Os duros não dançam

by RNPD

boxer

Dougy Madden, personagem criado por Norman Mailer, representa o arquétipo de um certo universo masculino perdido algures nas passagens de testemunho entre gerações…a sua filosofia de vida, expressa nalgumas frases simples que repete ao filho, é a de um tipo de homem que pode quebrar mas não cede.

«Uma vez quando estava numa luta, o meu adversário disse-me: “ok, desisto”. Parámos e apertámos as mãos. A minha mãe não ficou descontente porque (1) venci, uma vez que ela havia aprendido ao longo dos anos que isso faria o meu pai feliz e (2) agi como um cavalheiro. Apertei as mãos como devia de ser. O meu pai ficou intrigado. Eu era realmente dos subúrbios. Podíamos entrar numa luta e dizer “desisto” e o vencedor não celebraria batendo a nossa cabeça contra o pavimento. “Rapaz, onde eu cresci” (que foi na Rua 48 a oeste da décima avenida), disse-me ele, “nunca desistimos”. Mais vale dizer “morri!”»

É um homem de poucas palavras e de sentimentos contidos. Exposto à análise, ou melhor, à psicanálise, dos novos tempos que viriam, os do triunfo dos valores femininos, com a sua celebração da verbalização das emoções e da exteriorização, até pública, dos afectos, Dougy seria sempre um personagem disfuncional. Não é que isso, provavelmente, lhe importasse…Ele vem de um tempo que já não é deste mundo, onde os homens não pretendiam compreender as mulheres, receavam amolecer os filhos e os actos substituíam as palavras.

«A minha pobre mãe. Ela era tão carinhosa que me beijava a todo tempo. (Às escondidas). Ela nunca queria que ele pensasse que “os meus hábitos eram pouco másculos”. Nem uma vez Douglas, “repetia ela agora”, “dizes que me amas”. Ele não respondeu por um minuto, mas depois respondeu-lhe num irlandês de rua – era a sua declaração de amor – “Estou aqui, não estou?”»

É num regresso da memória ao passado que Tim Madden, o filho de Dougy, nos transporta para o dia da sua juventude em que, pela primeira vez, e depois de ter perdido um combate de boxe, o pai lhe contou aquela história que pretendia definir um estilo de homem.

«O meu erro foi que não dancei. Devia ter saído rápido a seguir à campainha para o atingir. Devia ter feito: “bate!bate! esquiva”, disse enquanto movia as mãos “e afastava-me. Depois voltava com o jab, dançava para fora de alcance, rondava e dançava, e batia e batia!” Congratulei-me com este grande plano de guerra. “Quando ele estivesse pronto, podia tê-lo derrubado.”

A cara do meu pai estava sem expressão.”Lembras-te de Frank Costello?” perguntou. “O maior dos gangsters”, respondi com admiração.”Uma noite Frank Costello estava num clube nocturno com a sua loira, uma boa rapariga, e à sua mesa tinha também Rocky Marciano, Tony Canzoneri e Two-Ton Tony Galento (NdT. campeões de boxe). A orquestra está a tocar e Frank diz a Galento: “Hei, Two-ton, quero que dances com a Gloria”. Galento fica nervoso. Quem é que quer dançar com a rapariga do “big man”? E se ela simpatiza connosco? “Mr. Costello, diz Two-ton Tony, “sabe que não sou grande dançarino”. Pousa a cerveja, responde Frank, “e vai para ali e mexe-te. Vais sair-te bem”. Então Two-ton Tony levanta-se e vai dançar com Gloria. Quando regressa Frank diz a mesma coisa a Canzoneri e ele tem de ir com Gloria. Depois é a vez de Rocky. Marciano acha que ganhou por mérito próprio o direito a tratar Costello pelo primeiro nome, e diz: “Mr. Frank, nós os pesos-pesados não somos grande coisa num salão de dança”. “Vai fazer algum trabalho de pés” responde Costello. Enquanto dança com Rocky, gloria aproveita para lhe sussurrar: “Campeão, faz-me um favor, vê se consegues que o tio Frank dê uns passos comigo”. Quando a música acaba Rocky trá-la de volta. Sente-se melhor e os outros também recuperaram o nervo. Começam a brincar com o “big man”, com muito cuidado, percebes, apenas uma brincadeira de bom gosto. “Hei, Mr.Costello”, dizem,” Mr. C., vá lá, por que não dá uma dança à sua senhora?” “Sim?” pergunta Gloria “por favor!”.”É a sua vez Mr.Frank”, dizem. Então, contou-me o meu pai, Costello abana a cabeça e diz:” Os duros não dançam”.»

É sintomático que Dougy esteja a morrer (de cancro) mas mantenha o seu estado de saúde para si: é um homem orgulhoso que despreza a piedade e a compaixão alheia, resolve sozinho os seus problemas…quando têm resolução. O sofrimento, naquele tipo de homem, é descoberto, não é revelado.

«Deve estar a fazer quimioterapia. Calculo que se tenha acostumado ao olhar das pessoas depois da aversão inicial, pois disse-me: “Sim, tenho-o”. “Onde é que está situado?” Fez um gesto a indicar que não estava nem aqui nem ali. “Obrigado por teres enviado um telegrama”, disse-lhe.”Miúdo, quando não há nada que ninguém possa fazer, guarda a tua história para ti”.»

É a transposição da situação de Dougy, da sua esfera pessoal e portanto interior, para o espaço exterior, o da relação com o filho, que conduz ao momento de maior intimidade entre os dois… e é também aí que percebemos que aquela frase que Dougy havia transmitido ao filho há tantos anos é para ele todo um código de vida, que transporta para o seu derradeiro combate, contra o maior dos adversários, a morte. Mas esse é um adversário que impõe as suas regras…

«”Já não estou seguro de saber o que isso significa”, disse-me. “Há seis meses disseram-me que tinha de deixar de beber ou estava morto. Por isso parei. Agora, quando vou dormir, os espíritos saem das madeiras e fazem um círculo em torno à minha cama. Depois fazem-me dançar a noite inteira”. Tossiu com todas as cavidades dos seus pulmões. Fora uma tentativa de rir. “Os duros não dançam”, respondo-lhes. “Hei, seu preconceituoso”, respondem os espíritos, “continua a dançar.”»

A doença de Dougy é também simbólica, a sua caminhada progressiva para a morte representa igualmente o fim daquele tipo de homem, ultrapassado pelos novos tempos e incompreendido pelas novas gerações que não só não partilham os seus códigos como não os entendem. É significativo a esse respeito o pensamento de Tim:

«Certamente o meu pai quisera transmitir algo mais do que devermos aguentar firme perante os problemas, algo mais que indubitavelmente não conseguia ou não podia expressar, mas ali estava, o seu código. Não podia ser menos que um juramento. Será que me escapou algum princípio elusivo sobre o qual a sua filosofia devesse cristalizar?”

No final, por que é que os duros não dançam? Não é um mero detalhe ou coincidência que essa ideia seja pela primeira vez apresentada no seguimento de um combate de boxe (e envolvendo uma história com pugilistas) e posteriormente seja retomada na descrição de um momento de tormento pessoal, porque o boxe está presente em toda a obra de Mailer e o seu sentido extravasa dos ringues para a vida de todos os dias.

Mailer, nos seus escritos sobre o combate nos ringues, coloca em confronto dois estilos de lutadores, diz-nos a professora Kasia Boddy, de um lado um estilo mais criativo, mais furtivo, mais elegante, dir-se-ia feminino (Kasia Boddy chamou-lhe também “estilo negro”), é o dos que dançam…por outro lado, em oposição, há um estilo mais sóbrio, mais frontal, mais grosseiro, portanto masculino (ou, para utilizar a terminologia de Boddy, o “estilo branco”, mesmo se o lutador é negro), e esse é o dos que não dançam, dos que “permanecem”.

Conta-nos Markku Lehtimäki (The Poetics of Norman Mailer’s Nonfiction, Tampere University, pg. 178) que na descrição que Mailer faz do histórico combate que opôs Muhammad Ali a George Foreman, há uma passagem a todos os títulos exemplificativa destes estilos que se opõem, no ringue como na vida: a dada altura Ali (que venceria o combate) vira-se para Foreman e diz:”sim, vamos dançar” “vamos dançar e dançar” enquanto Foreman olha-o em silêncio, como que dizendo que “os duros não dançam”. No oitavo assalto Foreman vai ao tapete, a contagem descrescente inicia-se e sabemos que, para ele, o combate está perdido, mas mesmo assim, num esforço formidável, levanta-se… já fora de tempo, é certo, mas levanta-se.

Diríamos a Tim Madden que, de facto, não se trata apenas de “resistir” na adversidade mas também da forma “como se resiste”. Os duros não dançam porque não se esquivam, avançam e aguentam os golpes, quando caem levantam-se, se podem perder não podem desistir e quando ganham devem fazê-lo da maneira certa, não mudam, na derrota ou na vitória permanecem sempre fiéis a um determinado código.