De pé perante o destino!

by RNPD

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É próprio da força espiritual dos indo-europeus – e isto é testemunhado pela grande poesia destes povos, e acima de tudo pelas suas tragédias – sentir uma alegria profunda perante o destino – na tensão entre as limitações do homem e a falta de limites dos Deuses. Nietzsche chamou uma vez a essa alegria “amor fati”. Em particular, os homens ricos em alma entre os povos indo-europeus sentem – precisamente no meio dos golpes do destino – que a divindade lhes concedeu um grande destino no qual têm de fazer prova de si.

Goethe, numa carta à Condessa Auguste zu Stolberg, de 17 de Julho de 1777 expressa um pensamento verdadeiramente indo-europeu, quando escreve:

Alles geben die Götter, die unendlichen,
ihren Lieblingen ganz:
alle Freuden, die unendlichen,
alle Schmerzen, die unendlichen, ganz.

Os Deuses eternos dão todos os infinitos
Aos seus favoritos:
Todas as alegrias e todos os pesares, para todo o eternamente,
Derradeira e completamente.

Esta alegria dos indo-europeus face ao destino nunca resulta em aceitação passiva, em fatalismo. Quando confrontado com a certeza da morte o indo-europeu permanece consciente de que a sua natureza herdada é a de um guerreiro. Isto é expresso no “Bhagavad Gita” indiano (II, 38) pelo Deus Krishna quando diz a Arjuna:”Aceita a alegria e a dor, o ganho e a perda, a vitória e a derrota, e prepara-te para a batalha, e assim não carregarás qualquer culpa sobre ti”. Mais tarde o Deus caracteriza a natureza indo-europeia ainda mais claramente, quando diz (XVIII, 59):” E se, pleno de suficiência, dissesses: «não quero mais combater», uma tal determinação revelar-se-ia vã, porque a tua natureza levar-te-ia a fazê-lo”.

Esta é a visão indo-europeia do destino, a alegria indo-europeia no destino, e para os indo-europeus a vida e a crença seriam debilitadas, se esta representação fosse substituída por um Deus redentor.

Ideias de redenção e de redentores apenas se puderam disseminar, entre os povos de língua indo-europeia, nos períodos mais tardios e geralmente apenas entre alguns sub-estratos indo-europeizados. Quando se deseja aplicar um conceito como redenção à natureza original do indo-europeu, pode-se falar, quanto muito, numa auto-redenção, mas nunca numa redenção por um Deus feito homem, um semi-Deus ou Deus. Mas a auto-redenção indo-europeia deve ser descrita, mais correctamente, como auto-libertação, como a libertação da alma que se auto-purifica moralmente, mergulhando nela própria até ao seu próprio “ser”, uma libertação para fora do tempo e do espaço, e uma libertação da necessidade da existência e da necessidade do “ser”. Uma tal auto-libertação, alcançada pela superação dos desejos do eu (Pali: kilesa = nibbana ou tanhakkhaya, a apatheia dos Estóicos) foi ensinada pelo filho do príncipe indiano, Sidarta, o sábio com “olhos da cor da Flor do Linho”, que mais tarde foi chamado Buda, o Iluminado. No domínio indo-europeu tal libertação do tempo e do espaço é experimentada, pelo místico, através do Nirvana durante o tempo de vida (Pali: samditthika nibbana), pelo isolamento da alma individual penetrando sobre si mesma, tornando-se, no seu nível mais profundo, a alma universal ou parte dela. Portanto, o misticismo ocidental não pode ser confundido com uma redenção.

Os indo-europeus sempre tiveram tendência a elevar o poder do destino acima do dos Deuses (cf. Ilíada, XV, XVII, XXII; cf. Odisseia, III; cf. Teogonia de Hesíodo; cf. Prometeus de Ésquilo; cf. Heródoto, I) especialmente, sem dúvida, os indianos, os helénicos e os teutónicos. A “Moira” ou “Aisa” dos helénicos, que já aparecia em Homero e Heraclito, corresponde às “Nornas” dos teutónicos, a “Wurd” (Weird, Wyrd;Urd na Escandinávia). Em MacBeth, de Shakespeare, o destino (Wyrd no Inglês antigo) é representado pelas “Three Weird Sisters”, que correspondem às “Parcas” dos Romanos, enquanto Deusas do destino também aparecem entre os eslavos sob várias formas, e havia uma Deusa do destino entre os letões (um povo báltico indo-europeu), chamada “Leima”. Até Platão (As Leis, V) no período tardio do seu povo, sublinhou que a divindade estava sujeita ao destino, e um provérbio anglo-saxónico, composto por um poeta cristão, transporta a visão pré-cristã : “Cristo é poderoso, mas mais poderoso é o destino”. Aura-Mazda, o Deus dos céus dos iranianos, distribui o destino, como faz Zeus, o Deus dos céus dos helénicos (G. Widengren: Hochgottglaube im alten Iran, Uppsala Universitets Årsskrift, 1938, VI, pp. 253 ff.), mas ambos, contudo, nada podem contra o destino.

Mas, repito, esta visão indo-europeia do destino não tem nada a ver com fatalismo, referindo-se meramente à compreensão daquela última e dura realidade a partir da qual a religiosidade indo-europeia origina para se erguer em direcção ao Divino. De acordo com a sua natureza, o homem indo-europeu não pode sequer desejar ser redimido da tensão da sua vida ligada ao destino. O enfraquecimento desta tensão teria significado para ele um enfraquecimento da sua religiosidade. O próprio facto de estar ligado ao destino tem provado ser, desde o início, a fonte da sua existência espiritual. “As ondas do coração não chegariam a erguer tão alto e com tanta beleza a sua espuma até torná-la espírito, se esse rochedo antigo e mudo, o destino, não fosse o seu contraponto.” Esta certeza, expressa por Hölderlin no seu Hipérion, foi pressagiada pelas tragédias de Sofocles e de cada grande poeta de natureza indo-europeia. É a mesma certeza que Schopenhauer exprimiu num comentário duro: “ Uma vida feliz é impossível, o mais alto que o homem pode alcançar é um rumo heróico” (Parerga und Paralipomena, Volume XI, Capítulo 34)

É evidente que uma religiosidade que provém de uma tal atitude perante a vida nunca pode ser universal. A religiosidade indo-europeia não pode nunca ser transferida para outras estirpes humanas à escolha. “Mahatma” (India), “megaletor” (Iliada, XVI ; Odisseia, XI ), “megalofiquia” ou “megalopsiquia” (Helénico — cf. Aristóteles: Ética a Nicómaco, II ; IV), “magnitudo animi” (Ulrich Knoche: Magnitudo animi, Philologus, Supplementband XXVII, 3, 1935), “magnanimus” (romano), “mikilman” e “storrada” (alemão do norte), do antigo nórdico “mikilmenska” ou “stormenska”, os homens de “hochgemüte” (coração nobre), como era chamado na idade média germânica – tudo descrições que podiam ser tradução umas das outras. A religiosidade é aqui o amadurecimento do herói face ao destino, que confronta ao lado dos seus Deuses. Isto é também o significado de “Readiness is all” (Hamlet, V) e “Ripeness is all” ( Rei Lear, V) em Shakespeare.

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Diz-se que a concepção de vida dos teutónicos é uma Pan-Tragédia, uma atitude que concebe toda a existência e acontecimentos do mundo trespassados por um princípio derradeiramente trágico. Mas esta Pan-Tragédia, que surge de forma quase super-consciente no verdadeiro teutão Hebbel, não é meramente teutónica, é encontrada entre todos os indo-europeus, atravessando toda a sua religiosidade. O indo-europeu torna-se um homem maduro apenas através da sua vida de tensão perante o destino. O herói teutónico, soberbamente caracterizado pelas sagas islandesas, compreende com nobreza o seu destino, permanece de pé perante ele e é, portanto, fiel a si mesmo. Ésquilo (Prometeu Acorrentado) comentou de forma similar, quando disse:”Os homens sensatos são os que honram Adrastea”, sendo que Adrastea é uma Deusa helénica do destino.

Encontramos muitas designações para o destino nas línguas dos indo-europeus, porque o destino significava muito para eles: a “Moira” dos helénicos corresponde à “Fatum” dos romanos, a “ananke” e “heimarmene” dos helénicos à “necessitas” e “fatalitas” dos romanos. Os teutónicos designavam o destino de acordo com o aspecto com que o viam, “örlog”, “metod”, “wurd”, “skuld” e “giskapu” (cf. também Eduard Neumann, Das Schicksal in der Edda, Beiträge zur deutschen Philologie, Vol. III, 1955).

Nos indianos a ideia de destino havia-se tornado a ideia de “Karma” (cf. Julius von Negelein: Die Weltanschauungen des indogermanischen Asiens, Veröffentlichungen des Indogermanischen Seminars der Universität Erlangen, Vol. I, 1924, pp. 116 et seq., pp. 165 et seq.), a ideia de uma migração da alma que, de acordo com o comportamento moral durante o tempo de vida, levaria invariavelmente a uma vida melhor ou pior depois da reincarnação – um conceito peculiar dos indianos. De acordo com a descrição helénica de “kyklos tes geneseoos”, a ideia de um ciclo de nascimentos foi originalmente característica a todos os povos indo-europeus, e também se prova a sua existência entre os celtas e os teutões (cf. também Erik Therman: Eddan och dess Ödestragik 1938, pp. 133-134, 172). Talvez também deva ser explicada a partir da observação atenta de características físicas e espirituais herdadas nos clãs, dos Indianos como dos Iranianos, dos helénicos como dos romanos e teutónicos – porque o hereditário, ter que ser como se é, é o destino.

Erik Therman (Eddan och dess Ödestragik, 1938, p. 90) descobriu que “ uma atitude desafiante perante o destino, de luta contra ele apesar do reconhecimento do seu poder supremo” é característica do Edda e de muitas das sagas islandesas. Essa atitude desafiante sobressai também no “Nibelungenlied” medieval, que espantou Goethe pelo seu carácter não-cristão, que caracterizava a imperturbabilidade teutónica face ao destino impiedoso. Foi esta mesma imperturbabilidade indo-europeia que Virgílio, e até o moderado Horácio, louvaram:

Felix qui potuit rerum cognoscere causas
atque metus omnis et inexorabile fatum
subiecit pedibus strepitumque Acherontis avari.
(Geórgica, II)

Si fractus illabatur orbis,
impavidum ferient ruinae.
(Carmina, III)

Geibel também expressou a mesma ideia na sua “Brünhilde” (II):

Se há algo mais poderoso que o destino
É a coragem, que olha o destino imperturbável.

Mencionei anteriormente que a ideia de destino já havia sido reflectida na filosofia helénica por Heraclito, Platão e outros. Os Estóicos, em particular Possidónio, passaram o conceito helénico de uma lei do destino (heimarmene) aos romanos, conceito que foi compreendido, de forma mais clara, por Epicuro e os seus discípulos Tito Lucrécio Caro, Virgílio e Horácio.

A Igreja tentou substituir a ideia indo-europeia de destino pela ideia de providência (providentia). Entre os homens capazes de pensar a tentativa falhou, porque os indo-europeus mais capazes recusaram-se a aceitar uma providência que distribui cegamente em sorte um excesso de golpes cruéis, ao mesmo tempo que encara isso como amor e benevolência. No “Opus Postumum” de Kant encontramos o seguinte comentário:” Se desejássemos formar um conceito de Deus a partir da experiência, toda a moral cairia e apenas o despotismo permaneceria”, portanto, conclui Kant, teríamos de assumir que um tal criador do mundo não tinha qualquer consideração pela felicidade das suas criaturas.

Quem quer que seja da mesma opinião de Baetke ou H. Rückert, de que aquela visão dos indo-europeus não oferecia “nenhuma solução satisfatória para a questão do destino”, ou partilhe a sugestão de que esses homens “nunca estavam preparados religiosamente para enfrentar a questão do destino” – tem uma compreensão da questão, enquanto observador exterior, completamente diferente daquela aceitação resoluta do destino com que o indo-europeu imaginava a sua vida. Não é esbatendo a questão do destino na ideia de redenção que o indo-europeu pode aperfeiçoar a sua natureza – porque tal redenção provavelmente parecer-lhe-ia uma evasão, e a sua natureza só é aperfeiçoada quando prova o seu valor na face do destino.”Mas, sobretudo, sê a ti próprio fiel”, Hamlet (I, 3). Do mandamento moral de permanecer fiel a si mesmo resulta que a religiosidade indo-europeia é de carácter aristocrático: já que não se aconselha o degenerado a permanecer fiel a si mesmo.

Não tentei aqui providenciar qualquer solução para a questão filosófica ou religiosa do destino, mas apenas explicar como o indo-europeu viveu o seu destino e como isso contribuiu para o amadurecimento do seu carácter.

A certeza do destino não fez com que o verdadeiro indo-europeu procurasse a redenção, e mesmo quando o seu destino o fez tremer, nunca se entregou à contrição ou à confissão receosa do “pecado”. Ésquilo, que estava completamente influenciado pela religiosidade helénica e pelo poder do divino, permanece de pé, como qualquer indo-europeu, perante os Deuses imortais, e apesar de todas as experiências devastadoras não manifesta qualquer sentimento de pecado.

Assim, a religiosidade indo-europeia não diz respeito à aflição, à condenação, à contrição, mas ao homem que honra a divindade permanecendo de pé, com firmeza, no meio do tumulto do destino, para lhe prestar a sua homenagem.

A palavra germânica “fromm”, significando “religioso” ou “devoto”, deriva de “capaz” ou “apto”, e está relacionada com a palavra gótica “fruma”, que significa “primeiro”, e com a “promos” grega, significando “avançar”. Para os indo-europeus a religiosidade manifestava-se sob a forma da vontade que se revelava no meio do destino, perante os deuses, mostrando a aptidão do homem de boa natureza que se tornava ainda mais vertical e pleno de divindade quanto mais devastadores fossem os golpes do destino. Porque os deuses esperam que os melhores homens e os de natureza mais verdadeira provem o que valem na bigorna do destino…

A religiosidade desafiante da juventude indo-europeia, que confronta o destino para testar a força da sua jovem alma, foi celebrada por Goethe no seu poema “Prometeu”. Também Hebbel descreveu notavelmente a jovem religiosidade indo-europeia nórdica no seu poema “An die Jünglinge”. A natureza indo-europeia estende-se dessa religiosidade mais expansiva à religiosidade mais calma, devota e interior do poema “Grenzen der Menschheit” de Goethe.

Hans F. K. Günther, The Religious Attitudes of the Indo-Europeans, London: Clair Press, 1967, Capítulo 3