O Anarca de Ernst Jünger e outras figuras dissidentes

by RNPD

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As figuras do rebelde ou do anarca, em Ernst Jünger, implicam uma outra ideia: o “recurso à floresta”. Ao recorrer à floresta, o anarca (o rebelde) manifesta a sua livre vontade de procurar ele mesmo a sua própria via e de fugir, assim, à massificação, que é o reino do maior número. Mas como sobreviver no deserto espiritual desta massificação? Em Eumeswil, o anarca, que aperfeiçoa o conceito de rebelde e o eleva a um nível qualitativo superior, é o homem que quer afirmar a sua própria liberdade. Mas à parte do sistema, pelos seus próprios meios. O rebelde, depois o anarca, mantêm a sua própria identidade, não aceitam desempenhar qualquer papel na sociedade sufocante da qual procuram fugir. Pelo contrário, procuram os seus pares, com a esperança de formar novas elites que agirão directamente sobre os núcleos vitais do sistema.

Face a estas figuras próximas do rebelde e do anarca, o partisan de Carl Schmitt é o herdeiro dos guerrilheiros franceses, jugoslavos ou soviéticos da segunda guerra mundial. Mas o partisan não está à parte de toda a lei: ele recebe as suas determinações a partir de uma instância que lhe é exterior, sobre a qual não tem qualquer dizer. Depois do seu combate, e em caso de vitória, o partisan sobre ao poder e torna-o tão rotineiro como antes, portanto tão insuportável, tão sufocante.

O sistema apenas produz “deslocados”, não anarcas, e pode justificar-se pela própria presença desses “deslocados”, provando assim que não é tão totalitário e sufocante ao ponto de absorver tudo. O “deslocado” é aquele que constrói para si uma pequena esfera de autonomia dentro do sistema, sem de lá sair, beneficiando das vantagens materiais que este oferece: o “deslocado” é, portanto, uma espécie de “canada dry” em comparação com o anarca. O marketing do sistema utiliza o atipismo formal do “deslocado”, que é assim perfeitamente recuperado, sem o menor choque. O anarca caracteriza-se por uma disciplina interior, por um trabalho em profundidade sobre si mesmo, que é inalcançável ao “deslocado”.

Alessandra Colla – Universidade de Verão da FACE, 1995, notas de Catherine Niclaisse.(Via Euro Synergies)