Os círculos do circo

by RNPD

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Helena Roseta, candidata independente à câmara de Lisboa, queixa-se de ser discriminada na cobertura noticiosa das televisões, afirmando que teve apenas 15 minutos dedicados à sua campanha numa semana.

“Discriminação vicia as regras do jogo democrático”, escreveu-se no site oficial do movimento Cidadãos por Lisboa (www.cidadaosporlisboa.org).

Helena Roseta não representa nada de novo na vida política portuguesa, tal como Manuel Alegre nada representava de novo; apesar das pretensões de um e outro, ambos são, desde há anos, figuras destacadas nos velhos partidos políticos de poder em Portugal, e nem um nem outro representam qualquer crítica de fundo ao espaço político nacional. Que isto fique claro, também eles são um simples produto do triunfo da aparência sobre o conteúdo na esfera política, criações de marketing e pouco mais, sucede simplesmente que em situações particulares se sentiram órfãos dos aparelhos partidários e da sua força…

Porém, esta declaração de Helena Roseta é importante, e isto porque está-lhe subjacente o reconhecimento de algo que há muito nos parece evidente, esta democracia moderna é na realidade uma mediocracia. Só existe politicamente quem aparece nos grandes media, sobretudo na televisão, quem não aparece não pode ter aspirações de poder. A televisão cria a sua realidade. E demasiadas vezes essa é a única realidade colectiva, partilhada ou até conhecida.

O poder do “demos” é cada vez mais o poder dos media, são estes que formam a “opinião pública”, é através destes que se eliminam candidatos e se fabricam outros de “grande valia”. Grande valia essa que, em acessos de lucidez, não conseguimos realmente vislumbrar para lá da aparência… mas no final a televisão (e os jornais) garante-nos que sim, que são de enorme competência, gente excepcional, grandes “candidatos”( seja lá qual for o cargo…), e acaba-se por se interiorizar aquilo.

Acontece que para ter força nos media é preciso poder financeiro e redes de influência social. Isto gera um paradoxo interessante que explica a blindagem do sistema político e a razão por que, no regime da suposta alternância, se sucedem as décadas sem alternância alguma. É que, do ponto de vista político-partidário, se os poderes financeiro e societário antecedem o acesso à comunicação eles, porém, dependem dela, ou seja, tem poder nos media quem já tem poder à partida mas como são os media que, em larga medida, criam poder social, gera-se um círculo vicioso de difícil saída, que permite que as mesmas ideias e as mesmas forças se propaguem constantemente, mesmo que, às vezes, as operações de cosmética encomendadas na comunicação social e no entretenimento, sirvam para convencer os “consumidores de publicidade e propaganda” de que existe uma renovação de gentes, ideias ou propósitos, ou de que existe uma evolução, uma mudança.

Obviamente que o sistema mediático não é completamente fechado, existem focos de dissidência ou contestação, mas são micro-realidades que por enquanto não alteram o desenho da macro-realidade; esta última continua a funcionar como um rolo compressor sobre a sociedade, uniformizando-a e definindo-lhe os contornos. Helena Roseta sabe-o, nós sabemo-lo melhor.

Porque para além da questão do “aparecer”, existe uma outra igualmente importante, o “como aparecer”. Porque tanto como aparecer, que significa, no fundo, existir publicamente, é preciso aparecer bem, já que a imagem projectada de alguém ou de algum grupo marca determinantemente a forma como a sociedade reage perante o objecto descrito pelos media. Esta, naturalmente, é já uma questão que não se coloca nem a Helena Roseta nem a outras personalidades políticas que surgem como divergentes sem realmente o serem, mas apenas aos que o são de facto. É, pois, uma procedência que diz respeito sobretudo aos grupos que não têm os mesmos mitos fundadores dos regimes vigentes: a “liberdade dos liberais” e a “igualdade dos universalistas”.

E do paradoxo da “nenhuma liberdade para os inimigos da liberdade” o mesmo regime chega ao “nada de igualdade para os inimigos da igualdade”. Isto é, trata de forma desigual, menor, os que não partilham dos princípios do igualitarismo universalista. Gerando mais um dos paradoxos que fecham o próprio sistema sobre si mesmo, que o protegem contra a mudança de fundo.

E a solução – as vias de saída do labirinto –, para quem a pretende, é difícil, porque implica um jogo de equilíbrios precário entre o “espaço estatal” e o “espaço privado”. Isto porque o espaço estatal é aquele em que os tais mitos fundadores do pensamento filosófico liberal (não confundir com o liberalismo económico “stricto sensu”) ganham um enquadramento legal ou institucional, o que significa que é através desse espaço que são impostos à sociedade e é esse espaço que combate os mitos políticos divergentes, por textos constitucionais, outros códigos legais ou através da constituição de associações estatais ou para-estatais que com o dinheiro do erário público trabalham contra os grupos dissidentes ou de reacção.

Por outro lado o “espaço privado” é o reino de quem melhor está no sistema, isto é, de quem aí mais poder tem e de quem mais beneficia do enquadramento económico-social existente. Naturalmente que aí os grupos dominantes têm interesse em assegurar a continuidade (ou o aprofundamento) das variáveis que lhes permitiram alcançar o estatuto de que dispõem e não em financiar ou permitir a promoção de quem procura alterações ao paradigma.