Fundamentos filosóficos para a Nova Direita (parte 3 de 4)

by RNPD

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B – A Nova Direita como ruptura na esfera religiosa

No domínio religioso a Nova Direita causou escândalo. Posicionando-se à direita, inscrevia-se de imediato, para o melhor e (o mais frequente) para o pior, no campo da conservação das instituições psicológicas, judiciárias e políticas, ou no campo do reformismo lento e gradual (cf. os editoriais de Louis Pauwels e os artigos de Alain de Benoist sobre Aron ou Popper nas colunas do Fígaro Magazine). Ao saltar para as luzes da ribalta no final dos anos 70, e ao tomar, mais ou menos, controlo sobre o hebdomadário Fígaro Magazine, a ND parecia implicitamente defender a tradição ou os conformismos, o déjà-vu ou o prêt-à-penser acrítico, conservador e contente (nada seria contestável e toda a contestação seria insana), e isto simplesmente porque aceitava o rótulo de “direita” parecendo procurar uma ancoragem e alguma penetração nos partidos ou lóbis conservadores ou neo-liberais. Mas, no quadro da direita, tomou uma opção “pagã”, afirmando assim uma ruptura (dificilmente aceitável pelas direitas e os notáveis bafientos) em relação a uma “herança”, aquela da cultura dominante na Europa, quer esta cultura tenha permanecido sobre as suas posições católicas ou protestantes conservadoras, quer tenha optado por uma laicização (liberal-conservadora ou progressista de fachada), quer tenha apostado numa cantilena social-democrata ou que tenha feito da contestação de 68 um corpus congelado, repetido ad nauseum. Mas, malgrado a sua audácia e a sua pertinência contestatária, a opção pagã da Nova Direita revela algumas ambiguidades. Com efeito, o conceito de “paganismo” propaga acepções diversas e divergentes. Existe, de facto, um paganismo urbano, cosmopolita e trocista dos folclores rurais, estes que são os herdeiros autênticos do paganismo antigo. Ao lado deste paganismo urbano, sobrevive um paganismo, ou um pós-paganismo, rústico, que perpetua cultos rurais imemoriais. Mircea Eliade defini-lo-ia como depositário da imemorial religião do cosmos, sempre viva sobre um verniz cristão, com as suas procissões, os seus carnavais, as suas folias. Este paganismo rústico está mais próximo do “cristianismo popular e aldeão” do que do paganismo das elites urbanas estetizantes, que professam muito frequentemente um cosmopolitismo indiferente ao apelo das raízes. A ND, e isto nem precisa ser dito, deve evitar (e desconfiar) das artimanhas do paganismo urbano.

As lições de Robert Muchembled e de Jacques Heers

Enfim, no paganismo, seja urbano ou rústico, as opções são múltiplas (paganismos greco-romano, céltico, germânico, etc.), conduzindo por vezes a conflitos. Todo o discurso “neo-direitista” e pagão tomar para si a distinção estabelecida pelo professor Robert Muchembled entre “ cultura popular” e “cultura das elites”. A cultura das elites é essencialmente urbana, racional, visa criar conceitos instrumentais para colocar as almas em posição (“policiá-las”), para erradicar as expressões da religiosidade e da convivência populares, pagãs na sua essência, mas julgadas “grosseiras” e “desrespeitosas” pelos caciques e appartchicks de toda a espécie. A cultura popular, segundo Muchembled, foi jogada para as margens das nossas sociedades ou expulsa dos espíritos, depois da Idade Média. Ao fim de algumas décadas de rechaço, a juventude das cidades, as associações juvenis que haviam tido direito a representação no governo das cidades no fim da Idade Média, são eliminadas da dinâmica social( cf. Jacques Heers, , Fêtes des fous et carnavals, Fayard, 1983). Os homens reais, de carne e de sangue, devem ajoelhar-se devante a norma, novo ídolo conceptual, invenção da “cultura das elites”. Com base nesta apresentação (muito sucinta) da distinção teorizada por Muchembled, podemos constatar que o recurso aos filões orgânicos do pensamento europeu e o recurso à “cultura popular”( logo ao paganismo que lhe é subjacente e constitui o seu fundo vital) conduzem à rejeição de toda a norma rígida, chamada a trajar os espíritos e controlar as efervescências espontâneas sem jamais se inspirar no magma vital e na memória viva dos povos. Como não pensar no culto rígido da “Lei”, que Bernard-Henry Lévy havia anunciado como nova parusia (NdT: a segunda vinda de Cristo na mitologia cristã) bíblico-laica, ao mesmo tempo que condenava globalmente as expressões orgânicas do pensamento francês, enunciadas sem sucesso político real depois dos primeiros teóricos da “direita revolucionária”( Zeev Sternhell), no final do século XIX?

Sternhell e os seus terríveis simplificadores

Sternhell, contudo, elaborou uma equação demasiado simplista, em nossa opinião: aquela que associa a “direita revolucionária” (e as suas múltiplas manifestações) a uma prefiguração pura e simples do fascismo. Se os trabalhos de Sternhell são universitários e aprofundados, a exploração que deles fazem alguns simplificadores conduz a vários quiproquós. Se são caricaturados exageradamente e transpostos anacronicamente para a realidade contemporânea por turistas acidentais, jornalistas ou pensadores mediáticos pouco escrupulosos, as teses de Sternhell conduzem à condenação com antecedência, à priori e de maneira irreflectida, de toda a inflexão do pensamento político ou da sociologia em direcção a critérios ou metodologias orgânicas.

Porque estes ideólogos não têm mais que uma ideia fixa: estabelecer a equação entre pensamento orgânico e nazismo (este sendo abordado não como um fenómeno político da História alemã mas como um monstro universal, cujos traços foram estabelecidos de uma vez para sempre pelo cinema da propaganda americana depois de 1945). Ora, a civilização europeia está atravessada por filões orgânicos desde a antiguidade clássica. Ipso facto, se todos estes filões são intrinsecamente perversos e potencialmente “fascizantes”, o nazismo fantasmagórico dos nossos ideólogos e “mediocratas” torna-se uma velha coisa infatigável, gravada desde a noite dos tempos em todos os cantos e recantos do nosso pensamento, uma monstruosidade insinuada na sintaxe de cada silogismo ou de cada asserção que somos levados a enunciar. Uma caça permanente está aberta, perseguindo sem piedade todo o remanescente, palavra, ou borborigmo, exprimindo a perversidade do monstro, mesmo sem conhecimento do locutor ou do balbuciante ingénuo e inconsciente.

Se, a exemplo dos inquisidores habituais, se toma a perspectiva pagã da Nova Direita como uma das expressões tácitas, hábeis e camufladas do monstro, ipso facto a religiosidade imemorial das nossas províncias, aquela do camponês eterno, segundo Spengler e Eliade, converte-se na matriz do monstro, ao mesmo tempo que na “verdadeira religião da Europa”, tal como a entende Sigrid Hunke. São assim potencialmente criminalizadas escolas de etnologia como as de Van Gennep, as explorações dos contos e relatos populares como os de Saintyves, revistas pioneiras do século XIX como Mélusine de Henri Gaidoz e Eugène Rolland, ou a Revista das Tradições Populares de Paul Sébillot (cf. Nicole Belmont, Paroles Païennes, Imago, 1986).

Sigrid Hunke, crítica dos dualismos

Sigrid Hunke abordou os filões não-dualistas do pensamento, desde os Gregos aos nossos dias, filões que ela chama “unitários”. A História espiritual da Europa seria a História de um longo conflito entre um pensamento dualista, segmentário, hostil aos factos naturais, e um pensamento unitário, agregador e encantado pelo natural. As elites coercivas dominantes sempre se incluíram na tradição dualista. As elites populares, por sua vez, nas tradições unitárias, panteístas e naturalistas. Noutros termos, encontramos aqui, finalmente, uma metodologia bastante similar à de Muchembled. Se os filões unitários não são necessariamente pagãos e superam o politeísmo, não mostram uma agressividade feroz face aos deuses antigos e às crenças espontâneas do povo. Aceitam e incluem a diversidade politeísta na sua visão da unidade do cosmos. Para Sigrid Hunke, a mística medieval de Mestre Eckhart, o pensamento de Nicolas de Cues e o sufismo iraniano-muçulmano pertencem claramente à tradição unitária. A partir desta unidade de fé, saber e acção, postulada pelo unitarismo (“Deus ama os homens livres”, que crêem, sabem e agem) e esperada por Eucken (cf. supra) entramos nos domínios da Tradição (e dos seus inumeráveis avatares) e das tradições (as expressões populares, mas incontornáveis, da religião perene, como a definiu Schuon). A óptica assumida seria ao mesmo tempo orgânica, pagã-popular e unitária (não dualista).

Sigrid Hunke é muito severa em relação a Plotino ( mais severa do que o somos pessoalmente). Ela considera que a sua teoria das emanações, expressa nas Enéadas, conduz a um dualismo, ainda que menos rígido do que aqueles que nos legaram o platonismo, os dualismo gregos, o mito bíblico do pecado original, os cristianismos paulinos e augustiniano, ou, para o resumir numa palavra, o heleno-cristianismo. No pensamento de Plotino as emanações difundem-se a partir do Uno divino, mas, ao distanciarem-se desta fonte, caem na decadência, no mundo da matéria, privado de luz, o que nos conduz ao dualismo ideias/matéria, mundo ideal/mundo carnal. Sigrid Hunke prefere Scot Erigène, que afirma audaciosamente a unidade Deus-Natureza, para lá de todos os dualismos.