Piloto de guerra…

by RNPD

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«Derrota…Vitória…Não sei como me servir dessas fórmulas. Há vitórias que exaltam, outras que abastardam. Há derrotas que assassinam, outras que fazem despertar. A vida não se pode enunciar por estados, mas por iniciativas. A única vitória de que não posso duvidar é a que reside no poder das sementes. Lançada a semente, na amplidão das terras negras, ei-la já vitoriosa. Mas é preciso que o tempo passe para assistirmos ao seu triunfo no trigo.

Esta manhã só havia um exército desmantelado e uma multidão desordenada. Mas tal multidão, quando há uma consciência que a liga, deixa de ser desordenada.. As pedras de uma obra a construir só na aparência são desconexas, quando há, perdido na obra, nem que seja um único homem que concebe uma catedral. Não me inquieta o estrume disperso se ele esconde uma semente! A semente absorvê-lo-á para construir.(…)

O que se deve fazer? Isto. Ou o contrário. Ou outra coisa. Não há determinismo algum do futuro. Que se deve ser? Eis a questão essencial, porque só o espírito fertiliza a inteligência. Torna-a grávida da obra futura. A inteligência conduzi-la-á a bom termo. O que deve fazer o homem para criar o primeiro navio? A fórmula é muito complicada. O navio nascerá, por fim, de mil tentativas contraditórias. Mas o que deve ser esse homem? Agarro aqui a criação pela raiz. Deve ser mercador ou soldado, porque então, necessariamente, por amor das terras longínquas, suscitará os técnicos, arrastará os operários e lançará, um dia, o seu navio! O que é preciso fazer para que toda uma floresta desapareça? Ah! Isso é muito difícil…o que é preciso ser? É preciso ser incêndio!

Amanhã entraremos na noite. Que o meu país exista ainda quando o dia voltar! O que devemos fazer para o salvar? Como enunciar uma solução simples? As necessidades são contraditórias. Importa salvar a herança espiritual, sem o que a raça se verá privada do seu génio. Importa salvar a raça, sem o que a herança se perderá. Os lógicos, na falta de uma linguagem que concilie as duas exigências, serão tentados a sacrificar a alma ou o corpo. Mas quero lá saber dos lógicos! Quero que o meu país exista – no seu espírito e na sua carne – quando o dia voltar. Para agir de acordo com o bem do meu país terei de me esforçar nessa direcção, a cada momento, com todo o meu amor. Não há passagem que o mar não encontre, se tiver força.»

Antoine de Saint-Exupéry, Piloto de Guerra, pp96-98, Publicações Europa-América