Da religião demo-humanitarista

by RNPD

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(…) Mas é ali que a democracia moderna revela as suas pretensões ao estatuto de religião: não é já um modo de escolha dos governantes, ela tem um corpo doutrinário infalível e obrigatório, ela tem um catecismo: os direitos do homem, e fora dos direitos do homem não há salvação.

A democracia moderna detém outros elementos indispensáveis a qualquer religião.

Um paraíso: Os países democráticos liberais, com, de preferência, uma legislação anglo-saxónica.

Um purgatório: As ditaduras de esquerda.

Um inferno: As ditaduras ditas de direita.

Um clero regular: os pensadores encarregados de adaptar as teses marxistas às sociedades liberais.

Um clero secular: Os jornalistas encarregados de disseminar esta doutrina.

Cerimónias religiosas: As grandes emissões de televisão.

Um índex tácito que interdita que se tenha contacto com toda a obra cuja inspiração seja repreensível. Este índex é admiravelmente eficaz sob a forma de conspiração do silêncio mediático, mas é por vezes utilizado de maneira mais draconiana ainda: os livros julgados deficientes do ponto de vista da democracia são, não ainda queimados numa fogueira, mas já retirados das bibliotecas escolares, como aconteceu em Saint-Ouen-L’Aumône.

Uma Inquisição: ninguém tem o direito de se exprimir se não está na linha recta da religião democrática e, se consegue ainda assim fazê-lo, paga as consequências: o linchamento democrático a que foi submetido em França um Régis Debray ( que ninguém suspeitaria de não ser democrata) porque colocou em causa a legitimidade dos crimes de guerra cometidos pela NATO em 1999 sobre o território da Jugoslávia é exemplar a este respeito.

Congregações de propagação da fé: Oficinas de desinformação, ditas de «comunicação» ou de «relações públicas».

Missi-dominici e bispos in partibus sob a cobertura, seja das diversas ONG, seja da ONU.

Os indultos, geralmente atribuídos a antigos comunistas.

Uma legislação penal e tribunais encarregados de punir quem quer que coloque em causa a versão oficial da História.

E mesmo tropas incumbidas de evangelizar os não-democratas «pelo ferro e pelo fogo»: vimo-lo bem desde que 19 nações democráticas se uniram para ir bombardear um pais soberano com o qual não estavam em guerra.

Hoje, uma frase como «em nome dos direitos humanos» utiliza-se quase como «em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo» se utilizou durante séculos. Reencontrámos, talvez, o sentimento do sagrado, mas não creio que seja um sagrado de boa cepa.

Vladimir Volkoff, in Pourquoi je suis moyennement démocrate, Éditions du Rocher