Month: Março, 2008

A vitória das sombras

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Outrora, num tempo estranho e maravilhoso que jamais poderá ser datado, existiam homens.

Hoje, maravilha ainda maior, existem apenas cidadãos.

Bom, o cidadão é superior ao homem visto que é mais ou menos tudo sem ser exactamente coisa alguma.

É um sonho, um pensamento difuso, evanescente, um conceito que se torna ainda mais eficaz e potente quando é inverificável e quando pode insinuar-se por todo o lado sem ser fechado.

O cidadão não tem sexo, aceita o seu “lado feminino” da mesma forma que os seus últimos (e raros) restos de virilidade.

O cidadão não tem identidade, tem um documento com o seu nome.

O cidadão não tem deveres, tem direitos. Estes direitos são “adquiridos” e portanto incontestáveis, mesmo se se tornaram irrealistas ou injustos.

O cidadão não tem valores, tem “ideias” que defende com paixão, sobretudo quando são compartilhadas por um número importante dos seus semelhantes e validadas pelos ícones mediáticos que vigiam atentamente a sua existência.

O cidadão é “tolerante”, isto significa que aceita tudo por medo de ter de combater por ou contra alguma coisa.

O cidadão não tem ideais mas sim uma “consciência social”, que lhe permite justificar moralmente as fraquezas e vícios da sua personalidade.

Drogado, preguiçoso, infiel e velhaco, o cidadão proclama-se então “libertário”, “anti-capitalista”, “sexualmente emancipado” e “aberto”.

O cidadão não recusa as normas, os prazeres e os símbolos do consumismo liberal, recusa simplesmente, com vigor, os esforços requeridos para lhes poder aceder.

Viver como um burguês e ao mesmo tempo falar como um revolucionário marxista é o sonho absoluto do cidadão.

Um tempo feliz, o dos cidadãos… tempo de indiferenciação, de simpáticas contradições, da “resistência” maioritária, da originalidade conformista, do vício virtuoso e da coragem sem perigos, e acrónico (o “cidadão antifascista” como exemplo arquetípico e entusiasmante do “herói da temporalidade desfasada”).

Jesus Franco, Zentropa

Jean Mabire – In Memoriam (08/02/1927 – 29/03/2006)

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A Europa

Jean Mabire gostava de se dizer regionalista normando, mesmo autonomista, mas não se contentava em defender a sua pequena pátria. Desde muito jovem compreende que uma outra pátria, espiritual e ideal, corolário da primeira, se lhe oferecia: a Europa. Durante toda a sua vida detestou o centralismo estatista, o jacobinismo francês e o parisianismo cultural. Na sua vontade feroz de reencontrar a identidade dos povos, não deixa nunca de afrontar esse Moloch das culturas populares enraizadas que é o Estado francês. Maît’ Jean toma consciência de uma indispensável complementaridade entre a luta identitária regional e a acção em favor de uma autêntica construção europeia. A Europa de Jean Mabire não é a Europa de Maastricht, de Bruxelas e de Frankfurt, esta vulgar e medíocre paródia indigna dos nossos povos, este horrível monstro feito de uniformidade informe e artificial.

Jean Mabire sentia-se plenamente europeu. A Europa das suas aspirações queria-se enraizada, viva e polimorfa. Ele sonhava com uma Europa em que os povos transbordariam de vitalidade, entusiasmo e energia. A sua Europa ideal não era aquela «de cem bandeiras» elogiada por Yann Fouéré, mas antes uma Europa de mil bandeiras, respeitosa dos particularismos populares, regionais e étnicos, uma Europa diversa e unida que se estenderia dos geisers da Islândia à taiga siberiana.

Ao exaltar os mais altos feitos dos europeus, Maît’ Jean valorizava a perenidade do carácter europeu. L’ été rouge de Pékin que narra os cinquenta e cinco dias do cerco do bairro diplomático em Pequim por parte dos Boxers em 1900, faz também parte deste verdadeiro trabalho de memória. Este episódio mal conhecido devia agradar-lhe, pois alemães, britânicos, franceses, italianos, russos e mesmo americanos lutaram lado a lado contra um inimigo comum, o perigo amarelo.

Ignorava que a questão europeia lhe permitiria abordar as margens da política?

A Política

Evocar o Jean Mabire político seria um erro, tanto se coibiu de entrar nos miasmas pútridos da acção política. Contudo, não a exclui da sua obra. É preciso talvez falar de «metapolítica», da qual foi um eminente representante. Na verdade, fazia metapolítica ao realçar a cultura normanda. Isso toma toda outra direcção com a guerra da Argélia que dilacerava a sociedade francesa. De regresso do seu Comando de caça, Jean Mabire colaborou na revista pró Argélia francesa L’Esprit Public ainda que, enquanto autonomista normando, não partilhasse a quimera de assimilar milhões de muçulmanos, árabes e Kabyles, num Estado-Nação negador das identidades populares. Retirou deste envolvimento paradoxal um livro magistral, L’écrivain, la politique et l’espérance que republicará três décadas depois, enriquecido por novos artigos, sob o título La torche et le glaive.

Nesta excelente obra, para além dos temas sobre a Europa e as regiões, Mabire expõe o seu socialismo. E sim, Maît’Jean era socialista! É, de resto, estranho que os pequenos inquisidores não tenham descoberto nele o primeiro dos «vermelhos-castanhos» …mas, atenção! O seu socialismo não devia nada ao marxismo e outros esquerdismos. O seu socialismo mergulhava nos ricos (e muito desconhecidos) pensamentos da escola francesa, de Proudhon a Jaurès. A justiça social, a defesa do «pequeno povo», o apoio à «oficina» e à «loja» entusiasmavam-no. Realmente com atenção às pequenas gentes, representava um inegável «intelectual orgânico».

Fiel às suas ideias, Jean Mabire era o contrário do fanático. Vimo-lo a propósito das suas amizades, sabia distinguir a pessoa das suas opiniões. Para o final da década de 80, entrou na National-Hebdo onde assina cáusticas «crónicas livres», frequentemente a contracorrente do Front National e das suas orientações nacionalistas jacobinas. De forma alguma uma cabeça política, Maît’Jean compreende rapidamente a aposta de defender um ponto de vista regionalista-europeu nas colunas de um hebdomadário afiliado a um partido político de audiência maior.

De temperamento dificilmente sensível ao militantismo político eleitoral, apoiou sempre as causas meritórias. Envolveu-se desde o início na grande aventura da renovação do pensamento inconformista europeu. Nos anos 60, enquanto escrevia alguns textos para a Defense de l’Occident, a revista de Maurice Bardèche, tornou-se redactor-chefe de Europe-Action onde pôde, por fim, conciliar o seu regionalismo, o seu europeísmo e o seu socialismo. Isso não o impediu de recontar a vida de Jean-Louis Tixier-Vignancour em Histoire d’un Français. Em 1969, para além da sua participação no lançamento do Mouvement Normand, que é, repita-se, um sucedimento metapolítico, «Didier Brument» contribuiu para o aparecimento do G.R.E.C.E. (Groupement de recherches et d’études pour la civilisation européenne) e participou nas colunas de Éléments, a revista principal da «Nova Direita». Nos seus esboços de tipologia das tendências internas do G.R.E.C.E. os doutos especialistas rotulá-lo-ão entre os Völkischen, o que é um pouco redutor para alguém a quem o socialismo europeu aproximará de boa vontade à corrente nacional-revolucionária…Em 1995, Maît’Jean seguiu o seu velho camarada Pierre Vial na formação de uma nova associação, Terre et Peuple, na qual participou regularmente nas mesas redondas anuais e na realização da revista homónima.

Num campo menos metapolítico, mas igualmente primordial, em 1973, Jean Mabire e o Dr. Maurice Rollet fundaram o movimento de escutismo Europe-Jeunesse. Deseja importar os princípios das altas escolas populares dinamarquesas inauguradas por Nicolas Grundtvig.

Jean Mabire era um sublime pedagogo ou, mais exactamente, um verdadeiro educador. Conhecia a importância de formar a juventude que é, afligida pelo truísmo, o futuro da nossa herança. Já actual há três décadas, esta tarefa é agora vital nesta época de lobotomia generalizada e de incultura favorecida. Para educar a juventude, elevá-la em direcção ao belo, ao bom e ao bem, Maît’Jean empregou principalmente o seu talento de escritor. (…)

O Paganismo

Os temas que versavam a França, a Europa, a Normandia, a política, a guerra, a escrita…despontaram num terreno fértil, que ademais é centro do imaginário pessoal de Jean Mabire: o paganismo. Maît Jean era pagão. Apesar de uma educação religiosa, rapidamente se livrou dos preceitos bíblicos para descobrir a alma perdida dos europeus. Não podemos compreender a atenção que ele dispensava às tradições populares e aos seus países se ignorarmos este facto fundamental.

É verdade que o seu paganismo não assentava sobre o panteão greco-romano. Preferia olhar em direcção ao Norte, a Ultima Thule, a Hiperbórea original. Nietzsche, Wagner e outros, foram os faróis desta demanda em direcção ao seu próprio Graal: as origens espirituais do Ser Europeu. Ele traçará, pontualmente ou parcialmente, esse trajecto em Thulé, le soleil retrouvé des Hyperboréens, Les dieux maudits, récit de mythologie nordique, Les solstices, histoire et actualité ou, mais recentemente, em Des poètes normands et de l’héritage nordique. «Se me orgulho de algo na minha vida é de ter sido quem manteve a ideia nórdica na Normandia», reconhecia em «Trinta anos depois…», o prefácio que escreveu para La Torche et le glaive. Fazer uma lista completa não serviria para nada, porque a veia pagã aflora e percorre todas as suas obras, inclusive nas que parece mais afastada.

Jean Mabire compreendia que não mais voltaremos aos Antigos. Mas a sua determinação, a sua ética, a sua coragem, são modelos e recursos intemporais. Neste ponto ele agiu também como aclarador, pois este tradicionalista, que não o era no sentido guenoniano ou evoliano do termo, este tradicionista, para usar o neologismo forjado por Dominique Venner, tentou pela escrita e pela reflexão renovar com os filões perdidos da tradição politeísta europeia, essa «mais longa memória», recentemente celebrada por Nietzsche.

Sublinhamos frequentemente o carácter despertador de Jean Mabire. Que ele tenha despertado povos perdidos e memórias ocultadas é incontestável, mas, pela sua audácia, mostrou que era também um fundador, um rompedor, um explorador, um precursor. Inspiremo-nos no seu exemplo. Relendo os seus livros, agindo segundo a nossa «equação pessoal», continuemos a nossa marcha nas terras crepusculares da Idade do Lobo, guiados pela única Estrela polar de onde, de agora em diante, nos contemplará Jean Mabire.

Excerto de Maît’Jean, le précurseur, de Georges Feltin-Tracol

Recordando Rodrigo Emílio (18/02/1944-28/03/2004)

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Breve discurso sobre o herói

O herói é o arquétipo da consciência mitológica do Homem; o acto heróico, uma excursão do Homem ao absoluto de si mesmo; o heroísmo, a memória de Deus no Homem. Todo aquele que, de algum modo, faz juz à dignidade suprema de ser tido e havido à conta de herói, está em condições humanamente ideais de evidenciar as potencialidades divinas (ou paradivinas), mediúnicas e demiúrgicas, do ser humano. Com isto, quero eu dizer, cá na minha, que só na qualidade de herói é que a criatura reduz um pouco a distância que a separa do Criador. O mesmo é dizer que, somente em face do herói, terá Deus boas razões para se orgulhar da criatura, razões de peso para se rever nela: pois só o herói – só ele, afinal – dá a Deus ( e aos mortais) a certeza de ter sido o Homem uma criação concebida, e espiritualmente materializada, à imagem e semelhança da grandeza do Criador.

Muitos são os campos da afirmação heróica; muitos e às vezes simultaneos, às vezes concorrentes. É o caso do herói que congraça a coragem e a sabedoria, elevando-se a um plano de vitoriosa supremacia sobre a mediania humana: «numa mão sempre a espada, noutra a pena», «braço às armas feito, mente às musas dada», Luís de Camões é aqui chamado.

Entre as mais altas espiritualizações do heroísmo, é de incluir os santos e mártires da Fé, entendidos como sendo os heróis de Deus; e, logo depois, o herói de condição guerreira – de preferência habitado pelo espírito de cruzada: trabalhado pela ascese cristã; animado e accionado por essa voltagem mística, que dá sentido pleno a todos os ideais vitalistas.

A nível supremo, o herói configura, assim, o modelo do homem idealmente perfeito, que consegue reunir em si um difícil equilíbrio de virtudes, ou toda uma gama de desmesuras coroadas pela religião.

É apanágio do herói transcendentalizar-se, isto é, humanificar, ou humanizar, a transcendência divina, com a imanência do próprio valor, e consumar, por aí, uma personalidade de excepção, que a façanha (ou proeza) heróica autentificará.

Quanto ao heroísmo, não será propriamente um estado (ou sê-lo-á, quanto muito, de maneira latente e latejante). As mais das vezes, consigna um momento, esporádico, um lampejo, fulgurante, de transcensão e ultrapassagem, consagrando, desse modo, todo um código de acendrada determinação e de superadora estoicidade.

Concretamente. Herói é todo aquele que no tempo se levanta para a Eternidade. Quando o tempo vem cobrar o quinhão de anos que lhe adiantou no nascimento, chega tarde. Porque, a essas horas, já o herói conquistou no tempo a intemporalidade, a poder de cometimentos que, não raro, se chancelam numa eternidade de segundos.

Ora, no tempo decaído em que vivemos, está bem de ver que o sucedâneo do heroísmo é o vedetismo (no cinema, no teatro, no desporto, etc…) Acresce que as teorias filosóficas do absurdismo – rendendo laudas à imotivação e à ausência de finalidade da existência – põem desde logo em causa a validade humana do herói. Serve-se frio. «Serve-se morto» – diz-nos Reinaldo Ferreira em «Receita para fazer um Herói.» Porque heróis, só por receita. Lá para esses abstrusos «do absurdo», só assim se confeccionam heróis; por meio de receita aviada. De contrário, revelam-se inobtíveis, visto que a fauna existencialista não produz disso. E nem admira que não: figurantes de trazer na botoeira da existência, exibe-os a vida na lapela. Compreende-se: na lapela. Quando muito, aí…que a mariquice mental não entende além desses janotismos!

Rodrigo Emílio, n’O DEBATE de 1 de Dezembro de 1973

Breve tratado de rebelião

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No seu Tratado do Rebelde, Ernst Jünger escrevia em 1951: «Duas qualidades são indispensáveis ao rebelde. Ele recusa aceitar por sua a lei dos poderes instituídos, quer eles usem a propaganda ou a violência. E ele está decidido a defender-se». Dominique Venner acrescenta, nas páginas deste número, que o que em todas as épocas os rebeldes tiveram em comum «foi terem descoberto, por vias diferentes, uma incompatibilidade absoluta entre o seu ser e o mundo no qual lhes seria necessário viver».

O rebelde recusa a ordem do mundo no seio do qual foi jogado. Recusa-a em nome de uma legitimidade que excede toda a legalidade. Recusa-a porque é em si mesmo que encontra a legitimidade e a norma – não que ele as decalque simplesmente sobre aquilo que ele é, mas porque sabe que ele próprio é também o resultado de uma norma que o ultrapassa. E a sua recusa é total. O rebelde é aquele que não cede, desdenhando daquilo com que o procuram deslumbrar: honrarias, interesses, privilégios, reconhecimentos. À mesa de jogo, ele é o que não joga: o espírito do tempo embate nele como a água na pedra. Espírito livre, homem livre, ele não coloca nada acima da liberdade do espírito e da pessoa. Ele é a própria liberdade. «É rebelde quem quer que seja colocado pela lei da sua natureza em ligação com a liberdade» (Ernst Jünger).

Mas ele não é somente um insubmisso. Certamente, como o resistente ou o dissidente, o rebelde é a prova viva de que uma alternativa é sempre possível. Mas a sua rebelião não está somente ligada às circunstâncias. Ela é de ordem existencial. O rebelde sente fisicamente a impostura, sente-a instintivamente. Tornamo-nos dissidentes, mas nascemos rebeldes. O rebelde é rebelde porque qualquer outro modo de existência lhe é impossível. O resistente deixa de o ser quando deixa de ter meios de resistir. O rebelde, mesmo aprisionado, continua a ser um rebelde. É por isso que, ainda que possa perder, nunca está vencido. Os rebeldes nem sempre podem mudar o mundo. O mundo, esse, nunca os conseguiu mudar.

Face a um mundo pelo qual não sente mais que desprezo ou desgosto, o rebelde não pode satisfazer-se com a indiferença, porque essa está ainda demasiado próxima da neutralidade. O rebelde é feito para a luta, mesmo que ela não ofereça esperança. Ele não é, então, um renunciante. O rebelde sente-se estrangeiro ao mundo em que vive, mas sem nunca deixar de querer nele viver: ele sabe que só se pode nadar contra a corrente na condição de não se abandonar o leito do rio. Pertencendo a essa minoria que desde sempre preferiu o perigo à servidão, ele sabe que o respeito de si deve sempre ser conquistado. O seu afastamento puramente interior não impede o contacto, porque esse contacto é necessário à luta. E se ele «recorre à floresta» não é para aí se refugiar – ainda que seja frequentemente um proscrito –, mas para aí reaver forças vivas. «A floresta está presente por todo o lado, prossegue Jünger. Existem florestas no deserto, como nas cidades, onde o rebelde vive escondido sob a máscara de qualquer profissão. Existem florestas na sua pátria como sobre qualquer outro solo onde se possa desenvolver a sua resistência. Mas existem sobretudo florestas na própria retaguarda do inimigo.»

O revolucionário persegue um objectivo, o que não é necessariamente o caso do rebelde. O rebelde pode perfeitamente lutar por afirmar um estilo. Ele luta porque não pode fazer outra coisa que lutar. O revolucionário pretende chegar a um fim onde o rebelde encarna antes de tudo um estado de espírito. Semelhantemente, o rebelde despreza a escalada extremista e a manipulação supostamente eficaz dos slogans. Ele não é dos que se limitam a anunciar o Apocalipse em ter o mínimo meio de o remediar. Antígona é estranha ao narcisismo da radicalidade.

Por relação ao «curso da História», o rebelde sabe, por outro lado, identificar o momento e agarrar esse momento. Para romper o cerco, para tentar introduzir um grão de areia na máquina, ele raciocina sobre situações concretas. Determina a sua estratégia de acordo com o que vê surgir sob os seus olhos, não de acordo com modelos ultrapassados. O rebelde é, antes de tudo, dinâmico. Ele dinamiza o pensamento e torna esse pensamento dinâmico. Não é soldado, mas guerrilheiro. Ele não leva a cabo operações regulares mas lança ataques inesperados. Não está atrás de uma linha da frente, mas atravessa todas as frentes.

O rebelde pode ser activo ou meditativo, homem de conhecimento ou de acção. Sobre o plano estratégico, pode ser carvalho ou junco, raposa ou leão. Há rebeldes de todos os tipos. Na ordem do pensamento, Hugues Rebell, o bem falado Georges Darien, Péguy, Bernanos, Orwell, foram ao seu tempo rebeldes, tal como, mais recentemente, Jack Kerouac, Dominique de Roux, Burroughs, Pasolini, Xavier Grall, Mishima ou Jean Cau. Guy Debord foi também ele um rebelde, mesmo se a sua obra é hoje objecto de uma recuperação póstuma, sinal de que estamos já no para além do Espectáculo. Na ordem da acção, depois de tantos outros «mobilizadores do povo», poderíamos citar o subcomandante Marcos que, sem ter nunca cometido um só atentado, defende de maneira exemplar as liberdades dos índios de Chiapas. De Robin dos Bosques aos «zapatistas»: uma mesma linha!

Sempre houve rebeldes. Mas o mundo actual reserva-lhes um lugar muito particular. Na época da modernidade, o rebelde surgia muito aquém do revolucionário: era reputado por lhe faltar clara consciência ideológica e preferir, às estratégias longamente pensadas, o jogo desordenado das reacções instintivas. Hoje que a modernidade finda, ele reencontra o seu lugar. A mundialização faz da Terra um mundo sem exterior, um mundo sem outro, que já não pode ser atacado a partir de um ponto para além de si. Um tal mundo não está tanto votado à explosão como à depressão implosiva. O rebelde está apto para este mundo precisamente porque fomenta redes e propaga as suas ideias de forma viral. Neste sentido, ele é também uma figura pós-moderna, mas uma figura de oposição. Num mundo cada vez mais homogéneo, ele é a própria singularidade. Ele é um ponto opaco num mundo votado à transparência totalitária, um sujeito que permanece real num mundo de objectos virtuais, um insurrecto por excelência num mundo policiado e tornado policiador. Um estrangeiro que podíamos excluir, de pleno direito, em nome da luta contra a exclusão, se ele não se tivesse previamente excluído a si mesmo. É por isso que, de um certo modo, o futuro pertence ao pensamento rebelde, a esse pensamento que desenha clivagens inéditas, esboça uma topografia nova, prefigura um outro mundo. Porque a história permanece sempre aberta.

Jünger diz ainda que chama rebelde «àquele que, isolado e privado da sua pátria pela marcha do universo, se vê deixado ao nada». Escreve também: «Quando todo um povo prepara o seu recurso às florestas, torna-se uma potência temível.»

Robert de Herte, Eléments nº 101

Rumo ao alto

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O teu caminho é duro.

Falta-te o fôlego. Há momentos em que queres jogar ao chão essa mochila que te pesa, abandonares-te à descida, e chegar lá abaixo a essas herdades que fumegam, soltando nuvens sobre o fundo verde e cinzento dos prados e dos telhados de ardósia.

Sentes a nostalgia das águas paradas, e dos juncos claros, do remo que salpica, do caminho simples, sem esforço, à margem da ribeira.

Querias não sonhar com nada, apagar do teu pensamento a memória dos homens e, estendido sobre a erva, olhar o céu que passa, relaxado pelo voo de um pássaro.

Mas não! Há que seguir! Não tirarás a mochila, não deixarás cair o bastão. Não olharás os teus joelhos ensanguentados. Não escutarás o clamor dos ódios, não olharás esses olhos que sorriem maldades escondidas. Para cima é que há que olhar.

O teu corpo não deve viver senão para as cordas que o envolvem, o teu coração não deve sonhar senão com esses cimos que tu e os outros devem alcançar.

Conta-me, até ao fundo, a tua amargura.

Acreditavas numa alegria imediata ao subir a encosta, conduzindo um rebanho humano. Quanto sofreste! Às vezes sentiste asco. Tinhas necessidade. Era preciso que aprendesses a lição de que a ambição não compensa e que, tarde ou cedo, abandona o coração que possui. Agora já o sabes, não é assim? Sabes que não há que contar com nenhuma alegria constante, aprendeste a duvidar da ajuda que te podem dar os homens, se a tua face enrubesce não será pelas carícias mas pelos golpes dos outros.

Sem dúvida não pensavas que isto fosse assim. Imaginavas que, ao longo do caminho, os olhares e as mãos dos demais se estenderiam para ti, para apaziguar a tua febre…

Então, talvez reflictas e decidas regressar abaixo.

Não, meu filho, agora é quando a vida começa a ser verdadeiramente bela, porque sofremos por ela, e somente com o nosso esforço poderemos dominá-la.

Recordas os primeiros dias? Desejavas que a ascensão fosse maravilhosa, é certo. Ias, nada menos, que libertar a tua alma.

Mas recorda o que é o homem capaz de levar escondido.

Não é verdade que acreditavas nesse turvo prazer do demónio e das homenagens?

Sim, talvez não desejasses cruamente tudo isso e tinhas, para julgá-lo, palavras bastante sinceras. Mas tudo aquilo florescia, contudo, ao largo das tuas acções, como a espuma ao largo do mar. Pensavas lealmente que não vivias para essa orla luminosa, bela, porque estavas longe, no confim das praias. Mas a tentação estava viva no teu coração. Querias algo grande, ainda que, todavia, mantivesses junto a ti, intacto, o teu pensamento. O teu orgulho consentia-te uma violência um tanto cobarde.

Estavas disposto a cumprir o teu dever. Mas deixavas a tua consciência acrescentar, em voz baixa, que talvez o dever pudesse coincidir com o renome e a ambição.

Agora já não o crês, e, por isso, os teus olhos têm reflexos melancólicos.

Olhas o vazio. E não deve ser assim. Olha direito, de frente, para desprezar tudo o que amavas apesar de não ser puro.

Os que te sublevam tantas vezes, pela sua maldade e pelas suas injustiças, ajudaram-te mais que tu mesmo.

Nega-lo? Dizes que deste em vão o teu corpo e o teu alento, o teu coração e o teu pensamento?

Em vão? Por que não te entregaste mais?

Só agora começarás a entregar-te por inteiro!

Era precisa que a maldade dos outros te abatesse. Era preciso que na hora em que acreditavas que ias cair, esgotada a tua resistência, nos enganos dos outros e nos seus desprezos, fincasses pé para continuar…

Era preciso que todos os teus gestos de amor estivessem salpicados de ódio, que todos os teus impulsos se maculassem, que cada palpitação do teu coração fosse acompanhada de um golpe no teu rosto…

Conheceste tantas vezes esses últimos metros angustiantes, em que sorrias perante a meta, apesar do suor e da palidez. E, um segundo depois, seguias, traído pelos teus, perseguido pelos outros!

Havia que começar de novo!

E sempre o vazio enganoso do vale atraindo-te e os álamos oscilantes procurando chamar-te como uma fileira de navios, sobre o mar dos dias felizes.

Sofreste o rigor dos combates. Disseste a ti mesmo que qualquer que seja a vitória, o preço é demasiado alto e não o queres pagar.

Pensavas sempre em ti mesmo, para ti mesmo, tão só pelo prazer humano de ter chegado ao final; no puro engano. Mais, se a vida não te tivesse esbofeteado cem vezes, terias, por acaso, alguma vez compreendido que existem outras recompensas além do orgulho, dos sorrisos aduladores e da glória?

Adivinhaste a hipocrisia em tantos rostos!

Descobriste todas as suas mentiras, todo o seu fel, todas as baixezas que te tinham destinado! Isto, de toda a vez que retomavas o caminho!

Já não tens direito a nada!

Esse olhar que te vigia, essa mão que se estende em direcção a ti, essa palavra de alento, carregaram-se de opróbrio e ouvirás o rumor confuso dos ódios viperinos.

Na hora suprema de tudo teres dado, dirão que eras um ambicioso.

No momento em que o teu coração se sinta totalmente abandonado, pedir-te-ão os mais vis serviços.

Viras o rosto para que não te vejam, com pesar teu, chorar? Porquê? Pensas, ainda, em ti mesmo? Sofres todavia com a injustiça quando, na realidade, se trata somente de um problema teu?

Quanto custa ao homem desprender-se do homem!

Deixa-os abater sobre a tua vida como chacais, deixa-os rir dos teus sonhos, deixa-os abrir, a todos os ventos, o segredo do teu coração!

Sofre, que te atirem às bestas da inveja, da calúnia, da baixeza! Suporta, sobretudo – e nada te mortificará mais que isso… – que, no momento em que não possas mais, e os teus joelhos se dobrem, e os teus olhos procurem um olhar, e os teus braços uma mão amiga, então, quando estás pendente dessa palavra e desse olhar, a palavra caia sobre ti para desfazer-te, e o olhar para fazer-te sofrer; aceita, por fim, que os que querem derrubar-te sejam os que mais perto tinhas, aqueles a quem te havias abandonado, aqueles a quem tão ingenuamente amavas, sem reservas, sem uma só reticência.

Os teus olhos revelam uma angústia mais patética que um grito. Não grites, porém! Espera que tudo o que ontem sofreste se renove amanhã. Aceita-o de antemão. Não te voltes, sequer, ao ouvir, por detrás de ti, esse murmúrio atroz. Bendiz os golpes que recebas. Ama os que virão depois. Ser-te-ão mais úteis que os corações que, em verdade, te amam.

Talvez encontres um dia, ou acaso já encontraste, esses afectos que te chegam como uma lufada de ar puro ou como o aroma das flores campestres.

Até que, à força de sofrer, não tenhas aprendido a prescindir deles, não os gozarás dignamente.

Tê-los-ias perdido, sem dúvida, se não tivesses pago cem vezes o seu preço sem a menor garantia de os obter.

Já não contam para ti.

Afasta-os do teu pensamento.

Mais, se um dia reaparecem, aproveita-os, como uma dessas paisagens sublimes que se vêem ao passear, são um detalhe.

Não tinhas vindo para ver isso… não; chamavam-te outras coisas: o ar, a luz dos altos cimos…

Já respiras melhor. Agora espera, em paz, a verdadeira alegria, as grandes neves da consciência, brancas, brilhantes, sem a marca de uma só pegada, mudas num doce silêncio…Não penses senão nelas, não olhes para mais que elas, apressa-te e chega, ligeiro, puro, pleno de sol.

Sente as tuas debilidades e as tuas faltas, arrepende-te delas, e só delas. O teu orgulho, o teu renome, os ímpetos de vaidade das horas, já longínquas, da partida, tudo isto atira-o para lá das rochas…

Não ouviste como se despedaçavam? Bem morto está tudo aquilo! A amargura e o abandono, em vez de indignar-te, serão o teu sustento pelo caminho que se abre. Esses cães que ladram guardarão o rebanho dos teus pensamentos; sem eles, o que seria de ti? Terias que deter-te, perder-te-ias, sem rumo. Não percas nem um instante. Estás, ainda, muito longe. E deves chegar até ao alto…

Quando alcançares essa imensidão pura, far-se-á um grande silêncio por detrás de ti. Todos os que gritavam, injuriando-te, os que te odiavam, os que queriam derrubar-te apesar dos seus sorrisos, todos os que te seguiam pelo caminho, mas para te agredir, dar-se-ão conta, subitamente, de que atrás de ti também eles chegaram ao alto, às neves puras, ao ar novo, aos horizontes recortados sobre o céu…então esquecerão o seu ódio e olhar-te-ão com olhos maravilhados de criança. Terão descoberto o essencial. As suas almas ter-se-ão elevado a cimos que jamais se teriam atrevido a aceitar como metas, se os tivessem visto. Mas estavam tapados pelas tuas costas, as costas que eles agrediam.

Então a vitória será tua…poderás, depois de te teres entregue até ao último esforço, cair, com os braços cruzados, desde o grande cimo, com os seixos, até ao fundo longínquo do abismo.

Tudo terá terminado. A vitória será tua. Voltar abaixo já não terá importância, terás deixado a vida com o último esforço, mas os outros estarão ali, à beira da imensidão, virginal, da sua redenção…

Sabes que aí está a única, a verdadeira felicidade.

Canta! Que a tua voz ressoe nos vales profundos!

Não te arrependas das tuas lágrimas.

O mais duro já está feito! Agora, resiste e resiste! Cerra os dentes e põe uma mordaça no teu coração! E sobe!

Leon Degrelle, Cimas, in Almas Ardiendo

A besta eficiente

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(…) Tudo, porém, faz parte do mesmo: um processo geral de tecnicização do ensino, onde a instrução “prática”, isto é, imediatamente traduzível em termos laborais ou técnicos (Inglês, Informática, etc), marginaliza primeiro e expulsa depois os conhecimentos “teóricos”, isto é, aqueles que “só” servem para estudar o sentido da vida. O bom, o belo, o justo, são desterrados das salas de aulas em benefício do útil. Mas se não sabemos onde está o bom, o belo e o justo que sentido dar a essa utilidade? Para que serve o útil? A tragédia do utilitarismo é que acaba por ser inútil.

A pergunta “para que serve estudar filosofia” admite sempre uma só resposta: Estudar filosofia serve para não fazer perguntas tão tontas. Isto haveria que explicá-lo – ainda que talvez seja inútil – a quem se empenhou em converter os centros de ensino em simples dispensários de instrução “prática”. A finalidade da educação – que é algo mais que simples instrução – não é só formar seres úteis para a sociedade, isto é, fabricar bons sistemas; criar bestas eficientes é um horizonte bem pouco prometedor. A educação serve para coisas muito mais altas. Os gregos, por exemplo, viam a formação do cidadão como uma obra de arte. Por isso ensinavam coisas tão pouco “práticas” que projectaram a sua sombra durante milénios. Os egípcios, pelo contrário, limitavam o ensino à pura instrução técnica da casta dos escribas; a sua civilização, que obteve êxitos surpreendentes, desapareceu sem deixar rastro vivo na História. Hoje o caminho da Europa, paradoxalmente, afasta-se da Grécia clássica e abraça o modelo do Egipto dos faraós. A poeira engolir-nos-á nas nossas faustosas pirâmides.

Uma velha piada relata que um automóvel avança pela auto-estrada a toda a velocidade. Dentro vão dois tipos. Pergunta um ao outro: «Onde vamos?». O outro olha o seu relógio e responde: «Não sei, mas levamos uma média excelente». Não há dúvida de que a nossa civilização leva uma média excelente. Mas, efectivamente, há tempo que deixou de nos interessar saber para onde vamos.

José Javier Esparza, in El Semanal Digital, 12 de Maio de 2005.

Excalibur (1981) – Mais que um filme

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“… As idades obscuras… A terra estava dividida e sem Rei. No meio deste tempo perdido começou a lenda do Mago Merlin e a chegada de um Rei, de uma espada poderosa: Excalibur”

“Entrámos na garganta do Dragão…”. Achamo-nos, sem dúvida, ante um mito que foi plasticamente modelado para chegar a um público desejoso de novidades e originalidades. E ainda assim, queira-se ou não, constata-se um facto muito importante: Este filme inspira e desperta os mais nobres anseios de muitos jovens. Como algo que acorda desde os tempos mais remotos e imemoriais, surge como um impacto no nosso interior adormecido, na Lembrança Espiritual do nosso Sangue.

As personagens desta maravilha de arte cinematográfica, encarnam de forma inultrapassável o papel que lhes foi atribuído. Muitos somos os que ficamos absorvidos por essa figura cheia de Sabedoria e simpatia que é Merlin, essa Nobreza, símbolo da Amizade, que é Lancelote, esse constante afã por manter a Paz e a Justiça, que é Artur, ou essa Juventude inocente com ânsia de aventura e auto-superação que é Percival.

Cada personagem conquista-nos profundamente, harmonizando o seu aspecto exterior com o espírito que irradia desde o seu coração em cada gesto, em cada olhar, em cada palavra. Curiosamente, todos são actores quase desconhecidos, como se viessem expressamente do mundo da lenda, do além dos tempos, para despertar uma lembrança que permaneceu adormecida durante séculos.

Qual foi a intenção do director? É muito difícil sabê-lo. É possível que seja totalmente inconsciente da sua obra. É possível que no seu afã de alcançar uma novidade radical, tenha obtido este resultado. Não podemos negar que no filme não existe rigorosidade quanto ao seguimento da lenda, o que não é nem mais nem menos do que o que fazem todos os directores quando querem fazer algo demasiado grande.

Existe uma concessão à morbosidade do grande público? É possível… porém, esse “enorme dispêndio” de sangue que tanto se lhe aponta, ou a famosa cena do corvo comendo um olho, não fazem mais que dar um acento mais cru que nos aproxima minimamente às dramáticas circunstâncias que as personagens estão a viver. A partir destes toques de crueza e exagero, o espectador faz-se participante desse mundo em luta. Indubitavelmente, não tem nada que ver com os clássicos filmes de índios nos quais o espectador passa o tempo ou pouco mais, e onde o imperante é a carência de toda a Transcendência.

O “leitmotiv” deste filme reside no valor do Sangue e tudo o que isto significa: Nobreza, Honra, Amizade, Amor… e também a aceitação das debilidades, como a traição que, apesar de tudo, são superadas e redimidas através da Fidelidade e da Nobreza, ou seja, também pela força superadora que habita no Sangue. O “valor do Sangue” apresenta-se nesta obra por cima de toda a crença ou religião. Por um lado aparece a religião, sem credos, sem dogmas, que só é acessível através da comunhão com a Natureza e, sobretudo, com o grande Céu que cada herói porta nas suas veias e que deve conquistar. Esta sabedoria é representada por Merlim, que instrui ao homem para que, afinal, quando o momento chegar, fique só e saiba ser um verdadeiro Rei. “Uma Terra, um Rei…”, este é o Segredo do Graal. O esquecimento destas palavras provocou a decadência, a pobreza da terra, as enfermidades e a fome das gentes. Que grande similitude com a actualidade! A Magia reside, precisamente, na recordação de umas palavras, nem mais nem menos, porque “a perdição do homem é o Esquecimento…”. A terra, o povo, o Rei, devem ser uma mesma coisa. Mais uma vez, a união do Homem com a Natureza, a união do Sangue e do Solo: “Uma Terra, um Rei…”.Por outro lado, uma magia negativa, a do ódio, a do rancor e da vingança, a que hoje impera no mundo; a magia que foi roubada por aqueles que não a mereceram, o Mundo de Morgana e de Sião.

Merlin é a estrela do filme. As suas frases vivem por si: “quando um homem mente, mata uma parte da Humanidade…”; “Lembra: há sempre alguém mais esperto do que tu….”; “O mal e o Bem; dificilmente existe um sem o outro…”; e sobretudo “Chegou a hora dos homens e dos seus costumes…”. O homem, hoje, nestes blocos de cimento, vive de costumes novos ou velhos, pouco importa, mas em definitivo ninguém sabe ver o que há para além do seu nariz. Hoje, o mais “nobre” dos homens é um ser retorcido, rancoroso, intolerante, que se crê possuidor da única verdade. É um fruto deste mundo de costumes mecanizados. Os “bons” contentam-se em ter um bom pensamento cada dia, para capitalizar essa segurança social do “Além” que chamam céu.

Na procura do Graal morrem todos os guerreiros, só sobrevive um, e ele vence por todos. E como vence Percival? No filme isso reflecte-se bastante bem: Vinte anos de luta, vagabundeando, buscando, para dar-se conta de que nada exterior tinha importância, no fundo tudo é um sonho pelo que não nos devemos deixar arrastar. Afinal, despoja-se de todo o atributo, de toda a vestimenta e, mais uma vez, praticamente nu e com a única coisa que lhe restava, a Esperança, a Fé, responde ante o grande Segredo para descobrir o que foi na origem: “Uma terra, um Rei…”. Nada era mais importante do que estas palavras. Ele, sozinho, nu, com o seu corpo, com a sua Esperança, com a sua Fé, e com o seu Rei, tudo era uma mesma Unidade, e nenhuma outra coisa tinha importância. É a Suprema Singeleza, revelada em palavras tão grandes como Fidelidade, Honra, Amizade… e revelada também num caminho cruel marcado pela luta e o Desapego.

Surpreende que, quem isto escreve, possa ver, num filme como este, todo o contrário do que alguma outra pessoa pudesse interpretar. E não deixa de ser surpreendente que alguns até realizaram uma autêntica perseguição intelectual totalmente obsessiva contra este filme. Cumpre saber que quem possua a Verdade não deveria ter medo de perdê-la.

Qualquer aspecto do filme poderia ter uma interpretação na Luta Eterna da nossa Raça, girando tudo em torno à tão mítica Sabedoria Perdida, representada pelo mundo de Merlin, como parte humanizada do Grande Dragão, símbolo de tal Sabedoria. Muito significativo é o facto de que, depois de ter desaparecido materialmente e depois do triunfo na Procura do Graal, o Mago volta, e, por que volta? Primeiro, foi derrotado pelo Inimigo, que lhe rouba a magia, falseando a Sabedoria, e depois, quando os guerreiros emendam a involução, reconquistando o Segredo Perdido, renasce dentro deles: Merlím passa a fazer parte deles, vive o que ele chama “O Mundo dos Sonhos”, “Sonho para uns, pesadelo para outros”. Sendo esta a grande consequência do triunfo: o Conhecimento volta ao homem, o homem converte-se por sua vez em Mago, ou seja, é Sacerdote-Guerreiro, no sentido mais elevado da palavra. Merlin e Artur são um mesmo e, a partir desta Reconquista, o Inimigo acha o seu fim, a Obscuridade começa a dissipar-se.

E veja-se o grande paralelismo, mais uma vez, com a nossa luta: o derradeiro encontro de Morgana com Merlin. O Inimigo, na sua obsessão e no seu ódio, converteu-o num sonho, trágico para Ele, ainda que esperançoso para o Novo Mundo que nascerá regenerado. Merlin foi derrotado e agora não tem nada a perder, e por isso aparece a Morgana de forma invulnerável, porque os Cavaleiros do Graal fizeram-no Eterno.

O Derradeiro Batalhão, que tanto tempo esteve aguardando, derrota por fim o Inimigo. Desta forma fecha-se um ciclo na Humanidade: a Espada volta ao lago, e Artur viaja à Ilha da Imortalidade, acompanhado da wagneriana “Marcha Fúnebre de Siegfried”; pouco tem de morto e muito de Eternidade. Estas foram as suas derradeiras palavras: “Um dia chegará um Rei e a Espada ressurgirá das Águas”.

Eternamente repete-se o Mito, eternamente volta o Rei Artur e o Mago Merlin, porque vivem no interior dessas Águas que são o nosso Sangue, que é o Mundo da nossa Raça.

Vai este artigo para aqueles que viram neste filme algo verdadeiramente superior, sem rancor para os que tenham rancor, sem ódio para os que tenham ódio, porque apreendemos algo mais: Artur, Merlin, Lancelote, Percival, somos nós próprios, a maior verdade que possuímos é o valor do Sangue que corre pelas nossas veias, o nosso escudo é a nossa Fé, e tudo isto é o que além de todos os tempos forja a nossa espada: EXCALIBUR!

Anál natchrach, orth´ bháis bethad, do chél denmha.

Adaptado de Francesc Sánchez-Bas, na Terra e Povo – Galiza

Porquê no Kosovo

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O que é que justifica o que sucedeu no Kosovo (deveríamos, até, dizer na Sérvia)? O longo processo que levou à criação de um Estado que nunca havia existido como tal, que não tinha qualquer tradição enquanto comunidade independente e singular, e em clara violação do chamado «direito internacional»?

O Kosovo está situado na zona geopolítica mais melindrosa da Europa. Os Balcãs são uma zona fulcral para a estabilidade do Continente, ou, dito inversamente, para qualquer eventual acção de destabilização. Prova-o a própria História.

Por outro lado, o Kosovo está bem localizado face às rotas energéticas europeias.

Acresce que é também uma região particularmente bem situada no seio do espaço de acção geopolítica da Rússia, pelo que reúne, assim, uma importância estratégica suplementar para a hegemonia internacional “ocidentalista”.

Para poder maximizar essas potencialidades estratégicas da região era importante dispor de uma base militar que pudesse funcionar como ponto de apoio. A guerra de desmembramento da Jugoslávia permitiu que isso fosse alcançado, com a subsequente construção de «Camp Bondsteel» no Kosovo, a maior base militar americana implantada no estrangeiro desde a guerra do Vietname, e que está apta a ser expandida e reequipada.

Esta base, para além, da capacidade de controlar a região balcânica, consegue ainda ajudar a projectar a capacidade de acção norte-americana para a região do Mar Cáspio e do Mar Negro, por onde passam (ou passarão) gasodutos e oleodutos fundamentais para diversificar rotas e fornecedores que permitam reduzir a importância da Rússia enquanto fornecedor energético.

Isto ajuda também a perceber a convergência da U.E., e dentro dela, talvez mais destacadamente, da Alemanha. A diminuição do raio de influência russa sobre a “Europa”, ou a oposta expansão do raio “europeu” sobre o espaço geopolítico russo, juntamente com a diminuição da dependência face à Rússia nas rotas, infra-estruturas e segurança do aprovisionamento energético, terá sido encarado como positivo por uma maioria de países e interesses conviventes na U.E.

O Kosovo tem ainda duas características que o tornaram apelativo:

– Sendo uma região bastante pobre é, por consequência, muito dependente da “ajuda” dos seus “aliados” internacionais, o que permite o estabelecimento de uma relação de subordinação face às fontes de financiamento.

– Muitos dos seus dirigentes estão, ou estiveram, ligados a redes mafiosas, sobretudo de narcotráfico (incluindo o actual primeiro-ministro Hashim Thaçi). É, pois, uma sociedade marcada por vastas teias de corrupção com fortes ligações aos poderes políticos.

Estas duas condições ajudam a fazer do Kosovo um excelente protectorado: é economicamente subjugável e dispõe de uma importante oligarquia passível de ser comprada.

Do caminho para a servidão…

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Para o liberal há duas categorias de indivíduos que ameaçam o futuro da República e, mais globalmente, o futuro do mundo: o infame funcionário que ganha o salário mínimo e a “ignóbil” escumalha que incendeia viaturas (graças a Deus que, por enquanto, principalmente os peugeot dos proletários, mas quem sabe se a sua vilania não se estenderá um dia aos “topo de gama” alemães?).

Que se elimine estas duas espécies de parasitas e um futuro feliz e risonho, ornamentado por stock-options e participações em lucros, abrir-se-á então às nações ocidentais, reconciliadas na sua verdadeira religião, a do consumismo bem-aventurado, que tem o Financial Times por Bíblia, o Dow Jones como Espírito Santo e Hayek por profeta.

Criminosos de colarinho branco? Isso não existe.
Insider Trading? Simples “astúcias” de tipos que são mais espertalhões que os outros.
Jérôme Kerviel? Um mandarete desajeitado.
Os senhores da grande distribuição? Filantropos unicamente motivados pelo desejo de oferecer produtos de qualidade a baixos preços às massas agradecidas.
As fortunas de centenas de milhões de euros? Justas retribuições do mérito e do talento.
Os despedimentos nas empresas ultra lucrativas? “Ajustamentos” necessários para os lucros futuros.
As catástrofes ecológicas? Fantasias de hippies esquerdistas.
Os que fogem ao fisco? Heróis da liberdade.
O estudante que, depois de ter sido subsidiado pela nação durante todo o seu percurso escolar e universitário, se vai oferecer ao estrangeiro que melhor paga? Um exemplo a saudar e a seguir.
Os desempregados? Uns preguiçosos.
Os pobres? Uns incapazes.
Os excluídos? Uns inúteis.
As leis? Um entrave ao mercado.
A interdição do trabalho infantil? Uma discriminação absurda que ameaça destruir os rendimentos das classes populares.
Os Thénardiers ? Promotores da livre iniciativa caricaturalmente denegridos.

Via Zentropa.Info