Sobre o Fahrenheit 451 de Ray Bradbury

by RNPD

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«(…)Bradbury ainda tem muito para dizer, especialmente sobre a forma como as pessoas não entendem o seu trabalho mais literário, Fahrenheit 451, publicado em 1953. Muito ensinado nas escolas é também para muitos estudantes a primeira vez que conhecem os nomes de Aristóteles, Dickens e Tolstoi.

Agora Bradbury decidiu falar sobre a sua iconográfica obra e o seu real significado. Fahrenheit 451 não é, diz com firmeza, uma história sobre censura governamental. Nem era uma resposta ao Senador Joseph McCarthy, cujas investigações haviam instigado o medo e paralisado a criatividade de milhares.

Isto apesar do que foi escrito em sentido contrário, ao longo das décadas, em recensões, críticas e ensaios. Até o biógrafo autorizado de Bradbury, Sam Weller, em The Bradbury Chronicles, se refere a Fahrenheit 451 como um livro sobre a censura.

Bradbury, um homem a viver numa cidade que é o centro criativo e industrial dos “reality shows” e das “telenovelas”, diz que é, na realidade, uma história sobre a forma como a televisão destrói o interesse na literatura.

“A televisão dá-nos as datas sobre Napoleão, mas não nos diz quem ele era”, diz Bradbury, resumindo os conteúdos televisivos com uma única palavra que cospe como um epíteto: “factóides”. Diz isto sentado numa sala dominada por uma gigantesca televisão de ecrã plano que transmite a Fox News, sem som, com os factóides a passarem em rodapé.

O seu medo, em 1953, de que a televisão matasse os livros foi, diz-nos, parcialmente confirmado pelo efeito da televisão sobre a substância das notícias. A capa do L.A. Times do dia parece dar-lhe razão e fala sobre as receitas de fim-de-semana do terceiro filme da série do homem-aranha.

“Inútil”, diz Bradbury, “alimentam-nos com tanta informação inútil, que nos sentimos cheios”. Fica eriçado quando outros lhe dizem o que as suas histórias significam, e uma vez abandonou uma aula na Universidade da Califórnia onde os estudantes insistiram que o seu livro era sobre censura governamental. (…)

Desde 1951 que Bradbury pressagiava os seus receios, numa carta sobre os perigos da rádio, dirigida ao autor de fantasia e ficção-científica, Richard Matheson, escrevia:” A rádio contribuiu para a nossa crescente falta de concentração. Esta espécie de existência ao pé-coxinho torna quase impossível que as pessoas, incluindo eu, se voltem a sentar e a entrar num livro. Tornámo-nos um povo de leituras rápidas, ou, pior que isso, tornámo-nos leitores rápidos.”

Diz que o acusado em Fahrenheit 451 não é o Estado – é o povo. Ao contrário do 1984 de Orwell, no qual o governo usa os ecrãs de televisão para doutrinar os cidadãos, Bradbury anteviu a televisão como um ópio. No livro, as televisões ocupam paredes inteiras e os seus actores são chamados “família”, uma verdade evidente para qualquer um que tenha lido um fórum sobre séries televisivas onde os fãs se referem às personagens pelo primeiro nome, como se fossem familiares ou amigos.

A história do livro centra-se sobre Guy Montag, um bombeiro da Califórnia que começa a questionar a razão pela qual queima livros como forma de vida. Montag acaba por rejeitar a sua cultura autoritária e junta-se a uma comunidade de indivíduos que memorizam livros inteiros para que não caiam no esquecimento, até que a sociedade esteja, novamente, disposta a ler.

Bradbury imaginou uma sociedade democrática cuja população diversa se volta contra os livros: os brancos e os negros rejeitando os livros que lhes causam desconforto. Ele não anteviu apenas o politicamente correcto, mas uma sociedade com tanta diversidade que todos os grupos passariam a ser “minorias”. Escreveu que ao início condensariam as obras, extirpando mais e mais passagens ofensivas até que, por fim, tudo o que restaria seriam notas de rodapé, que dificilmente alguém lia. Apenas depois das pessoas terem deixado de ler é que o Estado empregaria os bombeiros para queimarem os livros. (…)»

Ray Bradbury: Fahrenheit 451 Misinterpreted