Fundamentos filosóficos para a Nova Direita (parte 4 de 4)

by RNPD

Revolução Metapolítica e referência a Gramsci

As rupturas da Nova Direita, ao nível epistemológico (organicismo vs mecanicismo) e ao nível religioso (unitarismo/paganismo vs dualismos) postulam uma Revolução Metapolítica. Esta deve articular as suas rupturas/proposições/revoluções (no sentido de retorno às origens) num projecto cultural coerente. Este projecto deve assentar sobre uma leitura das lições de Gramsci. Mas Gramsci define o “intelectual orgânico” como o intelectual ao serviço de uma superestrutura, seja conservadora ou contestatária do poder vigente. O hegemonismo vigente ou o hegemonismo contestatário vão tentar mobilizar em sua defesa os intelectuais de aparência tradicional ( saídos das estruturas tradicionais, como as antigas universidades ou a Igreja) ou independente (criadores isolados, fora dos circuitos estabelecidos) que não são automaticamente considerados como “empregados” de uma classe, categoria social ou de um partido. A ND não é a oficina dos intelectuais deste ou daquele grupo. O seu propósito é mais global, holístico, dirige-se ao conjunto dos cidadãos em todos os países europeus, para lá das suas diferenças sócio-económicas (com os riscos que isso implica).

A partir dos escritos de Gramsci a ND procura:

-A elaboração de uma nova cultura (inspirada nas configurações reprimidas da História do pensamento europeu);

– Iniciar uma “reforma intelectual e moral”, visando a emancipação das inteligências e a recuperação das configurações culturais reprimidas;

– Propor uma teoria do conhecimento, não oferecendo mais qualquer sistematização “porque esta produziria inevitavelmente a sua esterilização, solidificando-o em esquemas “lógicos” ou “formais” tais como aqueles em que o marxismo fora encerrado pelos dirigentes da II internacional”. Como para Gramsci, a teoria, segundo a Nova Direita, deve imbricar-se e enraizar-se no real histórico, ela é, neste sentido, um “historicismo absoluto”, uma penetração activista e intencional num passado, julgado sempre como vivo e não desvalorizado como um “amontoado de formas mortas”, para produzir as raízes ideológicas da transformação das mentalidades (cf. Dominique Grisoni e Robert Maggiori, Lire Gramsci. éd. Universitaires, 1973);

– Extirpar as deformações ideológicas de que padece a política em geral no mundo ocidental, isto é, o positivismo, o economicismo, o determinismo e o mecanicismo, tal como aquilo de que Gramsci havia querido purgar o marxismo;

– Restaurar o homem enquanto produtor/criador da sua História, procurando ao mesmo tempo libertá-lo definitivamente do seu estatuto abstracto de “homem universal”( onde não se define como mais que “ideia” ou “espírito”) permanecendo assim também na lógica de Gramsci. Para a ND, como para o teórico comunista italiano da metapolítica, o homem não é uma abstracção que terá a sua referência para lá de si mesmo ( Grisoni e Maggiori, op.cit.); com base nesta constatação podemos iniciar uma crítica da ideologia dos “direitos do homem “ sem contudo contestar o facto bem tangível de que os homens concretos e reais têm direitos, herdados da sua história particular, e que devem fazê-los valer, não contra as instituições orgânicas mas contra as manipulações mediáticas e as propagandas desenraizadas/desenraizadoras;

– Libertar o homem de todas as ideologias (burguesas, jacobinas, reformistas ou outras) que visam esboroá-lo para depois o guiar num processo de evolução reformista, onde se procura remendá-lo continuadamente, a partir do exterior, como se ele fosse um organismo que não possui no seu interior a sua própria razão de ser (A.Gramsci, Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce). Não podemos ser mais claros: Gramsci inscreve-se bem num filão saído da filosofia da vida, para lá do seu proclamado marxismo. Cabe à ND seguir os seus passos. Ela pode fazê-lo sem hesitação, sem trair as suas próprias opções de base.

Na Alemanha, o editor Eugen Diederichs, que funda a sua casa de edições em 1896, é um exemplo de gramscianismo não político que teve pleno sucesso. As suas intenções são claras: deplora a “mecanização” dos espíritos à qual é preciso opor uma “reforma” (intelectual e moral), baseada no vitalismo nascente, na contestação das igrejas fixadas e institucionalizadas, num retorno pré-ecológico à natureza, nas formas de socialismo que incluem elementos bergsonianos. Até à sua morte, e os seus herdeiros depois disso, Diederichs vai trabalhar para parar a expansão da “mecanização”. A sua editora constituiu não somente uma barragem contra a vaga de ideologias mecanicistas e não vitalistas, mas também e sobretudo uma base de lançamento, de onde foram desferidos fluxos incandescentes de vitalismo, vivificando o pensamento alemão, e as práticas induzidas por esse pensamento. Precisão: A editora de Diederichs existe ainda hoje e explora as mesmas temáticas (nota de 1998: para mais esclarecimentos sobre Diederichs, cf. Michael Morgenstern, «Eugène Diederichs: grand éditeur, romantique et universaliste », in Vouloir nº8/ nova série, Outono de 1996, e Robert steuckers, «Eugène Diederichs et le Cercle “Sera”» in Vouloir nº10/ nova série, Primavera de 1998; os dois artigos contêm bibliografias, para explorar mais em profundidade o impacto desta excepcional personalidade).

C – Para ilustrar e compor a teoria: abrir-se à literatura

Vimos que as primeiras manifestações do pensamento orgânico, no final do século XVIII, são acompanhadas de uma profusão literária e poética, que começa com o Sturm und Drang. Desde o fim do século XIX aos nossos dias a literatura constitui frequentemente, ela também, um protesto veemente contra as ideologias e as práticas políticas dominantes. Ninguém melhor que René-Marill Albérès seguiu passo a passo esta história literária europeia, explorou os múltiplos filões desta protestação secular. É por isso que três das suas obras nos parecem essenciais, deveriam a todo o momento servir-nos de referência:

– La révolte des écrivains d’aujourd’hui, Ed. Corrêa, Paris, 1949.

– Bilan littéraire du XXe siècle, Aubier, Paris, 1956.

– L’Aventure intellectuelle du XXe siècle. Panorama des littératures européennes, 4ième éd., Albin Michel, Paris, 1959-69( as quatro reedições sucessivas desta obra demonstram a sua importância didática e a amplitude do seu impacto). No contexto do presentemente exposto a referência às obras de Albérès é puramente didática. Visa sugerir ao futuro quadro do G.R.E.C.E. manuais pedagógicos bem estruturados de maneira a se orientar – e a orientar os postulados – no debate de ideias na Europa. Mas esta referência útil não isenta o quadro de recorrer, se possível, directamente aos textos dos autores.

Fenómeno oriundo das opções não conformistas do pós-guerra francês, a ND inscreve-se, também ela, na revolta dos escritores do século XX, e a sua revolta conduz às rupturas que invocámos desde o início da presente exposição. Esta revolta dos escritores do século XX é multiforme. René-Marill Albérès ensina-nos justamente a reconhecer, cada um por si mesmo, estas formas inumeráveis, a encontrarmo-nos nesta floresta das letras francesas e europeias. O existencialismo e as suas traduções literárias fazem parte de opções voluntaristas e afirmativas. O primado da existência sobre a essência induz, entre muitas outras coisas, a uma revalorização do aventureiro (cf. Roger Stéphane, Portrait de l’aventurier, com prefácio de Sartre). Ora, as pulsões, os gestos e os compromissos do aventureiro sempre seduziram o nosso público, os nossos leitores. É, espontaneamente, em direcção a este tipo de literatura que fomos e somos atraídos.