Entrevista nietzschiana

by RNPD

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Uma excelente entrevista a Olivier Mathieu no site da Nietzsche Académie:

Nietzche Académie – Que importância tem Nietzsche para si?
Olivier Mathieu – Na minha biblioteca, ou se preferir, na minha biblioteca ideal, ocupa um espaço importante. Tenho quase vontade, já de seguida, de pedir que me queiram desculpar por preferir um tal lugar comum. Pergunto-me se há um único intelectual, um único escritor, um único artista que possa dizer que Nietzsche não teve importância para si. Houve tanto de Nietzsche. O Nietzsche da juventude, filólogo e músico, e para quem o encontro com Wagner é decisivo. E depois o Nietzsche a associação literário-musical “Germânia”, em 1860, com os seus amigos Gustav Krug e Wilhelm Pinder. Depois o Nietzsche que se debruça sobre a civilização grega. Partilho a visão de Nietzsche contra o racionalismo socrático, prelúdio da dissolução e da decadência. A obra de Nietzsche, em parte fragmentária e inacabada, é riquíssima e, no verdadeiro sentido do termo, genial. Por vezes contraditória, se queremos empregar esse termo. Ora por, ora contra Schopenhauer. Ora por, ora contra Wagner. São apenas exemplos. Mas, ao mesmo tempo, a sua obra não é tão contraditória como alguns pretendem. Vejo em Nietzsche um poeta como um filósofo. É um trágico, e é o poeta, o filósofo e o profeta da crise europeia. Um pensador mais importante, ou mais original, que Darwin e Marx. Sem falar de tudo o que nele influenciou Freud e Bergson.

NA – Que livro de Nietzsche recomendaria?
OM – Não é fácil recomendar um único livro de Nietzsche. Tanto mais que basta por vezes comparar duas traduções do mesmo livro para perceber que, de um tradutor para outro, não lemos a mesma coisa. Também não acredito que seja suficiente enumerar títulos. É qualquer coisa de muito fácil e muito banal. A obra de Nietzsche foi publicada em vida entre 1872 (“A Origem da Tragédia”) e 1888 (“O caso Wagner”). Se a sua primeira biografia data de 1895, e é obra do marido da sua irmã (Bernhard Förster-Nietzsche, “Das Leben F. Nietzsches”, Leipzig, 1895, em três volumes, segunda edição em 1904, etc.) é preciso dizer que outras obras suas, por vezes as mais importantes, foram publicadas a título póstumo. É difícil aconselhar apenas um dos seus livros. Creio que existem livros de Nietzsche (e poderíamos dizer o mesmo relativamente a outros autores) que deveriam ser lidos numa certa idade, por exemplo a partir da juventude, enquanto outros não deveriam ser apreendidos senão mais tarde. Se é suposto haver uma alquimia, uma alquimia real, entre um leitor e os livros de Nietzsche, então essa alquimia surge. Leituras complementares indispensáveis, as obras de Schopenhauer, mas também as de Heidegger: este último escreveu bastante sobre ele, nomeadamente o seu “Nietzsche”. Teria tendência a dar um conselho aos jovens que vão começar a ler Nietzsche, é evitar, na maioria dos casos, os prefácios dos “especialistas” de Nietzsche, ou de muitos deles. E pessoalmente, uma vez que mo pergunta, a minha preferência vai para as “Considerações inactuais” (1873-1876), em particular aquelas sobre Schopenhauer. Citei daí um extracto significativo no meu romance “La Quarantaine”, surgido em Novembro de 2002 e sobre o qual Michel Marmin falou na revista Élements.

NA – O que significa ser Nietzschiano?
OM – Nietzsche é único. E os nietzschianos são raros. Teria sido preciso talvez perguntar ao próprio Nietzsche o que ele considerava, ou não, como nietzschiano. Teria tendência, contudo, a responder-lhe por esta fórmula: em mil que lerão Nietzsche, cem compreendê-lo-ão muito ou pouco, mas apenas um será verdadeiramente capaz de o assimilar, de viver de modo “nietzschiano”, de o “incarnar”, de o prolongar. Não podemos, evidentemente, ou não deveríamos contentar-nos em “consumir” Nietzsche. E, naturalmente, prolongá-lo sem o trair não é coisa fácil, e isto é o mínimo que podemos dizer. Ser nietzschiano é gostar de Nietzsche, mas é também ter alguma probabilidade razoável de pensar que Nietzsche gostaria de quem o lê. O núcleo central de uma filosofia nietzschiana é, parece-me, a decadência da Europa. Os adversários são claramente definidos por ele, e chamam-se, para simplificar, cristianismo e racionalismo. Mas Nietzsche não é apenas isso. É também um estilo, um lirismo, uma inquietude. Nietzsche não é alguém que interpretou, ou não somente, é alguém que viveu, que profetizou, que anunciou, que elaborou. E quando falo em elaborar, falo também de um ponto de vista estilístico. Foi um mestre do estilo, um “forjador de aforismos”. De uma ponta à outra da sua vida, incluído, bem entendido, aquilo que chamámos a sua “loucura”( quer esta se tenha devido, ou não, à famosa “visita ao bordel” de 1865), foi um trágico. Respondendo numa palavra. Ser nietzschiano é ter o gosto do trágico.

NA – O nietzschianismo é de esquerda ou de direita?
OM – Nos anos que se seguiram à segunda guerra mundial é bem sabido que, em reacção à recuperação de que se acusou o nacional-socialismo de ter feito com Nietzsche, assistimos a uma tendência estritamente inversa. Nietzsche tornava-se assim, segundo muitos, um iluminista, e misturavam-no com Marx e Freud, e por fim foi estudado segundo uma visão que chamaria “intelectualista”, que ele próprio teria rejeitado. A recuperação do nietzschianismo, e o mesmo poderíamos dizer de milhares de outros pensadores (por exemplo Evola) foi apanágio tanto da esquerda como da direita, partindo do princípio que estes termos querem dizer alguma coisa. Na realidade vejo em Nietzsche um poeta, um filósofo trágico, melhor: o filósofo do trágico. E se há alguma coisa que não é de direita ou esquerda é o trágico. Quanto mais nos afastamos do lirismo, do estético, da literatura, da poesia, do trágico, mais nos aproximamos da tradição burguesa, do cristianismo, do monoteísmo, e mais nos afastamos de Nietzsche. Ou pelo menos, da ideia e imagem que dele faço, por o ter lido desde a minha juventude. Não pretendo, certamente, que a minha ideia seja a única possível. Mas reivindico o direito, justamente, de possuir, sobre este assunto como sobre qualquer outro, a minha própria ideia. Existiram centenas de interpretações do pensamento de Nietzsche. Já nos anos trinta, as de Jaspers e de Löwith são célebres. Um pouco mais tarde no tempo tivemos na Alemanha as interpretações nacional-socialistas, ou acusadas de o serem, das quais a mais famosa – mas não a única, de resto – é a de Alfred Baeumler, mesmo se ela surgiu dois anos antes da chegada de Hitler ao poder (Nietzsche, der Philosoph und der Politiker”, Leipzig, 1931). Tivemos a interpretação de Heidegger (surgida em 1961, ainda que fosse referente a cursos universitários dados entre 1936 e 1940). Em França, mais recentemente, lemos as interpretações, ou as exegeses de Georges Bataille (Somme athéologique, in: Sur Nietzsche”, Paris, 1945) mas também de Deleuze, Derrida, Klossowski. Na Alemanha, há vinte anos, Ernst Nolte realizou um ensaio interessante (Nietzsche und der Nietzscheanismus”, Frankfurt, Berlin, 1990). Em Itália, não somente Vattimo (que nunca me convenceu) mas também outros críticos frequentemente mais profundos como Giorgio Penzo, Mario Perniola, Carlo Sini, Vincenzo Vitiello, Giorgio Colli, Sergio Givone. Ora, todas as teses merecem ser lidas, creio, com espírito crítico, sem rejeitar nenhuma de antemão, ou melhor dizendo, sem rejeitar nenhuma completamente. Que as leiam por preocupação de informação e com sentido crítico. E que cada um escolha as hipóteses ou as teorias melhores, ou as mais exactas, ou as mais coerentes. Se é verdade que não há provavelmente ninguém, seja de direita ou esquerda, que tenha o direito de “recuperar” Nietzsche, em troca é verdade que alguns sofistas têm ainda menos esse direito.

NA – Que autores são nietzschianos?
OM – O primeiro que me vem ao espírito é Georges Sorel, evidentemente. O jovem Sorel foi “alimentado” por Marx e por Nietzsche. Existia nele a mesma convicção quanto à decadência da sociedade burguesa. A mesma glorificação da guerra. O mesmo desprezo, podíamos dizer, pelos erros da democracia liberal. Mas há mais do que Sorel. Nietzsche, como Kierkegaard de resto, influenciou profundamente todo o pensamento (nomeadamente, mas não exclusivamente, claro, o pensamento sobre a religião) das décadas que se seguiram à sua morte na terra, ocorrida em 25 de Agosto de 1900. Os primeiros livros que Abel Bonnard publicou, e que eram obras de poesia (penso, por exemplo, em “Royautés” que surge em 1908 e que já ninguém conhece) oferecem, a meu ver, pontos de vista verdadeiramente nietzschianos… 1908 que, aliás, é também, se não me engano, o ano do surgimento de “Ecce Homo”. Na literatura contemporânea, digamos aquela que surgiu após a segunda guerra mundial, há periodicamente um “regresso a Nietzsche”. Mas na verdade, não vejo um autor autenticamente nietzschiano, mesmo se poderia citar alguns que o desejariam ser, hoje em 2009, ou fazerem-se passar por tal. Mas é a rã que se quer fazer maior que o boi…a posteridade decidirá, provavelmente. Nietzschiano, podemos dizê-lo, é o pensador, o artista, o escritor, que não se limita à constatação e, direi eu, ao diagnóstico da doença que não podemos “não transportar” para a nossa época, mas que propõe – através do seu pensamento ou da sua arte – uma possível (ainda que cada vez mais difícil) cura. Nietzsche, podemos postulá-lo, pensava que uma cura era ainda possível. Hoje que diria ele? Não colocaria as minhas mãos no fogo…É evidente que à inversão de valores sucedeu a desaparição dos valores.

NA – Poderia dar uma definição do “Superhomem”?
OM – O conceito de “Superhomem”, em Nietzsche, evolui – como sabe – com o tempo. Podemos dizer o mesmo dos seus três grandes conceitos principais (Vontade de Poder, Eterno Retorno e Superhomem). Retenho, sobretudo de Zaratustra, que o Superhomem é de certa maneira aquele que conhece a vida na apoteose da alegria como da desventura. A palavra alemã é Übermensch. Enquanto em inglês se diz “Superman” (é claro que o superman da banda desenhada americana é apenas uma caricatura e a antítese do Superhomem nietzschiano). Na língua italiana é “Superuomo”, enquanto Gianni vattimo prefere frequentemente traduzir Übermensch por “Oltreuomo”(“além do homem”, “além-homem”). De qualquer forma, a definição mais imediata do “Superhomem” nietzschiano aplica-se àquele em que se encontraria desenvolvida a vontade de acção, ou mais exactamente a vontade de agir e pensar, expressão da “Vontade de Poder”. Este “Superhomem” nietzschiano situa-se (segundo a fórmula tornada famosa) “para lá do bem e do mal” e, sobretudo, creio, ele defende a sua própria existência contra tudo o que se aparenta à mediocridade. Consequentemente, diria que o Superhomem é o aristocrata. É essa, pelo menos para o próprio Nietzsche, parece-me, a concepção fundamental. O Superhomem nietzschiano é o aristocrata: o aristocrata de espírito. O Superhomem nietzschiano vejo-o como um conceito que se colocaria “muito mais alto que todas as coisas humanas” (Nietzsche, Agosto de 1881, em Sils Maria). Além disso, e para concluir, permito-me indicar um livro de Giorgio Locchi, surgido em 1983 nas edições Akropolis, de Nápoles, e que possuo na versão italiana, cujo título é “Wagner, Nietzsche e il mito sovrumanista”. Um livro com o qual não partilho forçosamente todos os pontos de vista, mas pouco importa, porque é um livro que merece ser lido. Não podemos dizer o mesmo sobre todos esses que balbuciam sobre Nietzsche com, frequentemente, um intelectualismo dos mais entediantes ou ridículos, ou com uma má-fé tal que nos leva às lágrimas de tanto rir. Ora, Nietzsche não é responsável pelo que diz dele uma posteridade que não é capaz de pensá-lo sem escapar a pesadas proibições políticas. Acho todas as cegueiras ideológicas, qualquer que seja o assunto, deploráveis.

NA – A sua citação favorita de Nietzsche?
OM – Haveria tantas. Inclusive na sua correspondência, por exemplo nas cartas que escreve, nas suas últimas semanas, a Burckhardt ou a Cosima Wagner. Penso frequentemente numa passagem em que Nietzsche fala dos que são capazes de “viver a História da forma mais pessoal”.