As duas aparências de uma mesma vontade

by RNPD

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Até 1789, o ideal democrático permanece como puramente negativo: trata-se apenas de dizer não ao absolutismo. Após a Revolução, dois caminhos se abrem à democracia: um acentua o possível e consiste em organizar o real de uma forma que se considera melhor ou «mais justa»; o outro insiste sobre o que, de um ponto de vista «ideal», aparece (moralmente) como o mais desejável e consiste em maximizar os conceitos em função do futuro «radioso» em que o ideal acaba por se impor às realidades.

O primeiro caminho foi seguido pelas democracias liberais de tipo anglo-saxónico; o segundo pelas democracias igualitárias de tipo latino.

Giovanni Sartori insiste longamente sobre a oposição existente entre estes dois tipos de democracia:

– De um lado, as democracias «pragmáticas», resultantes de um processo de crescimento gradual, que se limitam à realização do possível e são, numa certa medida, o produto da experiência. Concebe-se a liberdade como um meio de atingir a igualdade.

– Por outro lado, as democracias «cerebrais» («intelectualistas», no sentido de Karl R. Popper). Repousando sobre abstracções puras e princípios a priori, desagua, quase sempre, no perfeccionismo utópico, quando não na «ditadura do proletariado». São produtos do espírito, e neles se concebe, à partida, a igualdade como meio de atingir, «um dia», uma (hipotética) liberdade.

Nos dois sistemas a aspiração fundamental é a mesma, mas as suas formas e resultados diferem. «No fim de contas», observa o professor Sartori, «esta diferença é a que existe entre estruturas mentais racionalistas e estruturas empírico-pragmáticas (…). Enquanto que o empirismo tende a ser antidogmático e a proceder por ensaios, o racionalismo tende a ser dogmático e definitivo».

Alain de Benoist, Nova Direita Nova Cultura,Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite, 1981, pp 237-238