Month: Fevereiro, 2008

Uma perspectiva católica sobre a Escola de Frankfurt

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(O texto que se segue é uma análise razoavelmente conseguida, a partir de uma perspectiva católica tradicionalista, da estratégia de subversão das sociedades ocidentais levada a cabo pela Escola de Frankfurt (grande referência de partidos como o Bloco de Esquerda), instituição neomarxista e marcadamente judaica que, tendo despontado na Alemanha, acabou por se “deslocar” para os EUA.)

(…) Ainda que o comunismo bolchevique tenha caído, o comunismo mantém uma vigência histórica, debaixo de formas classificadas como neomarxismo, neocomunismo ou neosocialismo. Mas também poderíamos falar do neoconservadorismo ou do neoliberalismo. Seria a mixórdia em que se movem todos os que se desenvolvem no âmbito democrático, uma ideologia comum que vai para além da aparente divisão entre direitas e esquerdas. Hoje, mais que nunca, aparece recomposta a unidade dos vencedores da segunda guerra mundial, rompida temporal e ilusoriamente durante os anos da guerra-fria.

Como consequência dessa adaptação à realidade, o modelo de insurreição bolchevique foi descartado, para definir e assumir um modelo diferente, mais complexo e mais profundo, pois compromete orgânica e integralmente as consciências das pessoas. De facto, a estratégia de acção politica directa deu lugar a uma estratégia de acção cultural indirecta, baseada num modelo de transformação das mentalidades.

Foi o próprio Karl Marx quem estabeleceu o princípio materialista dialéctico segundo o qual a infraestrutura (economia/matéria) determina a superestrutura (cultura/espírito), razão pela qual a revolução devia ser realizada pelo proletariado contra a burguesia, isto é, de baixo para cima. No afã de realizar a revolução mundial, e observando as dificuldades que enfrentou o processo revolucionário na Rússia, António Gramsci, Secretário Geral do Partido Comunista italiano (1891-1937), aprofundou o princípio do materialismo dialéctico e adaptou o comunismo à realidade da sociedade Ocidental.

A estratégia gramsciana

Gramsci desenvolveu então o conceito de hegemonia ideológica consignando que o movimento entre infraestrutura e superestrutura é de carácter dialéctico. Ou seja, que se a infraestrutura material determina a superestrutura ideológica, política, cultural e moral, esta superestrutura, por sua vez, pode ter vida própria e actuar sobre a infraestrutura.

Partindo de tal premissa estabeleceu um modelo revolucionário segundo o qual a hegemonia cultural é a base da revolução comunista, significando com isso que esta depende da capacidade que as forças revolucionárias adquiram para controlar os meios que permitem dirigir a consciência e a conduta social. Uma revolução assim entendida consiste em modificar de maneira imperceptível o modo de pensar e sentir das pessoas para, por extensão, terminar por modificar decisiva e totalmente o sistema social e político.

A estratégia gramsciana estava desenhada do seguinte modo:

1.Para impor uma transformação ideológica era necessário começar por lograr a modificação do modo de pensar da sociedade civil através de pequenas transformações realizadas ao tempo no campo da cultura. Havia que construir um novo pensamento, entendido como o modo comum de pensar que historicamente prevalece entre os membros da sociedade. Para Gramsci isto era mais importante e prioritário do que alcançar o domínio da sociedade política (conjunto de organismos que exercem o poder desde os campos jurídico, político e militar.

2.Para lograr este objectivo era necessário apoderar-se dos organismos e instituições donde se difundem os valores e parâmetros culturais: meios de comunicação, universidades, escolas…depois de cumprido este processo a conquista do poder político cairia pelo seu próprio peso, sem revoluções armadas, sem resistências nem contra-revoluções, sem necessidade de impor a nova ordem pela força, já que esta teria consenso geral.

Um modelo histórico de actuação de acordo com estes princípios seria a mentalidade iluminista que preparou o terreno para o que logo seria a Revolução Francesa e o liberalismo, estendido por toda a Europa e América graças à mudança de pensamento hegemónico promovido desde o século anterior.

3.Para ter êxito havia que superar dois obstáculos: A Igreja Católica e a família.

A Escola de Frankfurt

A estratégia determinada por Gramsci foi projectada pela chamada Escola de Frankfurt, originalmente fundada em 1923 como Instituto para o Novo Marxismo e rapidamente denominado Instituto para a Investigação Social, para encobrir o seu objectivo sentido político.

Através de autores como Georges Lukács, Max Horkheimer, Theodor Adorno, Wilhelm Reich, Erich Fromm, Jean Paul Sartre, Herbert Marcuse, Jürgen Habermas, etc., formula-se a doutrina do neomarxismo e a partir dele a esquerda elabora um programa concreto de acção estruturalista que logra uma decisiva influência em distintos campos do pensamento, na psicologia (Lacan), na educação (Piaget) e na etnologia (Levi Strauss), entre outros.

O neomarxismo regressa à Europa

Foram basicamente estas elaborações ideológicas que activaram e sustentaram o processo revolucionário dos anos 60 do século XX, sendo particularmente eficientes entre os estudantes das universidades de França e Alemanha. Ainda assim, estas ideias também seriam a base tanto do chamado eurocomunismo como do neosocialismo desenvolvido em distintas latitudes durantes os anos 80 e 90.

Estas raízes norte-americanas da actual esquerda europeia foram expostas detalhadamente por Paul Edward Gottfried (The Strange Death of Marxism) e é uma das circunstâncias que explicam a escassa repercussão que teve a queda da União soviética nos comunistas e nos socialistas: ideologicamente estavam mais vinculados aos EUA do que à URSS e, provavelmente, um regime «duro» que se apresentava como paradigma da ortodoxia comunista resultava para eles mais como um obstáculo do que uma referência.

Componentes da mentalidade e da estratégia neomarxista

O princípio constitutivo desta crença radica num materialismo que nega a existência de um princípio anterior e superior ao homem. Nega-se explicitamente a existência de um Deus criador, a existência da alma humana e, portanto, de toda a essência e toda a transcendência do ser. Impõe-se um sistema teórico multiculturalista baseado no relativismo absoluto, o qual implica a negação da existência de verdades de validade universal.

Assumindo tais premissas, como se manifesta concretamente este novo tipo de acção revolucionária?

A aplicação deste sistema procura gerar um ânimo hostil contra todo o tipo de autoridade, contra toda a forma de hierarquia e ordem, seja no terreno religioso ou no civil. A autoridade degrada-se sistematicamente na Igreja, no Estado, na família ou no ensino. Esta quebra da ordem natural conduz a uma completa perda de princípios e uma radical decadência moral. Desencadeiam-se as paixões nas crianças e adolescentes através de uma educação estatal ou dos meios de comunicação que criam um ambiente de impureza omnipresente. A fim de romper a estrutura do sistema social, introduz-se um igualitarismo radical projectado na ideologia de género que proclama a superação do actual modelo de sociedade mediante a transformação da diferenciação sexual em meras categorias culturais e, por conseguinte, opcionais e elegíveis.

Uma vez destruído o universo de valores até então vigentes, o seu lugar foi ocupado por uma nova hegemonia: a dessa mentalidade, hoje dominante, substrato permanente de uma prática política que é, ao mesmo tempo, a consequência e o principal motor do processo.

Ao serviço desta estratégia colocam-se meios tão dispares como a democracia, a demolição do Estado nacional, a imigração, a infiltração e auto-demolição da Igreja, a memória histórica, a educação para a cidadania ou a cultura da dependência promovida por uma gestão económica dos recursos dirigida pelo Estado.

Há alternativa?

Sim, existe, mas só será possível na medida em que tenha lugar a recuperação da hegemonia na sociedade civil. Algo que implica a luta pela Verdade, que não se impõe por si mesma, e a capacidade de gerar instrumentos coercivos que, ao abrigo da lei, actuem como travão das tendências desagregadoras.

Ángel David Martín Rubio, Altar Mayor, nº118, Janeiro de 2008

Um outro olhar sobre o fascismo…

«Você considera que o fascismo não é um parêntesis da História que pertenceria somente ao período de entre as duas guerras…

Concebo o fascismo como a forma extrema de um fenómeno ideológico e cultural que se manifesta pela revolta contra a herança da Revolução Francesa, contra o materialismo e o racionalismo, contra os princípios do liberalismo e contra a concepção utilitarista da sociedade e do Estado. Por outro lado, é necessário precisar que é em França que se encontram as verdadeiras origens ideológicas do fascismo. Ele é o fruto de um encontro entre o nacionalismo intransigente e a revisão anti-materialista do marxismo que se produz durante os anos que vão de 1885 a 1914. O fascismo consiste numa ideologia de ruptura que se levanta contra o liberalismo e o marxismo, uma terceira via que pretende lançar as bases de uma nova civilização anti-individualista, única capaz de assegurar a perenidade de uma colectividade humana onde estariam perfeitamente integradas todas as camadas e todas as classes da sociedade.»

Zeev Sternhell

A estética moderna ou o triunfo da vulgaridade

A actual tendência da arte de massas, ao afirmar que não existem diferenças entre a alta cultura e a cultura popular, leva à neutralização de toda a obra de arte e literatura pela normativa dos meios de comunicação e pela propensão à conformidade a respeito dos gostos aleatórios das massas. Não há dúvida de que vivemos uma estetização muito ampla do mundo social; as fronteiras entre arte e realidade desvanecem-se. Ambas as esferas acercam-se ao que Jean Baudrillard denominou “simulacro universal”.

A indústria da propaganda, as relações públicas e os “mass media” contribuíram decisivamente para isso. Mas trata-se de uma estetização que não merece esse nome: é um nivelamento para baixo, para a fealdade generalizada, para a estreiteza intelectual e ética de uma cultura pré-fabricada para moldar e uniformizar consciências. A perda do sentido de diferença entre arte autêntica e vulgaridade comercial, e a homogeneização coerciva entre arte, política e vida quotidiana, não só aniquilam a transcendência do belo e o legado do humanismo e minam a base da criatividade artística e intelectual, como convertem a praxis da esfera política num jogo inofensivo, onde tudo permanece sempre como está. Este fenómeno de estetização generalizada é uma encenação da uniformidade própria do mundo comercial e termina transformando-se numa “anestética”: numa anestesia. A euforia obrigatória e vazia da propaganda, o predomínio de um desenho frio e universal, produzem o mesmo efeito que um narcótico: a embriaguez termina num atordoamento.

A concepção de que qualquer objecto pode ser arte e que tudo, por isso, pode ser estetizado, constitui a base da propaganda e da indústria de publicidade. Esta última transforma qualquer coisa que deva ser vendida num objecto de aparência atractiva segundo os cânones do relativismo imperante; os especialistas da publicidade asseguram com razão que podem vender qualquer coisa, como os artistas contemporâneos afirmam que podem converter qualquer coisa em arte. A estetização de tudo transforma tudo, efectivamente, em algo superficial, como o embrulho dos objectos a vender. Este desenvolvimento foi favorecido pela transformação da arte numa variante do desenho industrial: exterior apetitoso, conteúdo nulo.

A indústria da cultura, tão apreciada agora por “democratizar” o consumo de bens culturais, não tem por objectivo nem melhorar a vida, nem propagar outro paradigma de melhor sociedade, nem fomentar uma “nova arte”, nem promover uma moral diferente, mas antes forçar consentimento e submetimento às modas do dia. A indústria da cultura cria necessidades secundárias, mediante sistemas de publicidade muito refinados que usam o subconsciente e a psicologia profunda. O resultado é a destruição da consciência crítica, a repressão da individualidade genuína, a desumanização dos processos de consumo, a eliminação da capacidade de eleição e, sobretudo, – como apontara Herbert Marcuse – o debilitar da responsabilidade pessoal, da consciência moral, da culpa e da consciência de culpabilidade.

A preservação de princípios aristocráticos, ou seja, razoáveis, na esfera estética obriga a impugnar o novo dogma artístico-relativista: tudo é arte e todos somos artistas. Esta posição, imensamente generalizada hoje em dia e legitimada pelas correntes pós-modernistas, postula que não há diferenças substanciais entre o saudável e o doentio, entre a lucidez e a loucura, entre a elegância e a vulgaridade, entre o sagrado e o profano, entre o festivo e o quotidiano, entre o belo e o feio, e, obviamente, entre o artístico e o prosaico. Estas deliberadas simplificações, que caracterizam sobretudo as artes plásticas contemporâneas acarretam uma traição à função transcendente da beleza, do talento e da fantasia constante nas genuínas obras de arte e literatura.

Debaixo da desculpa da experimentação e amparando-se numa presumível busca de novos meios de expressão, as artes contemporâneas documentam a terrível orfandade de ideias, de cultura artística, de destreza artesanal do “quefazer” plástico dos nossos dias. A pretensa espontaneidade dos artistas contemporâneos é, no fundo, – como assinala Vargas Losa –, «o critério imposto por um mercado interferido e manipulado por máfias de galeristas e marchands e que de nenhuma maneira revela gostos e sensibilidades artísticas, só operações publicitárias, de relações públicas e, em muitos casos, simples intrujices».

Pese a sua aparência revolucionária e desenfadada, espontânea e turbulenta, o igualitarismo cultural significa, no fundo, uma ratificação da massiva fealdade da civilização industrial na sua etapa actual, uma justificação do momentâneo, uma condenação das tendências estéticas dissidentes e uma apologia dos gostos convencionais e banais difundidos pelos mass media. A luta contra o belo – que parece ser o conteúdo da arte na época actual – representa, segundo Marcuse, um movimento repressivo e reaccionário, que tem profundas raízes na história do ascetismo pequeno burguês e anti-intelectual.

No mundo moderno, a fealdade irremissível dos aglomerados urbanos, a sujidade e a insegurança neles prevalecentes, o péssimo gosto dos grandes projectos públicos e o derrube das formas civilizadas de trato social – a selvajaria convertida em norma sob o lema da informalidade e da espontaneidade – têm que ver com as normas estéticas que, consciente ou inconscientemente, defendem e transmitem as elites políticas e económicas da sociedade. Estes grupos, que no presente assumiram a responsabilidade governamental e educativa dos seus países, têm, em geral, uma origem provinciana, relativamente modesta, e não beneficiaram de uma educação excelente, digna desse nome. Abraçam com verdadeiro fervor uma estética e um modo de vida marcados pelos gostos dos estratos médios e inferiores das suas sociedades, pelo consumismo plutocrático e o culto da vulgaridade.

A cultura contemporânea de massas não pode deixar de participar em numerosos fenómenos negativos associados inextrincavelmente ao mundo actual, como são a anomia colectiva, a perda dos laços primários, a decomposição das identidades pessoais, a atomização dos indivíduos, a corrupção no âmbito político e empresarial, o aumento da delinquência, o incremento da desigualdade social e a crescente insegurança do espaço público.

Antes as massas tinham vergonha da sua vulgaridade; agora proclamam orgulhosamente o seu “direito à vulgaridade” e tratam de o impor triunfalmente onde quer que seja. As massas desfrutam de um notável bem-estar material, mas desprezam os esforços científicos e teóricos que são a pré-condição do avanço técnico. O narcisismo destas massas educadas somente na técnica – mas com um bem-sucedido verniz modernizador – é contraposto à austeridade, auto-exigência e auto-disciplina do homem selecto de Ortega y Gasset.

Em definitivo, as gentes – como observou Octavio Paz – vivem mais anos mas as suas vidas são mais vazias, as suas paixões mais débeis e os seus vícios mais fortes. A marca do conformismo é o sorriso impessoal que sela todos os rostos.

Luis Sánchez de Movellán de la Riva

Guerras contra a Europa…

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O escândalo rebentou na Eslovénia há cerca de duas semanas, quando o jornal Dnevnik revelou um documento interno do governo norte-americano enunciando directivas para a actuação do governo esloveno na presidência da U.E. (*)

O documento diz respeito a uma reunião ocorrida a 24 de Dezembro de 2007, entre o Secretário de Estado Adjunto norte-americano para os Assuntos Europeus, Daniel Fried, e o director político do Ministério dos Negócios Estrangeiros esloveno, Mitja Drobnic.

De entre essas directivas políticas destacam-se a importância da Eslovénia, na condição de país presidente da U.E., ser dos primeiros Estados a apoiar a independência do Kosovo e o apoio americano ao envio de polícias e juristas da U.E. para «ajudar» o novo país, contra a posição da Rússia.

(*) Ver, por exemplo, em Radio France Internacionale ou La Libre

Da Banca…

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Na teoria inicial a banca tem por função a guarda dos depósitos e a execução dos pagamentos para a conta de um terceiro. Estava implicitamente convencionado que todas as responsabilidades à vista estavam cobertas em moeda central, moeda emitida directamente pelo Estado ou pelo Banco Central.

Depois a banca emprestou a terceiros os depósitos à vista que lhe foram confiados, e por fim, abriu contas correntes credoras por contrapartida de dívidas simples. Antiga receptora dos depósitos e executora de pagamentos, o trabalho de banqueiro transformou-se sub-repticiamente em indústria de reprodução monetária.

Ao início, as reservas metálicas, cunhadas pela autoridade pública, eram depositadas no banco que as guardava e devia, se recebesse essa ordem, executar os pagamentos dos depositantes a terceiros. Mas os banqueiros rapidamente constataram que as suas reservas nunca desciam abaixo de um certo nível relativo. As retiradas que os seus clientes efectuavam eram compensadas pelos novos depósitos que outros traziam.

A banca apercebeu-se que podia emprestar a totalidade ou uma parte do montante das reservas que não eram nunca procuradas. Emprestou essas reservas em troca de juros sem que os seus proprietários fossem avisados ou remunerados. A concorrência dos bancos entre eles acaba, contudo, por oferecer serviços graciosos aos depositantes, como o serviço gratuito da gestão de conta e, mais recentemente, o pagamento de juros.

Os depositantes crêem, no entanto, que os seus depósitos estão cobertos por reservas disponíveis que podem fazer transferir para a conta de um terceiro, quando, na verdade, a banca não conservou senão uma ínfima percentagem delas. Para cobrir este risco, a banca deve criar moeda. Se não renova os empréstimos que concedeu, o aumento de moeda é temporário, mas se os renova sem descontinuação, o aumento será definitivo.

De um ponto de vista contabilístico, o balanço da banca é equilibrado, porque o seu passivo é exactamente compensado pelo seu activo. Mas este equilíbrio contabilístico concilia-se com elementos heterogéneos que não podem ser realmente comparáveis, pois os depósitos disponíveis no imediato inscrevem-se no passivo do balanço enquanto que a fracção mais importante do activo só é potencialmente realizável a prazo. A instabilidade financeira que daqui resulta explica as falências bancárias e as crises comerciais que marcam a História.

Enfim, a partir da segunda metade do século XIX a banca criou depósitos ex nihilo, fez empréstimos abrindo uma conta credora ao devedor por um montante igual à promessa de pagamento. A banca não empresta somas anteriormente depositadas. Se na forma o processo difere, ele resulta nisso.

Estes mecanismos de reprodução monetária permitem ainda hoje aos bancos secundários comportar-se como instituições de emissão monetária privadas sobre um mesmo território, sem responsabilidade, pois não têm visão macroeconómica do circuito monetário.

Janpier Dutrieux

Pontos de Doutrina

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A Nação

(…) As teorias da Nação dividem-se em duas categorias. Umas nascidas directamente da Revolução Francesa assimilam a Nação ao Estado como se se tratasse de uma mesma realidade, como se só pudéssemos falar de nações a partir do Estado. Estas teorias, ligadas à tradição do pensamento liberal jacobino, estão na base de numerosas contribuições que regem os Estados actuais. Elas pressupõem que a nação não é um dado dos povos, de comunidades que se constituem através da história, mas somente um facto administrativo, na medida em que é o Estado que impõe a Nação. Este nacionalismo voluntarista é responsável pela assimilação forçada de províncias como a Bretanha, a Ocitânia, o País Basco, a Córsega, etc., que, antes da Revolução, dispunham de instituições, de uma herança comum e de uma língua própria. Ao contrário, as teorias historicistas baseiam-se numa escola de pensamento que distingue o Estado, entidade de carácter político-jurídico, da Nação, expressão de uma consciência colectiva, de um organismo biológico, produto de uma herança sócio-cultural comum.

Para uns a Nação resulta de uma escolha individual, de um pacto social entre indivíduos isolados. É a vontade efectivamente manifestada de viver junto. Para os outros, a nação é um dado, anterior aos indivíduos que a compõem e definem, quer o queiram quer não. É o produto de uma longa história vivida em comum, uma memória colectiva, uma identidade cultural ou ainda um inconsciente colectivo. Através da sua teorização ideológica, o segundo nacionalismo, historicista, perde a sua ressonância humanitarista, racionalista e universalista. Nacionalismo de retracção, concentra-se na defesa e afirmação da identidade nacional. Na sua nova acepção, o conceito de nacionalismo implica menos o direito dos povos a dispor de si mesmos do que o seu dever a permanecerem eles próprios e de preservarem o seu «ser».

O primeiro nacionalismo, liberal jacobino, pensava a sociedade a partir de um homem abstracto, desenraizado. Aplicava a uma realidade viva e diversificada um esquema mecânico e rudimentar. Ignorava o homem concreto. Fazia do indivíduo um simples número, isolado, idêntico aos outros e permutável. Fiel à filosofia das Luzes, este nacionalismo era favorável à emancipação dos judeus, «vítimas do fanatismo católico», mas na condição de que fossem «desjudaizados». Católicos, judeus, protestantes, deviam ser libertados, por vontade própria ou pela força, dos preconceitos supersticiosos e intolerantes das suas religiões, relegadas ao nível de fábulas bíblicas apropriadas ao obscurecimento dos cérebros humanos. A luta dos exércitos revolucionários pela libertação das «nacionalidades oprimidas» da Europa e pela sua «igualização», era também aritmética. Afastava o homem da sua realidade cultural, da sua pessoa viva.

Ao invés, o segundo nacionalismo é resolutamente concreto, enraizado. Defende o direito à continuidade, à diversidade dos povos. Para ele, o homem deve ser considerado como um ser inserido no seu meio histórico e cultural. O homem é por natureza um herdeiro, que tem necessidade de uma ancoragem moral, social e cultural. Este segundo nacionalismo adopta o contraponto dos pressupostos do liberalismo, que implica a ignorância das fronteiras e das culturas. O cosmopolitismo e o humanitarismo são para ele o pára-vento mais odioso da hipocrisia e da indiferença. Pretende-se amar todos os homens por igual, para melhor evitar amar um só verdadeiramente. Pretende-se amar tudo de um lado ao outro do planeta, para não amar nada que está próximo. Nesta perspectiva, o burguês, inventor do mundialismo, é o ser mais desprovido do sentimento profundo do «ser» nacional. Afim de conservar os seus privilégios e os seus bens materiais, o burguês está disposto a fazer bom mercado com a independência nacional, a sacrificar a pátria a uma coligação de interesses ao serviço do estrangeiro. O pobre é uma árvore enraizada na sua terra natal, o rico é uma ave que vai para onde se encontra o dinheiro. Segue-se que o nacionalismo ou o patriotismo é uma necessidade para os pobres e um prejuízo para os ricos». (…)

Um Socialismo Tradicionalista

(…) O carlismo popular sob a monarquia burguesa, a tentação cesarista sob o Império, a agitação boulangista e nacionalista ao virar do século, a Acção Francesa nos seus inícios, o «socialismo fascista» no entre-guerras, o gaulismo no pós-guerra, como algumas alianças eleitorais do tempo presente, demonstram-no: O encontro de uma parte do mundo do trabalho com a tradição nacional populista, mesmo se parcial e mais ou menos efémero, não o é menos uma realidade recorrente da França e da Europa contemporâneas. A chave desta realidade reside em boa medida na aptidão do socialismo nacional para descrever e denunciar sem complacência a maldição do Ouro, a punição dos invejosos, a corrupção dos valores, a folia dos medíocres, o ridículo e o egoísmo sórdido dos novos ricos. «Resistimos ao poder do dinheiro pelo que temos de tradicional, enquanto filhos de uma raça, crentes de uma religião, homens de uma terra, artistas ignorados – escreve Abel Bonnard. É por isso que os financeiros detestam instintivamente tudo o que impede os homens de serem absolutamente iguais. Eles não queriam estar preocupados senão com a vaidade humana».

Para Proudhon, Sorel, Péguy, a predominância das ideias económicas tem por efeito não somente obscurecer a lei moral, mas também corromper os princípios políticos. O respeito pelos anciãos, pelos pais, pelos filhos, pela mulher, pela família, pelo trabalho, pela pátria, por si mesmo, o respeito por tudo o que é superior, pelas tradições, o sentimento dominador do sacrifício pela família e pela comunidade, estão no centro das suas preocupações. Para eles o verdadeiro socialismo não é a escola da pequena felicidade burguesa, mas uma conduta de vida, uma forma de reencontrar o sentido da honra, da nobreza de alma, do heroísmo e do sublime.(…)

Retirado de:
Arnaud Imatz, Par delà droite et gauche. Permanence et évolution des idéaux
et des valeurs non conformes, Paris, Godefroy de Bouillon, 1996. Via Zentropa.