Quando a esquerda raciocina…

by RNPD

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Professor Chomsky, um dos temas em que os activistas parecem ter boa imprensa nos Estados Unidos – e parece em dissonância com o que normalmente vemos – é na cobertura dos protestos contra o Apartheid sul-africano. Tem alguma ideia por que a cobertura disso possa ser um pouco mais positiva?

– Penso que tem razão: os movimentos anti-apartheid nos Estados Unidos têm uma muito boa imprensa – por isso quando algum «mayor»,por exemplo, participa numa demonstração contra a África do Sul há geralmente uma reportagem favorável do acto. E penso que a principal razão é que as próprias empresas ocidentais são, por esta altura, basicamente anti-apartheid, e isso tende a ser reflectido na cobertura jornalística.

Repare, a África do Sul tinha vindo a passar por uma transformação económica interna, de uma sociedade baseada na indústria extractiva para uma baseada na produção industrial – e essa transformação mudou a natureza do interesse internacional na África do Sul. Enquanto o país foi essencialmente uma sociedade cuja riqueza era baseada na extracção de diamantes, ouro, urânio, etc., o que era preciso era, basicamente, largos números de escravos – pessoas que descessem às minas e trabalhassem por um par de anos, depois morriam e eram substituídas por outras. Por isso era necessário uma população de trabalhadores iletrados, subjugados, cujas famílias recebessem apenas o dinheiro suficiente para reproduzirem mais escravos, mas não muito mais que isso – depois ou os mandavam para as minas ou transformavam-nos em mercenários no exército para que ajudassem a controlar outros. Isso era a África do Sul tradicional. Mas à medida que a África do Sul se transforma numa sociedade industrial, também essas necessidades começam a mudar: agora já não são necessários escravos, mas uma força de trabalho dócil e parcialmente educada.

Na realidade algo similar aconteceu nos Estados Unidos durante a nossa revolução industrial. A educação pública massiva foi introduzida nos EUA no século XIX como forma de treinar a força de trabalho, largamente rural, para a indústria – de facto, a população geral nos EUA opunha-se largamente à educação pública, porque significava tirar-lhes os filhos das quintas, onde pertenciam e onde trabalhavam com as suas famílias, e jogá-los neste cenário em que eram basicamente treinados para se tornarem trabalhadores industriais. Isso foi parte de toda a transformação da sociedade americana no século XIX, e essa transformação está agora a acontecer para a população negra da África do Sul – ou seja, para cerca de 85% da população. Por isso, as elites sul-africanas brancas, e os investidores internacionais em geral, precisam agora de uma força de trabalho treinada para a indústria, não apenas de escravos para as minas. E isso significa que precisam de pessoas que possam seguir instruções, ler diagramas, serem gerentes, chefes, coisas assim – por isso a escravatura já não é o sistema adequado para o país, precisam de se deslocarem para algo mais parecido com o que temos nos EUA. E é basicamente por essa razão que o Ocidente se tornou anti-apartheid, e que a imprensa tenderá a dar uma cobertura decente aos movimentos anti-apartheid.

Quero dizer, geralmente as demonstrações políticas têm uma cobertura noticiosa muito negativa nos Estados Unidos, independentemente daquilo a que se destinem, porque mostram que as pessoas podem fazer coisas, que não têm que ficar passivas e isoladas – e não é suposto terem essa lição, é suposto pensarem que são impotentes e nada podem fazer. Por isso, qualquer tipo de protesto público tipicamente não será noticiado aqui, excepto, talvez, localmente, e normalmente de forma muito negativa, sobretudo se são protestos contra as políticas de um aliado preferencial dos EUA. Mas no caso da África do Sul a cobertura noticiosa dos protestos é bastante positiva: por isso se as pessoas vão a uma reunião de accionistas e armam uma confusão por causa do desinvestimento (retirada de investimento da África do Sul para pressionar o seu governo), geralmente terão uma imprensa favorável.

Claro, não é que o que estão a fazer seja errado – o que estão a fazer é certo. Mas devem entender que a razão pela qual estão a ter uma imprensa razoavelmente favorável deve-se a que, nesta altura, os homens de negócio olham-nos como as suas tropas – os executivos empresariais já não querem o apartheid na África do Sul. É a mesma razão que levou os homens de negócio a apoiar o Movimento dos Direitos Civis nos EUA. As empresas americanas não tinham qualquer uso para o apartheid sulista, na realidade aquilo era mau para o negócio.

Repare, o capitalismo não é fundamentalmente racista – pode explorar o racismo para os seus propósitos, mas o racismo não faz parte dele. O Capitalismo quer, basicamente, que as pessoas sejam peças permutáveis, e as diferenças entre elas, como a raça, não são funcionais. Quer dizer, podem ser funcionais por um período, se é preciso, por exemplo, uma força de trabalho super explorada, mas essas situações são algo anómalas. A longo prazo, pode-se esperar que o capitalismo seja anti-racista – porque é anti-humano. E a raça é, de facto, uma característica humana – não há nenhuma razão pela qual deve ser uma característica negativa, mas é uma característica humana. Por isso identificações baseadas na raça interferem com o ideal básico de que as pessoas devem existir apenas como consumidores e produtores, peças permutáveis que comprarão todo o lixo que é produzido – essa é a sua função última, e quaiquer outras propriedades que tenham são relativamente irrelevantes e usualmente consideradas inconvenientes.

Noam Chomsky, Understanding Power: The Indispensable Chomsky, New York: The New York Press, 2002, pp.88-89