Weltanschauung

by RNPD

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(…)Qualquer análise sem preconceitos da Antiguidade grega produz pudibundos estremecimentos de alarme entre os que escreveram a novela da História universal. O que sucede é que aos gregos foi atribuída a patente da invenção do sistema político vigente. Do que imperou em ambos os lados da Cortina de Ferro pois, ainda que pareça incrível, capitalistas e comunistas não se guerrearam pela democracia. Guerrearam-se para estabelecer qual dos lados era o mais democrata. No debate entre as superpotências do mundo bipolar do século XX tudo esteve em discussão. Menos uma coisa: a democracia. Foi permitido matar por qualquer outro tema: propriedade dos meios de produção, imperialismo económico ou imperialismo político, ditadura do proletariado ou ditadura do dinheiro, comité ou soviete. Mas pela democracia, não. A democracia esteve, e continua a estar, fora de discussão. A democracia herdámo-la dos gregos. A única coisa que ainda hoje é permitido discutir é se Platão foi – ou não – o primeiro comunista ou o primeiro teórico da oligarquia. A única coisa que , todavia, se discute raivosamente, é quem é o herdeiro mais directo. Dos gregos. Os pais da democracia. Pois claro…

Vejamos: de todos os gregos, não. Porque a novela – como todo o policial “comme il faut” exige gregos bons e gregos maus. Para usar os termos cunhados em 1939: gregos aliados e gregos do eixo. De um lado os democratas liberais e, do outro, os fascistas. Se Platão é o predecessor de Marx, então Licurgo tem que ser o percursor de Hobbes. Se Sólon é quase um George Washington, então Leónidas, com os seus trezentos espartanos, inevitavelmente tem de ser algo assim como…bom, eleja o leitor mesmo, com total liberdade, o personagem da sua preferência entre a populosa galeria de tiranos, ditadores, déspotas, opressores, repressores e personagens malditos que nos presenteia a História oficial.

Esta visão estereotipada, binária e maniqueísta da Grécia é o dogma vigente. É a história da boa e democrática Atenas contra a obscura e totalitária Esparta. É a história dos nobres, ponderados, tolerantes e pluralistas atenienses contra os rígidos, belicosos, fanáticos e autoritários espartanos. São os rapazes bons de Atenas contra os maus de Esparta.

Claramente, o dogma não pode deixar de despertar suspeitas. Tanta perfeição de um lado e tanta perversão do outro resulta duvidosa. É como se o argumentista desconhecesse as suas próprias regras, quanto aos bons não poderem ser totalmente bons nem os maus completamente maus. Naturalmente, tratando-se de algo tão importante como a nossa instrução cívica, certa liberdade poética é admissível. Mas, ainda assim, a história tresanda a manipulação. Sobretudo quando se descobre que grandes luminárias de Atenas – nada menos que Sócrates e Platão – tinham um sólido respeito pelos espartanos e pelo seu estilo de vida. Mas claro, para percebê-lo é preciso ler Platão. E quem se vai pôr a ler Platão hoje em dia?!

Todavia, se pegamos nos próprios autores gregos, muito rapidamente se descobre a terrível e monstruosa verdade: os gregos não foram “democratas”, de todo! Para Aristóteles, a democracia é uma perversão da politeia – assim como a tirania é uma perversão da monarquia –, e vale a tendenciosidade inacreditável dos tradutores para tergiversar os termos. Para Platão a democracia é simplesmente uma notável estupidez política já que, segundo ele, o Governo deve estar nas mãos de uma minoria sábia. Em Atenas havia mais escravos e cidadãos de segunda do que homens livres. Na realidade, toda a celebrada democracia ateniense não é senão um luxo político a que, em certas circunstâncias, se permitiu a aristocracia terrateniense e a burguesia comerciante.

Os espartanos simplesmente não tiveram a veleidade de dar-se a semelhantes luxos. Eram sóbrios. Enfrentavam as épocas de paz e prosperidade com o pessimismo natural do campesino que sabe que as boas colheitas não se dão todos os anos. Sabiam que é muito salutar ser previdente e medido nas pretensões. Por isso, quando tiveram que enfrentar épocas de angústia e perigo, simplesmente apertaram os cinturões e – sem mudar em nada a sua organização social – puseram-se a resistir. Estavam organizados para resistir. A Grécia não se teria aguentado se lhe tivessem falhado os espartanos. Quando Esparta deixou de resistir a Grécia esfumou-se, tornando-se macedónia primeiro e simples província romana depois.

Essa é a verdade. A crua verdade. Nada nesta vida nos é dado de um modo aproximadamente duradoiro se não lutamos por defendê-lo. E para lutar com alguma probabilidade de êxito há que estar organizado para combater. De outro modo, ao primeiro embate do inimigo produz-se uma debandada. E há sempre um inimigo. Sobretudo em política. É assim e sempre foi, ainda que hoje muitos pretendam negá-lo. Ainda que actualmente tenha surgido uma certa praga de indivíduos defendendo que, para não ter inimigos é suficiente declarar a sincera intenção de não os querer ter. É ridículo. Mais de dez mil anos de História contradizem esta fantasia. É como pretender acabar com os ladrões declarando a nossa mais honesta intenção de não resistir a um assalto.

Os espartanos não toleravam ser assaltados e organizaram-se para resistir. Tinham orgulho e determinação. Tinham sobriedade e disciplina. Tiveram grandes defeitos, é certo. Mas também tiveram grandes heróis. Plutarco disse deles que se cultivavam sistematicamente no exercício de quatro virtudes fundamentais. Primeiro: não queriam nem podiam suportar a ideia de um individualismo egocêntrico, contrário ao espírito da sua comunidade. Segundo: cada um deles sentia-se conscientemente parte orgânica da sociedade e, por isso, todos se mantinham firmemente unidos por detrás dos chefes. Terceiro: esforçavam-se por vencer o seu egoísmo mediante a exaltação do heróico e a moderação nas pretensões pessoais. E quarto: concebiam as suas vidas como um acto de serviço realizado em benefício dos demais.

Solidariedade, lealdade, disciplina, autocontrolo, heroicidade, vocação de serviço. São as virtudes duras de homens duros que levam a vida a sério. Alguns dizem que foram excessivamente duros e que, ainda assim, estiveram longe de ser perfeitos. Claro que não foram perfeitos. Estiveram tão longe da perfeição quanto qualquer ser humano pode estar. E quanto a terem sido duros: por acaso a vida é branda? A vida delapidada em idiotices pode chegar a ser fácil, mas uma vida vivida com intensidade e honradez é qualquer coisa menos um passeio no parque. Por acaso não é certo que resulta terrivelmente difícil viver a vida de tal modo que não tenhamos do que nos arrepender quando chega o momento de morrer?

Os espartanos acreditaram que sim, quiçá fizéssemos bem em crê-lo de novo também nós. E não há por que amargurar-se: os espartanos não foram menos felizes que nós.

Mais, tiveram algo que só muito poucos têm hoje em dia: tiveram do que se orgulhar.

Denes Martos, in Los Espartanos