O dinheiro, a imprensa e a democracia

by RNPD

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«O que é a verdade? Para a multidão é aquilo que continuadamente lê e ouve. Uma pequena gota perdida pode cair algures e reunir terreno para determinar “a verdade”, mas o que obtém é apenas a sua verdade. A outra, a verdade pública do momento, que é a única que interessa para resultados e sucessos no mundo dos factos, é, hoje em dia, um produto da imprensa. O que a imprensa quer torna-se verdade. Os seus dirigentes evocam, transformam, permutam verdades. Três semanas de trabalho da imprensa, e a verdade passa a ser reconhecida por toda a gente.

As suas bases são irrefutáveis enquanto o dinheiro esteja disponível para as manter intactas. Também a retórica Clássica foi concebida para o resultado e não o conteúdo – como Shakespeare brilhantemente demonstra na oração do funeral de António – mas essa estava limitada à audiência presente e ao momento. O que o dinamismo da nossa imprensa pretende é a eficiência permanente, manter a mente dos homens continuamente sob a sua influência. Cada argumento é derrubado assim que a vantagem do poder financeiro passa para o contra-argumento e passa a levar este último ainda com mais frequência aos olhos e ouvidos dos homens. Nesse momento a agulha da opinião pública inclina-se para o pólo mais forte. Todos se convencem imediatamente da nova verdade e passam a olhar para si próprios como tendo sido acordados do erro.

Com a imprensa política existe a necessidade de uma educação escolar universal, que no mundo clássico estava completamente ausente. Nesta exigência existe um elemento algo inconsciente de desejar conduzir o rebanho das massas, como objecto da política partidária, ao encontro do poder dos jornais. O idealista da democracia nascente olhava a educação popular, sem reservas, como esclarecimento (“iluminismo”) puro e simples, e ainda hoje encontramos aqui e ali cabeças fracas que se entusiasmam com a Liberdade da Imprensa, mas é precisamente isto que abre caminho para os vindouros Césares da imprensa mundial. Os que aprenderam a ler sucumbem ao seu poder, e a auto-determinação visionária da democracia tardia resulta numa determinação total do povo pelos poderes a quem a imprensa obedece.

Nas disputas do presente a táctica consiste em retirar ao adversário esta arma. Na infância pouco sofisticada do seu poder, o jornal sofreu com a censura oficial que os campeões da tradição lhe impuseram em auto-defesa, e então a burguesia chorou porque a liberdade do espírito estava em perigo. Agora a multidão segue placidamente o seu caminho, conquistou definitivamente para si esta liberdade. Mas nos bastidores, longe da vista, as novas forças combatem-se comprando a imprensa. Sem que se observe, o jornal, e com ele o leitor, muda de mestre. Também aqui o dinheiro triunfa e obriga os espíritos livres ao seu serviço. Não há domador que tenha os seus animais sob maior controlo. Soltem o povo, como leitor-massa, e explodirá pelas ruas jogando-se contra o alvo indicado, aterrorizando e partindo montras; basta uma indicação ao staff da imprensa e o povo acalmar-se-á e irá para casa. A imprensa é hoje um exército com armas e ramos cuidadosamente organizados, com os jornalistas como oficiais e os leitores como soldados. Mas aqui, como em qualquer exército, o soldado obedece cegamente e os objectivos de guerra e planos de operações mudam sem o seu conhecimento.

O leitor não sabe, nem é autorizado a saber, os propósitos para os quais é usado, nem sequer o papel que irá desempenhar. Uma mais aterradora caricatura da liberdade de pensamento não poderia ser imaginada. Antigamente um homem não se atreveria a pensar livremente. Agora ele atreve-se, mas não consegue; a sua vontade de pensamento é apenas uma vontade de pensar dentro da ordem, e é isto que ele sente como sendo a sua liberdade.

E o outro lado desta liberdade tardia é permitir a todos dizer o que lhes apraz, mas a imprensa é livre de tomar nota do que é dito ou não. Pode condenar qualquer “verdade” à morte simplesmente não a comunicando ao mundo, uma terrível censura de silêncio, que é ainda mais potente porque as massas de leitores desconhecem em absoluto que existe. (…)

A ditadura dos partidos é suportada pela da imprensa. Os competidores esforçam-se através do dinheiro para afastar os leitores das alianças hostis e para os colocar sob o seu treino. E tudo o que aprendem nesse treino, é o que foi considerado que deveriam saber, porque uma força mais alta define a imagem do seu mundo por eles. Não há agora necessidade, como havia com os príncipes barrocos, de impor a responsabilidade do serviço militar uma vez que se açoitam as almas com artigos, telegramas e imagens até que o clamor por armas obrigue os líderes a um conflito para o qual queriam ser obrigados.(…)

O pensamento, e consequentemente a acção, das massas é mantido sob um controlo férreo, razão pela qual, e apenas por essa razão, aos homens é permitido serem leitores e votantes, isto é, numa escravidão dupla enquanto os partidos se tornam os séquitos obedientes de uns poucos, e a sombra do cesarismo vindouro já os toca.

Como sucedeu à monarquia inglesa no século XIX, também os parlamentos se tornarão, no século XX, um espectáculo pomposo e vazio. Como antes com o ceptro e a coroa, são agora os direitos do povo que são exibidos em parada para a multidão, e quanto mais escrupulosamente menor o seu verdadeiro significado. Foi por esta razão que o cauteloso Augusto nunca deixou passar uma oportunidade para realçar os antigos e venerados costumes da liberdade romana. Mas o poder está a migrar ainda hoje, e consequentemente as eleições estão a degenerar para nós na farsa que eram em Roma. O dinheiro organiza o processo no interesse daqueles que o possuem, e as eleições tornam-se um jogo pré-concertado que é encenado como auto-determinação popular. Se a eleição foi originariamente revolução em formas legítimas, esgotou essas formas, e o que acontece é que a humanidade volta a “eleger” o seu destino pelo método primitivo da violência quando as políticas do dinheiro se tornam intoleráveis.

Através do dinheiro, a democracia transforma-se na sua própria ruína, depois do dinheiro ter destruído o intelecto. Mas, porque a ilusão de que a actualidade pode permitir-se ser melhorada pelas ideias de um qualquer Zeno ou Marx desvaneceu, porque os homens aprenderam que no reino da realidade uma vontade-de-poder pode apenas ser derrubada por outra [ pois esse é o grande ensinamento humano dos períodos dos “Estados em Guerra” (NdT: da História da China)], desperta finalmente um profundo desejo por toda a antiga e valorosa tradição que ainda permanece viva. Os homens estão cansados e enjoados da economia-dinheiro. Anseiam por salvação de um lado qualquer, por algum sentido real de honra e cavalheirismo, de nobreza interior, de abnegação e dever. E agora amanhece o tempo em que os poderes do sangue, que o racionalismo da Megapolis havia suprimido, despertam nas profundidades. Tudo na ordem da tradição dinástica e da velha nobreza que se salvou para o futuro, tudo cuja ética desdenha o dinheiro, tudo o que é intrinsecamente firme para, nas palavras de Frederico o Grande, servir, trabalhar duramente ,sacrificar-se, cuidar do Estado, tudo o que descrevi noutra parte e numa palavra como Socialismo em contraste com Capitalismo (NdT: cf. “Prussianismo e Socialismo”. O socialismo de Spengler era tradicionalista e hierárquico, sem relação com marxismos ou socialismos liberais), tudo isto se torna, subitamente, o centro de imensas forças vitais. O Cesarismo cresce no solo da democracia mas as suas raízes penetram a fundo no subsolo da tradição do sangue.

O César Clássico derivava o seu poder do Tribunato, e a sua dignidade, e portanto a sua permanência, do facto se ser o Princeps. Também aqui a alma do antigo Gótico desperta de novo. O espírito das Ordens de Cavalaria supera a pilharia viking. Os poderosos do futuro podem possuir a terra como sua propriedade privada pois a grande forma política da Cultura está irremediavelmente em ruínas, mas não interessa, porque, por informe e ilimitado que o seu poder possa ser, tem uma tarefa. E essa tarefa é a incansável preocupação por este mundo tal como é, que é o exacto oposto do oportunismo vigente na era do poder do dinheiro, e requer elevada honra e consciência. Mas por esta mesma razão instala-se agora a batalha final entre a Democracia e o Cesarismo, entre as forças que lideram a ditadura da economia-dinheiro e a vontade-de-ordem puramente política dos Césares.(…)»

Oswald Spengler, The Decline of the West, Vol. II, London Allen & Unwin, 1918, pp 461-465