A besta eficiente

by RNPD

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(…) Tudo, porém, faz parte do mesmo: um processo geral de tecnicização do ensino, onde a instrução “prática”, isto é, imediatamente traduzível em termos laborais ou técnicos (Inglês, Informática, etc), marginaliza primeiro e expulsa depois os conhecimentos “teóricos”, isto é, aqueles que “só” servem para estudar o sentido da vida. O bom, o belo, o justo, são desterrados das salas de aulas em benefício do útil. Mas se não sabemos onde está o bom, o belo e o justo que sentido dar a essa utilidade? Para que serve o útil? A tragédia do utilitarismo é que acaba por ser inútil.

A pergunta “para que serve estudar filosofia” admite sempre uma só resposta: Estudar filosofia serve para não fazer perguntas tão tontas. Isto haveria que explicá-lo – ainda que talvez seja inútil – a quem se empenhou em converter os centros de ensino em simples dispensários de instrução “prática”. A finalidade da educação – que é algo mais que simples instrução – não é só formar seres úteis para a sociedade, isto é, fabricar bons sistemas; criar bestas eficientes é um horizonte bem pouco prometedor. A educação serve para coisas muito mais altas. Os gregos, por exemplo, viam a formação do cidadão como uma obra de arte. Por isso ensinavam coisas tão pouco “práticas” que projectaram a sua sombra durante milénios. Os egípcios, pelo contrário, limitavam o ensino à pura instrução técnica da casta dos escribas; a sua civilização, que obteve êxitos surpreendentes, desapareceu sem deixar rastro vivo na História. Hoje o caminho da Europa, paradoxalmente, afasta-se da Grécia clássica e abraça o modelo do Egipto dos faraós. A poeira engolir-nos-á nas nossas faustosas pirâmides.

Uma velha piada relata que um automóvel avança pela auto-estrada a toda a velocidade. Dentro vão dois tipos. Pergunta um ao outro: «Onde vamos?». O outro olha o seu relógio e responde: «Não sei, mas levamos uma média excelente». Não há dúvida de que a nossa civilização leva uma média excelente. Mas, efectivamente, há tempo que deixou de nos interessar saber para onde vamos.

José Javier Esparza, in El Semanal Digital, 12 de Maio de 2005.