A era da fealdade

by RNPD

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O modernismo, nas suas várias declinações formais, é hoje publicitado com inconsciente obstinação em livros e revistas de arquitectura mais atentas ao refinamento do papel e ao carácter abstracto do grafismo dos contornos do que ao conteúdo, ausente na sua essência e, ademais, esterilizado numa linguagem pretensiosa. É também isto o espelho de uma realidade em profunda desagregação, na qual a dita cultura moderna manifesta toda a sua inconsistência, privada como está de sólidas bases de referência com o passado. No renascimento, a formação dos arquitectos fazia-se com um aprofundado estudo crítico das obras-primas do passado, e no século XVIII a Academia de França ditava as regras do bem construir com uma aposta cultural formal. Hoje, o estudo da Antiguidade, como a designava Norman Shaw, é inteiramente superficial, quando não mesmo prejudicial pela incapacidade de retirar válidas indicações culturais. Como afirma Reginald Blomfield, docente e figura histórica da arquitectura dos anos 30: “é como se a grande arquitectura não existisse antes do século XX, o modelo de um município era um edifício longo e baixo com uma torre estreita e alta numa extremidade e uma casa era uma caixa com uns buracos”.

A falta de bases culturais, já então denunciada por Blomfield, determina os estragos que hoje lamentamos, de uma arquitectura banalizada pela tecnologia, consequência de um corte talvez insanável com o passado e de uma cega submissão à máquina. Já Nietzsche numa sua conferência sobre o futuro das nossas escolas estigmatizava o estado de enfermidade cultural:” Quem vos guiará à pátria da cultura se os vossos guias são cegos e passam por gente que vê, quem de entre vós chegará ao verdadeiro sentimento da sagrada gravidade da arte, se vós sois constantemente corrompidos para balbuciar sozinhos quando vos deveriam guiar, a meditar e filosofar sozinhos sobre as obras de arte quando vos deveriam obrigar a escutar grandes pensadores e tudo isto com o resultado que permanecereis eternamente distantes da obra de arte e servidores do hoje-em-dia”. O modernismo, como todos os ismos da nossa infausta época, tem as suas raízes no intelectualismo dos nossos contemporâneos que querem parecer inteligentes sem terem qualquer capacidade para compreender, simplesmente desejosos de seguir qualquer tendência com a sua falsa ideia de progresso.

O intelectualismo confundiu o significado das palavras, criou uma linguagem de maneirismos, introduziu novas modalidades de relacionamento com a realidade do comércio e dos interesses económicos prevalecentes, produziu funcionários da cultura pretensiosos e sine nobilitate, como convém à melhor tradição do snobismo. Os críticos de arte, que antes não existiam, inventaram uma linguagem confusa e hermética, e “viram” em certas obras o que não estava lá para ver, exaltando coisas extraordinárias onde apenas existia a nulidade. O crítico, como o comerciante de arte, fez-se cúmplice de operações de mercado habilmente orquestradas com prejuízo de um público agora ignorante e mal preparado, portanto facilmente influenciável. Houve um tempo em que a arte era para conhecedores e matéria de reflexão para poetas e escritores como Sainte-Beuve, Baudelaire e Appolinaire, que em escritos isolados lhe dedicavam a sua atenção com o espírito e a sensibilidade da sua cultura.

Na pintura como na arquitectura o modernismo e o intelectualismo percorrem estradas paralelas. Em Cezanne, que durante um certo período da sua vida foi um medíocre pintor oitocentista, a viragem interpretativa deu-se com a cubificação das formas de um modo livre, fraccionado e geométrico. Há quem tivesse compreendido que a novidade e a verdadeira fealdade poderiam substituir com sucesso a falsa beleza daqueles tempos e os intelectuais fariam bem em manifestar o seu intelectualismo com renovada habilidade encantatória.

Do mesmo modo, o modernismo manifestou-se na arquitectura do século XX com as obras inspiradas na engenharia que a historiografia oficial celebrou como o advento de uma nova era. Exaltam-se os novos materiais e as novas tecnologias como expressão de novas conquistas formais fazendo da Torre Eiffel o símbolo-monumento da nova época. Mas a invasão do modernismo na arquitectura, como afirma Blomfield, “é uma questão mais séria que a sua incursão na pintura, escultura, música e literatura… apresenta a sua face desavergonhada nas nossas estradas e nos nossos campos e é demasiado grande e demasiado cara para que se possa destruir completamente”. Com a imposição do internacionalismo na arquitectura, contra todas as formas de projectos autónomos em ligação com o contexto local, afirma-se o conceito de standardização, paralela ao processo de industrialização dos materiais, com efeitos invasivos sobre o território através de anónimos contentores mais parecidos a caixotes de embalagens do que obras dignas da mínima qualidade formal. Como contraponto ao cinzentismo e melancólica monotonia dos anónimos paralelepípedos residenciais, constroem-se estruturas insolentes e vulgares em homenagem ao poder consumista e comercial. As novas “catedrais” do consumo têm dimensões sempre maiores, de super a hipermercados até cidadelas do divertimento e da distracção, tornando-se o pólo de atracção de massas de indivíduos destinados à mais delirante perda de tempo da história da humanidade.

O modernismo, como um polvo, ataca o território e destrói-o, enquanto os centros históricos permanecem no museu da História, destinados ao turismo dito cultural como simulacros de um passado inerte e impossibilitado de dialogar com o mundo contemporâneo.

O fundamentalismo ideológico da nova arquitectura impõe as suas regras, auxiliado pela crescente globalização dos mercados e a prevalência de uma urbanística dos lóbis de poder cada vez mais agressiva. Á “máquina de habitar” de Le Corbusier, estrutura multicelular que reduz o homem a mero indivíduo com funções prestáveis, contrapõe-se o pensamento de F.L.Wright que na “Cidade Viva” afirma: “ a arquitectura é orgânica só enquanto intrínseca…quando procura servir o homem e não tornar-se uma força que tenta dominá-lo”.

O transformismo da época moderna procede com insolente determinação à procura de vias de saída de uma standardização agora vazia e inventa-se o pós-moderno, espécie de miscelânea estilística que procura reavivar um movimento em declínio. Mas também esta tentativa parece destinada a um rápido esvaziamento. Como afirma Cesare De Seta:” ao fim de cinquenta anos os pós-modernos apresentaram-nos um reportório estilístico que nos relança no Oitocentos…em tempo de revivalismo tudo é concebível, mas não se pode considerar este fenómeno como uma resposta à crise do movimento moderno…é um olhar para trás um pouco desajeitado que deu lugar a expressões artísticas modestas”.

A arquitectura enreda-se cada vez mais numa espécie de espiral tecnológica, propondo soluções que exibam materiais e sistemas ditos inovativos, que de meros instrumentos à disposição do projectista tornam-se os próprios protagonistas. O predomínio da técnica como recurso para aumentar os préstimos da casa-máquina, endereça os projectos para uma tecno-arquitectura que se exprime em discutíveis soluções formais alheias ao contexto preexistente, pelo contrário frequentemente alterado e deformado por uma urbanística totalitária mais interessada nos fluxos de tráfico que na vivência do território.

A CityLife (NdT: CityLife é um projecto arquitectónico planeado para a “requalificação” da zona histórica da Feira de Milão) é disso exemplo pertinente, com as suas torres oblíquas e curvadas que parecem concebidas num delírio onírico de loucas imaginações. Expressão de um poder ávido de conquista sobre o território para melhor se representar, as torres de CityLife parecem apenas estimular a fantasia de jornalistas pouco perspicazes, em polémicas estéreis e sem utilidade como as verificadas nestes dias na imprensa. Nenhuma palavra sobre o papel de Bancos e Seguradoras que adquiriram os trabalhos da Expo 2015 em Milão, mas vasto espaço a dissertações insignificantes sobre o belo e o feio da parte de “notáveis” representantes do establishment político e cultural.

Um teatro habilmente orquestrado para recompor equilíbrios e interesses de poder.

A torre mais alta de CityLife, três vezes maior que o arranha-céus Pirelli, é representada como a torre de Babel dos tempos modernos: Um simples dado estatístico que faz recordar as considerações amargas de Giorgio Locchi sobre os turistas americanos de visita à Torre Eiffel. Dizia Locchi que o seu interesse exclusivo era saber a sua altura e peso. Se isto é a democratização, é de arrepiar.

Roberto Ugo Nucci, Rinascita, 28/04/2008