Prelúdio para combate

by RNPD

O texto poético que apresentamos, da autoria de Maria da Conceição Morgado Ramos Lopes, serve de introdução ao pequeno dossier que se lhe seguirá,no mesmo sentido mas com premissas distintas, contra a ratificação do Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (assinar a petição aqui).

NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA

Incipit
– Os [factos] vão ficar sem evidência, em [fatos] de “virar casacas”?!…
– Vai deixar de existir [rectidão]? Vamos ter [retas], em vez de [rectas]?
– O [repto], vai passar a ser [reto]? E o [recto] (anal), passa a [reto], igualmente?…

Portugal, madrugada de 13 de Novembro de 2007.

Exmo. Senhor presidente da República Portuguesa
Senhora ministra da Cultura do Governo português:
Mano Zézé Gambôa [1],

Querem mutilar a minha língua materna!:
– Vão arrancar-lhe braços, pernas; sobrolhos…
E eu, que ainda arrasto comigo ecos de roquettes, bazookas e morteiros, zumbidos de balas nos meus ouvidos, eu que piso ainda um rasto de pólvora pelos trilhos que percorro, eu a guerreira luena que me intitulo, Senhor Presidente, Senhora Ministra, Mano Gambôa, sinto-me de novo órfã… Apetece-me pôr uma braçadeira negra num braço (o esquerdo) e gritar ao Mundo o meu luto:
“Querem mutilar a minha língua materna!”
Não posso imaginar a Língua Portuguesa sem braços, nem pernas; sem sobrolhos…
– Vão arrancar o [p] ao vocábulo [óptimo], que passará a ótimo: um horror, uma palavra coxa, com tudo o que de “menos bom” isso acarreta;
– Vão arrancar o [c] a [acção] e ela virará ação fraca, com tudo o que “de mais fraqueza ainda”isso acarreta e significa;
– Vão arrancar os sobrolhos à 3ª pessoa do plural do Presente do Indicativo dos verbos LER, VER. Vão despojar o meu Léxico de acentos circunflexos nas duplas vogais [êe]… [Lêem] e [vêem] passarão a leem e veem, viúvos prematuros e forçados de fantasias linguísticas, ó Camões! Vão mutilar a nossa Língua.
[Leem] + [veem]: vamos ter uma língua hermafrodita, já nem vamos saber se é “menino ou menina”… Vai ser uma língua [bi-], sem sobrolhos…

Exmo. Senhor presidente da República Portuguesa
Senhora ministra da Cultura do Governo português:
Mano Zézé Gambôa,

Querem mutilar a minha língua materna!
E eu, guerreira luena, bilingue, sinto já amputações no meu corpus… Imagino os meus [óptimos] sem amparo, sem muletas – miúdos de algum muceque roubaram-lhas, Mano, para vender na candonga… Ou no Roque Santeiro (ex-Quinaxixe) [2]…
Vou ficar sem [baptismo]. Vou virar agnóstica, descrente, sem a [acção] benéfica dos Deuses que [vêem] e [lêem] o meu Destino/Fado…
No Brasil, as águias vão perder o encalce do seu [vôo]. E as mulheres grávidas, deixarão de ter [enjôo]…
Luandino Vieira, as suas [Estórias] continuarão sem agá? E a nossa [História], o que dirá, ela, de tudo isto? Desaforo linguístico…
– As nossas [acções] tornadas ações, ficarão “com quem as pratica”?
– Os oráculos que [prevêem], se preveem, não vão despertar a “fúria dos Deuses”?
Vou ficar sem [optimismo], Mano, porque otimismo é carência…
Vou deixar de ser [activa], porque atividade perdeu a língua…
– Os [factos] vão ficar sem evidência, em [fatos] de “virar casacas”?!…
– Vai deixar de existir [rectidão]? Vamos ter [retas], em vez de [rectas]?
– O [repto], vai passar a ser [reto]? E o [recto] (anal), passa a [reto], igualmente?…
Há um fogo fátuo pairando qual ação desgastada, por sobre a nossa Língua, ó Camões!

Exmo. Senhor presidente da República Portuguesa
Senhora ministra da Cultura do Governo português:
Mano Zézé Gambôa,

Querem mutilar a minha língua materna!:
– Vão arrancar-lhe braços, pernas; sobrolhos…

[1] Zézé Gambôa, realizador de cinema prestigiado (ex.: O HERÓI, premiado em Sundance-E.U.A., Veneza e noutros festivais), Angolano, faz questão de grafar o seu nome desta forma.

[2] Designações tipicamente angolanas (Luanda et alii), que me reservo o direito de não explorar.

1.6 % de alterações-ajustamentos no vocabulário português de Portugal, versus 0.45 % no vocabulário português do Brasil: dou um doce a quem adivinhar qual dos dois países sairá ganhador; e qual dos dois perdedor? – mais um doce a quem o adivinhar…

Conceição Ramos-Lopes