Análise das eleições francesas e considerações estratégicas (parte II)

by RNPD

Aquelas duas opções pressupõem estruturas diferentes. A actuação sobre a imagem/discurso deve ser sobretudo uma preocupação partidária, de organizações que vão a votos, nesse sentido, é importante conseguir, sem abandonar os princípios que formam um partido nacionalista, ler a realidade circundante e perceber como é que determinadas alterações na forma como o partido se projecta para o exterior, ou na forma como é percepcionada de fora, podem significar um aumento da sua implantação, um acréscimo de apoios ou votos.

Mas há que ter em atenção um outro aspecto: mesmo essa acção de compreensão do meio circundante por forma a melhor potenciar a imagem ou o discurso em termos de votação não pode ignorar que o crescimento eleitoral encontra os seus limites no conjunto de pessoas que se revêem politicamente na vizinhança dos valores e ideias de que o partido é representante. Nesse sentido pode dar-se o caso de não haver gente suficiente numa sociedade para, mesmo fazendo a leitura mais acertada da linguagem e imagética que melhor serve o partido, conseguir um crescimento ou uma votação capaz de o conduzir à vitória. Isto é, numa linguagem económica, pode não haver num qualquer contexto mercado para as ideias e valores que os partidos nacionalistas representam. E é importante compreender isto porque nesse caso é fundamental tentar criar esse mercado.

Ora, isso já é também da competência de estruturas que vão para além dos partidos, cabe no âmbito de associações, jornais e todas as instituições que consigam agir sobre o ambiente cultural e sociológico, o que determina os valores sociais. O que significa que há espaços políticos diferentes e complementares entre um partido e outras estruturas que agem sobre a sociedade, e que a compreensão dessa complementaridade é essencial, nem essas instituições devem servir de oposição ao partido nem os partidos devem pretender controlar ou dirigir essas estruturas suplementares, do bom funcionamento de todos é que pode ser criado esse novo público.

Por onde crescer?

1-Uma análise da distribuição de votos entre os candidatos diz-nos que 41% dos votos em Sarkozy tiveram por mote o combate à insegurança e 26% o combate à imigração. O voto em Sarkozy não foi de todo um voto “liberal”, ou melhor, não foi por motivos “liberais”, não foi o peso do Estado sobre a economia a ditar aquele voto, até pelo contrário, foi um voto “autoritarista”. Sabemos também que quase 20% dos votos em Le Pen nas últimas eleições foram agora absorvidos pela candidatura de Sarkozy( o que coincide com a quase totalidade dos votos perdidos agora pela FN). Isto permite-nos ler uma certa interpenetração entre estes dois eleitorados, facilitada em parte pela ambivalência de discurso da FN e em parte forçada pela posição mais dura assumida por Sarkozy e pela lógica do voto útil. Se nestas eleições essa confusão funcionou em favor de Sarkozy a verdade é que abre também espaço para que no futuro o sentido do fluxo se inverta e seja a FN a beneficiar dessa proximidade temática; afinal, no conjunto, entre os que votaram por pretenderem ver restabelecida a autoridade das instituições, e os que votaram contra a imigração, falamos de 67% de votos da UMP que podem e devem ser disputados pela FN.

2-Saindo do campo dos “valores” para o campo económico é igualmente importante notar que Le Pen foi o mais votado entre o operariado e o segundo mais votado entre as pessoas que se diziam “desfavorecidas”. Em contraponto foi o menos votado (de entre os principais candidatos) entre os que se sentiam “favorecidos” e os “quadros superiores”. Isto é, parece que o discurso “solidário” tem muito mais impacto entre o eleitorado nacionalista que o discurso liberal, e se a FN tem oscilado constantemente ao longo dos anos entre os dois, parece-nos que este será o momento apropriado para também aí se retirarem ilações e terminarem ambivalências, o eleitorado liberal tem outras opções e preferências e é a ideia de justiça social (e não a do mercado sem sujeição a outra ética) que tem aceitação entre o povo que apoia as forças patrióticas, é o discurso solidarista que surge natural nos partidos nacionalistas, e é uma posição que, devidamente trabalhada, não só permite a manutenção do voto dos “trabalhadores” como tem aceitação natural entre as “classes médias”, abrindo aí espaço para crescimento.

Estes dois pontos são essenciais para saber o que fazer agora, indicam dois trajectos adoptáveis para as forças nacionalistas, e não só em França, porque o diagnóstico acima parece-me generalizável a grande parte dos países da Europa Ocidental. Temos assim dois pólos de acção à disposição dos nacionalistas, um na área dos valores e outro na área económica. A convergência e unificação desses eixos leva-nos a falar de uma opção “conservadora-solidarista”, ou seja, a recuperação de uma tradição de conservadorismo continental, afastada dos modelos anglo-saxónicos, com reforço da primazia da ideia de comunidade sobre a de liberdade. Falamos de uma posição que liga um conservadorismo de valores a um pensamento económico comunitarista, que, longe de representar qualquer contradição, será antes, por fim, a regeneração de uma união natural que a modernidade liberal pretendeu destruir.

Orientações politico-culturais para a criação de uma nova base social

Tendo presente essa opção clarifica-se assim o objecto, e dessa forma, identificado o caminho que se pretende percorrer, torna-se mais fácil saber como actuar então sobre a sociedade, como conceber o eleitorado de que precisamos. A formação desse público passa por:

1- Fazer sobressair as diferenças face à direita liberal, nomeadamente no que diz respeito ao alinhamento atlântico, ao sistema económico e à construção europeia. Assim, é importante o distanciamento em relação à guerra de civilizações propugnada pelo “ocidentalismo”, centrando devidamente o problema, denunciando-a pelo que é, uma guerra de manutenção da hegemonia do sistema vigente pelos benefícios políticos e económicos que as intervenções militares visam. Reconhecendo aos diferentes povos o direito a viverem de acordo com os seus costumes e tradições, sem que se vejam forçados a assumir por seus modelos democrático-liberais que lhes são culturalmente estranhos mas que são úteis à abertura de mercados aos EUA ou à defesa da sua posição de “senhor do mundo”. Da mesma forma, daí, como da recusa dos colonialismos, advém a coerência de exigirmos para nós a preservação da nossa tradição e cultura quando ameaçadas por influências estranhas ao mundo europeu, e é nesse sentido que devemos abordar o choque civilizacional.

É importante rejeitar esta U.E., negando os seus fundamentos e compreendendo a sua natureza perversa, mas sem cair nos hábitos dos velhos nacionalismos clássicos, isolacionistas e soberanistas. É urgente familiarizar o povo com um nacionalismo capaz de se afirmar empenhado numa construção europeia (sem que isso seja percepcionado como um paradoxo inultrapassável) num modelo confederal e descentralizado assente em princípios de subsidiariedade e num pilar identitário de defesa e preservação dos povos ou comunidades tradicionais da Europa, uma Europa, por sua vez, claramente delimitada nas suas fronteiras. O discurso clássico nacionalista, o que tem aversão à Europa, é uma perda de tempo e motivo de troça para a ordem internacional que vigora porque não há qualquer possibilidade de um país europeu, por si só, isoladamente, causar qualquer transformação nos paradigmas politico-económicos. Já a Europa como um bloco é absolutamente essencial para o funcionamento de qualquer sistema internacional, e se a U.E. é neste momento uma guarda-avançada do que existe uma Europa-Identitária representaria a ruptura completa da “máquina de trucidar os povos”, pois que se trata de um espaço com um peso fulcral no comercio internacional e, querendo assumi-lo, na geopolítica mundial, com uma situação geográfica privilegiada em relação à Ásia e a África.

2- Recuperar a boa esquerda. Os movimentos nacionalistas têm um legado negativo com que lidar, que é a divisão entre esquerda e direita nos pressupostos saídos da segunda guerra mundial e acentuados durante a guerra fria. Desde então foi instalada entre os europeus uma lógica que associa o nacionalismo à contra-imagem da esquerda, ou por outro prisma – o do maniqueísmo marxista – passa a imagem dos nacionalismos como sendo de extrema-direita e braço útil do capitalismo. Ora, o nacionalismo não é exclusivamente de “direita” ou de “esquerda”, ou dito doutro modo, é transversal, do mesmo modo os nacionalismos não são aliados do liberalismo por combaterem os fundamentos do marxismo como não são aliados dos marxistas por combaterem os fundamentos liberais, e a verdade é que, de um lado e outro, marxistas e liberais gostam de associar os nacionalismos ao campo adversário.

Há pois que insistir perante os trabalhadores que os nacionalismos estão do seu lado, recusando as lutas de classes, mas exigindo uma ética solidária dentro da nação, dos mais favorecidos em relação aos menos privilegiados. Há que persistir em afastar o nacionalismo da extrema-direita bacocamente reaccionária, e há que recuperar o bom povo de esquerda explicando-lhe que as “forças nacionais” estão na primeira linha da defesa dos seus direitos. Porque há que demarcar claramente a situação, a maior parte do eleitorado trabalhador que vota à esquerda não o faz por estar interessado nas lutas dos transsexuais, no discurso dos feminismos radicais ou nas reivindicações do recém chegado africano, não está interessado no combate à tradição religiosa ou na igualdade de cultos, tudo isso são questões da burguesia desocupada que usa o discurso socialista, que sabe ter eco entre as classes populares, para fazer passar valores subversivos das sociedade europeias; não, os trabalhadores votam à esquerda por uma razão muito simples: foi a esquerda que melhor se apresentou( ou fez representar) na linha da frente da luta pelos seus direitos laborais, e os trabalhadores receiam os nacionalismos pela associação que, em parte por responsabilidade própria, se permitiu fazer entre os patriotas e a “extrema-direita” mais obsoleta e mais ridiculamente elitista (por exemplo uma parte da direita de “trono e altar”).

Da mesma forma é urgente acabar com o legado dicotómico da guerra fria no campo nacionalista, o inimigo hoje não é um omnipresente comunismo, as alianças e antagonismos a que a guerra fria obrigou – lançando muitas vezes o nacionalismo para a mesma vizinhança de direitas imprestáveis e apresentando-lhe o papão esquerdista como o mal absoluto – deixaram de fazer sentido. É tão antitético ao nacionalismo o comunismo quanto o global “ocidentalismo americanista”.

Temos adversários fidagais entre as forças reaccionárias e de direita liberal como temos muitos aliados potenciais entre os homens de esquerda, cuja rejeição do nacionalismo resulta sobretudo de um mecanismo reflexivo e instintivo criado por anos de propaganda e hegemonia cultural dos derivados marxistas. Saibamos trabalhar para acabar com estas confusões e libertar os nacionalismos dessas amarras.