Dossier Irão (2) – A escolha do povo

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O resultado das eleições no Irão pode reflectir a vontade do povo iraniano. Muitos especialistas alegam que a margem da vitória do presidente incumbente Mahmoud Ahmadinejad é o resultado de fraude ou manipulação, mas a nossa sondagem à escala nacional entre os iranianos, realizada três semanas antes do voto, revelou que Ahmadinejad liderava por uma margem superior a 2 contra 1 – maior portanto do que a sua aparente margem de vitória nas eleições de sexta-feira.

Enquanto as notícias ocidentais de Teerão nos dias que antecederam as eleições retratavam um público iraniano entusiasmado com Mir Hossein Mousavi, o principal opositor de Ahmadinejad, a nossa amostra científica das 30 províncias do Irão revelava que Ahmadinejad estava bastante à frente.

Sondagens do Irão à escala nacional , independentes e sem censura, são raras. Tipicamente as sondagens pré-eleitorais são ali ou monitorizadas ou conduzidas pelo governo e manifestamente pouco confiáveis. Em contraste, a sondagem conduzida pelas nossas organizações sem fins lucrativos, de 11 a 20 de Maio, foi a terceira de uma série durante os últimos dois anos. Conduzida por telefone a partir de um país vizinho, o trabalho de campo foi realizado em farsi por uma empresa de sondagens cujo trabalho na região para a ABC News e a BBC recebeu um prémio Emmy. A nossa sondagem foi financiada pelo Rockefeller Brothers Fund.

A extensão do apoio a Ahmadinejad foi aparente no nosso inquérito pré-eleitoral. Durante a campanha, por exemplo, Mousavi enfatizou a sua identidade azeri, o segundo maior grupo étnico no Irão a seguir aos persas, para atrair os votantes azeri. Contudo, a nossa sondagem indicou que os azeri favoreciam Ahmadinejad contra Mousavi numa proporção de 2 para 1.

Muitos comentários retrataram a juventude iraniana e a internet como sinais da mudança que estava para vir nestas eleições. Mas o nosso inquérito revelou que apenas 1/3 dos iranianos têm sequer acesso à internet, enquanto a faixa etária dos 18 aos 24 anos representava de todas a que maior apoio dava a Ahmadinejad.

Os únicos grupos demográficos onde na nossa sondagem Mousavi liderava ou era competitivo com Ahmadinejad eram estudantes universitários e licenciados juntamente com os iranianos de rendimento mais elevado. Quando a nossa sondagem teve lugar, quase 1/3 dos iranianos estavam também ainda indecisos. Contudo a distribuição de resultados que encontrámos na altura espelha os resultados reportados pelas autoridades iranianas, indicando a possibilidade de que o voto não foi o produto de uma fraude.

Alguns podem argumentar que o apoio professado a Ahmadinejad que encontrámos reflectia simplesmente a relutância receosa dos inquiridos em dar respostas honestas aos investigadores. No entanto, a integridade dos nossos resultados é confirmada pelas respostas politicamente perigosas que os iranianos estiveram dispostos a dar a uma série de perguntas. Por exemplo, quase 4 em cada 5 iranianos – incluindo a maior parte dos apoiantes de Ahmadinejad – disseram que queriam mudanças no sistema político para lhes dar o direito de elegerem o Líder Supremo do Irão, que não é actualmente sujeito a voto popular. Similarmente, os iranianos escolheram eleições livres e uma imprensa livre como as maiores prioridades para o seu governo, virtualmente empatadas com a melhoria da economia nacional. Estas foram respostas que dificilmente podemos considerar “politicamente correctas” para serem proferidas publicamente numa sociedade largamente autoritária.

De facto, e consistentemente em todas as nossas três sondagens durante os últimos dois anos, mais de 70% dos iranianos também expressaram o seu apoio a que fosse concedida plena liberdade aos inspectores de armas no país e uma garantia de que o Irão não desenvolveria ou possuiria armas nucleares, em troca de ajuda e investimento externo. E 77% dos iranianos favoreciam a normalização das relações e comércio com os EUA, outro resultado consistente com as nossas conclusões anteriores.

Os iranianos vêem o seu apoio a um sistema mais democrático e relações normais com os EUA como sendo consonante com o seu apoio a Ahmadinejad. Não querem que ele continue as suas políticas de linha dura. Na realidade, os iranianos aparentemente vêem Ahmadinejad como o seu negociador mais capaz, a pessoa melhor posicionada para conseguir uma decisão favorável – como um Nixon persa que se desloca à China.

Alegações de fraude e manipulação eleitoral servirão para isolar ainda mais o Irão e são passíveis de aumentar a sua beligerância e intransigência contra o mundo exterior. Antes de os outros países, incluindo os EUA, se precipitarem na conclusão de que as eleições presidenciais iranianas foram fraudulentas, com as graves consequências que essas acusações poderiam trazer, deveriam levar em consideração toda a informação independente. O facto pode simplesmente ser que a reeleição do presidente Ahmadinejad é o que o povo iraniano queria.

Ken Ballen and Patrick Doherty, The Washington Post,15 de Junho de 2009