Eterno Feminino

by RNPD

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Não quer nada comigo, uma vez que aceita sem pesar ver-me sair da sua vida, mas deseja perder-me com as honras de guerra. Não convém que a mulher deixe de ver em si um herói. Receia ser despoetizado, pobre anjinho! Pois bem, fique sabendo que o verdadeiro herói é aquele que dá felicidade. E se alguma coisa me poderia causar repugnância não seria o «acto carnal» consigo, seria a sua cobardia em esquivar-se a ele. A sua miserável confissão fez, pela primeira vez, vacilar a admiração que lhe dedico. Sim, a sua ridícula amizade só me merece compaixão e desprezo, visto ser tão frouxa que não assimila a carne e lhe receia os fermentos. E é você o deus fecundador! Invejam-no e, no entanto, leva uma existência vergonhosa. Sim, não sabia? Oh, todos esses homens «superiores»! Esses impotentes! Esses parasitas! Mereciam que os homens vulgares, os rapazes valentes, de mãos calosas, lhes cortassem a cabeça – é outra coisa de que se não sabem servir para fazer felizes aquelas que precisam mais da felicidade do que da vida. Ah! Por que não me possuiu, ainda que fosse só para me humilhar? Podia curar-me de um amor que me mata e não o fez! Deve-se sofrer nobremente, hem? Deve-se ser sublime. O cavalheiro é forte no sacrifício – no sacrifício dos outros, evidentemente.«Seja como for, conserva-me a sua amizade, não é verdade?» Por outras palavras: «Poderia, com um simples gesto sem consequências para mim, dar-lhe a felicidade. Mas não quero. No entanto, desejo que permaneça na minha vida, mas apenas o necessário para me ser agradável, sem me aborrecer nem complicar a existência. Não gosto da sua cara, nem do seu corpo, nem da sua presença; pode dar essa parte grosseira de si mesma a quem quiser. Mas reserve-me sempre, peço-lhe, querida Menina, a sua parte etérea. Sem falar (por memória) do direito de a fazer sofrer.» Pois bem, estou farta do heroísmo. Você curou-me do heroísmo. Para sempre.

Sonhara que um homem me dominava, me arrebatava numa tempestade. Escolhera um conquistador, um príncipe radioso, um homem dez vezes mais másculo, mais inteligente, mais senhor de si, mais prestigioso do que os outros; o homem que fora capza de responder a certo jornalista católico que lhe censurava ter abusado do prazer: «Que mal há nisso? Fiz gozar a criação!» Queria dar-lhe o meu espírito, a minha juventude, o meu corpo virgem, a minha boca que nunca foi beijada. Seria feliz em lhe obedecer. Estava pronta a imolar-lhe fosse o que fosse, a minha vida, até mesmo a minha honra. Pois ofereci-lhe tudo isto e ele não o quis! Previra e aceitara tudo: durante, a perda da minha paz íntima, depois, o abandono súbito, a sua infidelidade, o seu esquecimento, o meu desespero e a minha reputação perdida. Previra tudo, excepto que a minha oferenda fosse repelida. Previra tudo para depois, só não previra que não haveria depois. Queria o seu abraço e encontrei apenas a sua «gentileza» e a sua piedade. Ou um velhote protector e paternal, ou um rapazola caprichoso e turbulento. Perfilhava a psicologia dos simples, talvez dos humildes, que julgam ser inevitável o desejo entre um homem e uma mulher jovens e normais, que se amam com prazer. Esquecera-me dos requintes da «alta burguesia» e do «escol intelectual». Sabe que mais? Tornou-me comunista.

Henri de Montherlant, Noivas de Ninguém, Publicações Europa-América, 1974, pp.126-128