentido ela seria fracturante mas construtiva na sua ruptura. O lado construtivo de tal ruptura explica-se pelo afundamento e submersão no artificial ( Heidegger) das instituições, regras de direito, práticas económicas e sociais, de inspiração mecanicista. É preciso substituir estas instituições, regras e práticas artificiais por instituições, regras e práticas autênticas, isto é, segundo a definição “existencial” que nos sugere Heidegger, instituições, regras e práticas que provenham de uma autenticidade que é tal porque fundada num “dasein”(NdT: existência) espacial e temporalmente circunscrito, delimitado, mas real, porque é o único enquadramento de acção possível para o homem, colocado ali(pelo seu abandono) e constrangido pelo prazo da sua morte inevitável, pelo facto do seu fim incontornável, a criar um projecto(Entwurf) de organização do seu ambiente(Umwelt), movido pela inquietação. A necessidade de um Entwurf implica comunidades humanas construtivas, prospectivas, “pró-activas”( encontramos aqui, sistematizado, o esforço dos neo-idealistas do século XIX).

O filão romântico dá, pois, os fundamentos ao que chamávamos, no século XIX, a “revolução alemã” e, na República de Weimar, a “revolução conservadora”. Este filão tem implicações políticas: obriga-nos à crítica profunda, e depois a trabalhar incansavelmente para a ruína de todas as instituições derivadas de um intelectualismo de raciocínio geométrico e que institui uma quantidade de “meditações” coercivas, administrativas ou abstractas entre o poder e o homem concreto (bem ancorado no seu território e na sua profissão e responsável perante os seus e os outros desse lugar e dessa função). Claramente, esta tripla revolução, romântica, alemã e conservadora, desafia o jacobinismo; pretende:

– Provar-lhe a sua inadequação fundamental,

– Indicar-lhe a porta de saída e destruir as suas traduções institucionais, porque elas obliteram o exercício sereno de um trabalho, de uma profissão, de um saber concreto e prático( o exercício da medicina, a criatividade científica, a passagem rápida de novas ideias da potencialidade ao acto, a intuição lúcida e a insolência didáctica do poeta, etc.). Referirmo-nos a este filão de facetas inumeráveis, é reclamar, mais ou menos distintamente, a chegada de outros métodos de governação, de outras instituições, de outras estruturas de representação e de poder. Os regionalismos e os etnicismos são formas conviventes e simbióticas que deverão, em todos os pontos do Globo, reencontrar a nossa aprovação e a nossa solidariedade.