Análise das eleições francesas e considerações estratégicas (parte I)

by RNPD

No rescaldo das recentes eleições presidenciais francesas é importante fazer a análise do que sucedeu e das consequências que dali devem ser retiradas pelas forças nacionalistas do país e da Europa, porque muito do que ali se passou, ou tem passado, serve para elaborar um quadro de reflexão para outras realidades do Continente. A Frente Nacional de Le Pen foi severamente batida e este desfecho pode ir além de uma derrota numa simples batalha mais, as suas implicações obrigam a repensar quase tudo: que objectivos a atingir, como os atingir, por consequência, que “guerra” travar.

No campo eleitoral, uma derrota muito gravosa

Desde logo é fundamental compreender bem a dimensão da derrota eleitoral; tratou-se de um resultado extremamente negativo e no qual não se encontram atenuantes ou quaisquer sinais positivos:

1- A FN perdeu votos em termos relativos, de 16,7% em 2002 para 10,4% em 2007,

2- A FN perdeu votos em termos absolutos, quase um milhão de eleitores a menos em relação às últimas presidenciais,

3- A FN não conseguiu sequer ser a principal força política fora dos partidos tradicionais do sistema, ficou apenas em 4ªlugar, o que revela que, afinal, não estava de todo consolidado o seu papel de “grande alternativa”.

4- Os resultados de 2007 representam uma grave inversão da tendência de crescimento do voto nacionalista. Os votos na FN foram como se segue (em números arredondados): 4,4 milhões em 1988, 4,6 milhões em 1995, 4,8 milhões em 2002, 3,8 milhões em 2007. Ou seja, a FN não se limitou a perder eleitorado, teve o seu pior resultado de sempre em presidenciais e regrediu décadas!

De facto, o resultado da FN pode ser lido de maneira ainda mais penosa se pensarmos que a abstenção se ficou pelos 15,4%. Ou seja, mesmo que absolutamente toda a população francesa tivesse votado e mesmo que todos os votos dos abstencionistas fossem atribuídos a Le Pen, ainda assim a FN não passaria à segunda volta.

Uma estratégia errada

O que esteve, então, por detrás deste desaire da direita nacional francesa? O fenómeno Sarkozy, dizem muitos…mas não foi simplesmente que Sarkozy tenha ido conquistar eleitorado da Frente mas antes que a Frente ofereceu voluntariamente a Sarkozy uma parte do seu eleitorado. A verdade é esta: A estratégia da FN foi um erro de casting a toda a linha. Na ânsia de procurar a sanção do sistema, de “respeitabilidade”, a FN alterou a sua imagem e o seu discurso, e de um partido que, apesar de tudo, constituía um refúgio dos que lutavam e defendiam a identidade europeia do país passou a pretender apresentar-se como o partido de um patriotismo republicano e integracionista, franceses seriam, assim, todos os que aceitassem “os valores da República”, independentemente da sua religião ou proveniência.

E quando é que isto aconteceu? Precisamente num período em que a França vira exércitos de delinquentes provenientes de África e Ásia incendiarem as suas ruas, precisamente quando a imigração apresentava a sua face mais negra. A FN, que foi durante décadas o único partido com coragem para atacar a questão da imigração de uma perspectiva mais patriótica, e que foi por isso o grande demónio da política francesa, não aproveitou o eclodir de problemas que vinham precisamente dar-lhe força e justificação, problemas cujo tratamento haviam conduzido à sua marginalização partidária. Quando a realidade bateu à porta, não foi a FN que por lá apareceu a reclamar para si a razão…

Enquanto Sarkozy se referia aos arruaceiros imigrantes por “escumalha”, convidava os que não gostavam da França a fazer as malas e partir, falava de identidade nacional (ao ponto de ter proposto a criação de um ministério para isso) e falava de uma França Cristã, a FN colocava nas ruas painéis propagandísticos com imagens multiculturais, ia para os subúrbios, onde os problemas tinham acontecido, explicar aos “jovens inadaptados” que eles eram “ramos da árvores francesa”, criticava o modelo de integração da França e caucionava o Islão como parte da realidade religiosa do país!

Ou seja, a FN ficou com a (má) fama, por ter sido durante anos o partido que atacava a imigração, e a UMP de Sarkozy com os (bons) proveitos, na hora em que eles estiveram lá para ser colhidos. A FN perdeu a oportunidade de reivindicar a sua razão, de reforçar o seu discurso identitário, isto quando o contexto político o possibilitava, em vez disso permitiu que outros o fizessem, com a agravante que esses outros foram os grandes responsáveis, de anos, pelo estado a que chegaram os subúrbios, e ainda conseguiu a proeza de confundir, dividir e alienar parte do seu próprio público no tema central que tradicionalmente agregava as diferentes sensibilidades do partido. Conseguiu, enfim, surgir contraditório e ziguezagueante até na temática que mais distinguia o partido dos outros, e isto quando ao longo dos anos já fora somando uma boa quantidade de contradições programáticas e oscilações de discurso noutros temas.

Algumas conclusões sobre os eleitorados

Mas os erros estratégicos da FN não podem ocultar outras questões reveladas por estas eleições, nomeadamente no que ao eleitorado diz respeito.

Um dado importante, esperado e lógico, e que confirma o que já sucedera noutros países, é que o voto proveniente da imigração foi marcadamente à esquerda, sobretudo absorvido pela candidatura de Ségolène Royal. Isto é, como tantas e tantas vezes se foi dizendo, a imigração está a enviesar o panorama político-partidário europeu. Acresce que essa alteração do eleitorado provocada pela imigração é sobretudo prejudicial aos partidos nacionalistas, os que menos votos conseguem aí, e se já o é assim, no futuro, pela lógica dos números, as dificuldades para as organizações identitárias crescerão.

Julgo que estas eleições também fazem cair por terra um mito algo enraizado entre os movimentos nacionalistas ou ditos patrióticos: o de que existe uma enorme massa descontente ou abstencionista que constitui uma espécie de eleitorado natural da “direita nacional” à espera simplesmente de ser recolhido. Numas eleições que foram muito mobilizadoras e cuja abstenção foi muito reduzida a distribuição dos votos leva-nos a pensar que provavelmente essa massa não existe…assim sendo não há senão duas alternativas, actuar sobre o discurso/imagem para procurar novos votantes e/ou criar o eleitorado necessário.

(continua)