O lobby judaico e a política americana

by RNPD

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À medida que os candidatos presidenciais norte-americanos se enfrentam para a liderança da única superpotência mundial há um assunto no qual todos, pelo menos em público, concordam – a relação dos EUA com Israel.

Para políticos proeminentes dos dois lados da divisão partidária essa relação especial é sacrossanta, largamente devido, dizem os críticos, ao poder dos grupos de lobbying pró-israelita.

Esses críticos também dizem que os grupos pró-Israel estão destinados a desempenhar um grande papel na vindoura batalha eleitoral, tanto em termos de financiamento dos candidatos como criticando publicamente qualquer candidato crítico de Israel ou da relação dos EUA com esse Estado.

John Mearsheimer, que, com Stephen Walt, é autor de uma controversa série de artigos e de um livro recente sobre o lobby israelita disse à Al Jazera: «Quase todos os principais candidatos fazem tudo para demonstrar o quão profundamente empenhados estão na relação especial dos EUA com Israel.

Dificilmente uma palavra crítica é dirigida a qualquer coisa que Israel faça, e isso deve-se à actividade do seu lobby.»

O que é o lobby pró-Israel?

O lobby é constituído por dúzias de comités de acção política pró-Israel que baseiam uma grande parte do seu apoio na comunidade judaica americana e financiam os candidatos presidenciais.

Mas os cristãos sionistas, que estão entre os mais vocais apoiantes de Israel nos EUA, também desempenham um papel de relevo.Acreditam que ao fortalecerem e apoiarem o Estado de Israel, estão mais próximos de apressarem a segunda vinda de Cristo como profetizado na Bíblia.

Na vanguarda do lobby está o American-Israel Public Affairs Committee (AIPAC) que trabalha sobretudo no congresso americano.Entre as suas recentes «vitórias» estão a decisão dos EUA de definirem a Guarda Revolucionária do Irão como uma organização terrorista, o assegurar da ajuda financeira dos EUA a Israel e o congelamento em 2006 da ajuda à Autoridade Palestiniana dirigida pelo Hamas.

Dinheiro e Poder

Os defensores do lobby israelita dizem que as opiniões dos candidatos presidenciais são na realidade um reflexo natural das opiniões da maioria dos americanos e que a questão tem pouca influência nas eleições.

Mas na política o dinheiro fala mais alto e os números contam uma versão diferente.

O Centre for Responsive Politics (CRP), que monitoriza o papel do dinheiro na política norte-americana, diz que os grupos e indivíduos pró-Israelitas já doaram mais de USD 845 000 a candidatos presidenciais na campanha de 2008 – 70% do qual para os Democratas.

Em toda a campanha presidencial de 2004 os interesses pró-Israel contribuíram com pelo menos USD 6,1 Milhões para candidatos federais e partidos.

«O dinheiro traduz-se em influência em Washington, por isso, geralmente, os interesses que gastam mais dinheiro terão mais influência e melhores resultados», diz Massie Ritch, director de comunicação no CRP.

E é fora da corrida presidencial e no congresso, que detém os cordões da bolsa da ajuda a Israel, que o lobby deixa a sua marca financeira.

O AIPAC e outros grupos gastaram mais de USD 1,5 Milhões em lobbying a nível federal em 2006 e mais de USD 1,25 Milhões na primeira metade de 2007, o que significa que este ano pode estabelecer um recorde para o lobby.

O lobby pró-Israel contabiliza cerca de ¼ de todo o dinheiro gasto pelos lobbies de política externa no Capitol Hill, diz o CRP.

Fluxo de Informação

Os esforços árabes para defender os seus interesses são, em contraste, mínimos.

A National Association of Arab-Americans e o American Arab Anti-Discrimination Committee divulgaram que gastaram apenas USD 80 000 em lobbying em 2006 e USD 40 000 no primeiro semestre de 2007.

O poder financeiro do lobby israelita também lhe permite providenciar informação unilateral aos políticos americanos, nem sempre familiarizados com as complexidades do conflito no Médio Oriente.

O AIPAC paga viagens educativas aos congressistas e seu pessoal – mais viagens do que qualquer outro patrocinador, segundo o CRP.

«Membros do congresso e respectivo pessoal foram mais vezes a Telavive nos anos recentes do que a Chicago», diz Ritch.

Acusações de anti-semitismo

Os defensores do AIPAC dizem que é aqui que a organização desempenha um papel importante, como fonte de informação para os políticos – incluindo os candidatos presidenciais americanos.

Mas os críticos dizem que os grupos de lobby pró-Israel vão muito mais longe – como afirma John Mearsheimer: «O lobby monitoriza atentamente o que os candidatos dizem.»

Em Março, o candidato democrata Barack Obama fez um discurso no Estado decisivo do Iowa em que disse: «Ninguém está a sofrer mais que o povo palestiniano.»

Um membro local do AIPAC contactou imediatamente os media para denunciar o comentário, descrevendo-o como «profundamente perturbador».

Em Julho, Jim Moran, um congressista democrata que havia criticado o AIPAC no passado, acusou a organização de instigar a guerra no Iraque.

Dezassete membros do congresso escreveram imediatamente uma carta a Moran condenando-o e afirmando que as suas declarações «encaixavam nos estereótipos anti-semitas que alguns usaram historicamente contra os judeus».

Eric Cantor, um dos líderes dos republicanos na Câmara dos Representantes, terá supostamente ido mais longe e é citado como tendo afirmado: « Infelizmente Jim Moran adquiriu agora o hábito de agredir a comunidade judaica americana. Julgo que os seus comentários são reprováveis, julgo que são anacrónicos, e remontam aos tempos de Adolf Hitler.»

Num semelhante clima político é fácil de ver por que é que os que procuram um lugar na Sala Oval se coíbem de falar em qualquer alteração na política externa americana face a Israel ou contra o AIPAC.

A acusação de anti-semitismo é usada regularmente pelo lobby israelita e foi uma das acusações enfrentadas por John Mearsheimer.

«Não somos anti-semitas e o livro não é anti-semita», diz. «Chamar anti-semitas aos críticos da política israelita ou da relação dos EUA com o Estado judaico é procedimento operacional normal para o lobby. É a estratégia normal que usam para silenciar o criticismo face a Israel e para marginalizar os seus críticos.»

Intervenção Militar

Para além da política eleitoral , os críticos do lobby dizem que os grupos de pressão pró-israelitas, depois de instigarem a guerra no Iraque, estão agora a advogar uma acção militar contra o Irão.

«Se se olhar para quem está a incitar os EUA a intervir militarmente contra o Irão, as duas forças motrizes são Israel e o lobby israelita», diz Mearsheimer.

Jim Moran, numa entrevista à Tikkun, uma revista judaica pacifista, disse que a intervenção americana contra o Irão é proposta apenas porque aquele Estado é uma ameaça para Israel.

«Ninguém sugere que o Irão é uma potencial ameaça para os EUA», disse, «como o Iraque nunca poderia ter sido.Com efeito, os mesmos indivíduos e grupos que pressionaram para a guerra com o Iraque estão a fazê-lo no sentido de uma guerra com o Irão.»

O AIPAC, contudo, nega veementemente, que esteja a pedir algo mais que sansões.
«O AIPAC apenas advoga sanções como a melhor forma de impedir o Irão de adquirir armas nucleares ou a capacidade de as produzir, disse à Al Jazeera Josh Block, um porta-voz do AIPAC.

Verdadeira Amizade

Mearsheimer argumenta que os EUA têm de normalizar a sua relação com Israel, tratando-o como tratam o Reino Unido, a Alemanha ou a Índia.

Ele e outros críticos, tanto de dentro como de fora da comunidade judaica americana, argumentam que Israel também sofre com a sua posição privilegiada em termos de ajuda americana.

Acreditam que o apoio do lobby israelita nos EUA encoraja Israel a agir sem receio de sanções internacionais.

Isto encorajou os lideres israelitas a aprovar a ocupação ilegal de terras palestinianas, a construção de colonatos e a prossecução de inúmeras violações de direitos humanos por parte do exército israelita.

«Se estes candidatos presidenciais fossem amigos verdadeiros de Israel, como afirmam ser, não só o criticariam pelas suas políticas nos territórios ocupados…mas estariam também a defender que os EUA pusessem significativa pressão sobre Israel e os palestinianos para alcançarem um acordo para a criação de dois Estados», afirmou Mearsheimer.

«Isso é o que um verdadeiro amigo faria».

Rob Winder