Pontos de Doutrina

by RNPD

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A Nação

(…) As teorias da Nação dividem-se em duas categorias. Umas nascidas directamente da Revolução Francesa assimilam a Nação ao Estado como se se tratasse de uma mesma realidade, como se só pudéssemos falar de nações a partir do Estado. Estas teorias, ligadas à tradição do pensamento liberal jacobino, estão na base de numerosas contribuições que regem os Estados actuais. Elas pressupõem que a nação não é um dado dos povos, de comunidades que se constituem através da história, mas somente um facto administrativo, na medida em que é o Estado que impõe a Nação. Este nacionalismo voluntarista é responsável pela assimilação forçada de províncias como a Bretanha, a Ocitânia, o País Basco, a Córsega, etc., que, antes da Revolução, dispunham de instituições, de uma herança comum e de uma língua própria. Ao contrário, as teorias historicistas baseiam-se numa escola de pensamento que distingue o Estado, entidade de carácter político-jurídico, da Nação, expressão de uma consciência colectiva, de um organismo biológico, produto de uma herança sócio-cultural comum.

Para uns a Nação resulta de uma escolha individual, de um pacto social entre indivíduos isolados. É a vontade efectivamente manifestada de viver junto. Para os outros, a nação é um dado, anterior aos indivíduos que a compõem e definem, quer o queiram quer não. É o produto de uma longa história vivida em comum, uma memória colectiva, uma identidade cultural ou ainda um inconsciente colectivo. Através da sua teorização ideológica, o segundo nacionalismo, historicista, perde a sua ressonância humanitarista, racionalista e universalista. Nacionalismo de retracção, concentra-se na defesa e afirmação da identidade nacional. Na sua nova acepção, o conceito de nacionalismo implica menos o direito dos povos a dispor de si mesmos do que o seu dever a permanecerem eles próprios e de preservarem o seu «ser».

O primeiro nacionalismo, liberal jacobino, pensava a sociedade a partir de um homem abstracto, desenraizado. Aplicava a uma realidade viva e diversificada um esquema mecânico e rudimentar. Ignorava o homem concreto. Fazia do indivíduo um simples número, isolado, idêntico aos outros e permutável. Fiel à filosofia das Luzes, este nacionalismo era favorável à emancipação dos judeus, «vítimas do fanatismo católico», mas na condição de que fossem «desjudaizados». Católicos, judeus, protestantes, deviam ser libertados, por vontade própria ou pela força, dos preconceitos supersticiosos e intolerantes das suas religiões, relegadas ao nível de fábulas bíblicas apropriadas ao obscurecimento dos cérebros humanos. A luta dos exércitos revolucionários pela libertação das «nacionalidades oprimidas» da Europa e pela sua «igualização», era também aritmética. Afastava o homem da sua realidade cultural, da sua pessoa viva.

Ao invés, o segundo nacionalismo é resolutamente concreto, enraizado. Defende o direito à continuidade, à diversidade dos povos. Para ele, o homem deve ser considerado como um ser inserido no seu meio histórico e cultural. O homem é por natureza um herdeiro, que tem necessidade de uma ancoragem moral, social e cultural. Este segundo nacionalismo adopta o contraponto dos pressupostos do liberalismo, que implica a ignorância das fronteiras e das culturas. O cosmopolitismo e o humanitarismo são para ele o pára-vento mais odioso da hipocrisia e da indiferença. Pretende-se amar todos os homens por igual, para melhor evitar amar um só verdadeiramente. Pretende-se amar tudo de um lado ao outro do planeta, para não amar nada que está próximo. Nesta perspectiva, o burguês, inventor do mundialismo, é o ser mais desprovido do sentimento profundo do «ser» nacional. Afim de conservar os seus privilégios e os seus bens materiais, o burguês está disposto a fazer bom mercado com a independência nacional, a sacrificar a pátria a uma coligação de interesses ao serviço do estrangeiro. O pobre é uma árvore enraizada na sua terra natal, o rico é uma ave que vai para onde se encontra o dinheiro. Segue-se que o nacionalismo ou o patriotismo é uma necessidade para os pobres e um prejuízo para os ricos». (…)

Um Socialismo Tradicionalista

(…) O carlismo popular sob a monarquia burguesa, a tentação cesarista sob o Império, a agitação boulangista e nacionalista ao virar do século, a Acção Francesa nos seus inícios, o «socialismo fascista» no entre-guerras, o gaulismo no pós-guerra, como algumas alianças eleitorais do tempo presente, demonstram-no: O encontro de uma parte do mundo do trabalho com a tradição nacional populista, mesmo se parcial e mais ou menos efémero, não o é menos uma realidade recorrente da França e da Europa contemporâneas. A chave desta realidade reside em boa medida na aptidão do socialismo nacional para descrever e denunciar sem complacência a maldição do Ouro, a punição dos invejosos, a corrupção dos valores, a folia dos medíocres, o ridículo e o egoísmo sórdido dos novos ricos. «Resistimos ao poder do dinheiro pelo que temos de tradicional, enquanto filhos de uma raça, crentes de uma religião, homens de uma terra, artistas ignorados – escreve Abel Bonnard. É por isso que os financeiros detestam instintivamente tudo o que impede os homens de serem absolutamente iguais. Eles não queriam estar preocupados senão com a vaidade humana».

Para Proudhon, Sorel, Péguy, a predominância das ideias económicas tem por efeito não somente obscurecer a lei moral, mas também corromper os princípios políticos. O respeito pelos anciãos, pelos pais, pelos filhos, pela mulher, pela família, pelo trabalho, pela pátria, por si mesmo, o respeito por tudo o que é superior, pelas tradições, o sentimento dominador do sacrifício pela família e pela comunidade, estão no centro das suas preocupações. Para eles o verdadeiro socialismo não é a escola da pequena felicidade burguesa, mas uma conduta de vida, uma forma de reencontrar o sentido da honra, da nobreza de alma, do heroísmo e do sublime.(…)

Retirado de:
Arnaud Imatz, Par delà droite et gauche. Permanence et évolution des idéaux
et des valeurs non conformes, Paris, Godefroy de Bouillon, 1996. Via Zentropa.