A subversão inicial ou o bolchevismo da Antiguidade

by RNPD

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A doutrina cristã implicava uma revolução social. Afirmava na realidade, pela primeira vez, não que a alma existe, mas que todos possuíam uma idêntica ao nascerem. Os homens da cultura antiga, que apenas nasciam numa religião porque nasciam numa pátria, tinham antes tendência a pensar que ao adoptarem um comportamento pautado pelo rigor e pela disciplina de si, poderiam chegar a forjar uma alma, mas que uma tal sorte estava evidentemente reservada aos melhores. A ideia de que todos os homens podiam indiferentemente com ela ser gratificados, pelo único facto de existirem, era-lhes chocante. O cristianismo mantinha, ao contrário, que cada um nascia com uma alma, o que resultava em dizer que os homens nasciam iguais perante Deus.

Por outro lado, na sua recusa do mundo, o cristianismo apresentava-se como herdeiro de uma velha tradição bíblica de ódio aos possantes, de exaltação sistemática dos “humildes e dos pobres”, cujo triunfo e vingança sobre as “civilizações iníquas e orgulhosas” havia sido anunciado pelos seus profetas e salmistas. (…)

“Aí têm o ideal social do profetismo judaico, escreve Gérard Walter: uma espécie de nivelamento generalizado que fará desaparecer todas as distinções de classe e que conduzirá à criação de uma sociedade uniforme, de onde serão banidos todos os privilégios, quaisquer que sejam. Esse sentimento igualitário, levado ao limite, vai junto com o da animosidade irredutível em relação aos ricos e aos possantes, que não serão admitidos no reino futuro.”

A partir daí compreendemos melhor que o cristianismo tenha inicialmente parecido aos antigos uma espécie de religião de escravos, veiculando uma espécie de “contra-cultura”, não colhendo êxito senão junto dos insatisfeitos, dos desclassificados, dos invejosos, dos revolucionários “avant la lettre”: escravos, artesãos, apisoadores, cardadores, sapateiros, mulheres sozinhas, etc. Celso descreve as primeiras comunidades cristãs como “uma mescla de gentes ignorantes e mulheres crédulas recrutados entre os dejectos do povo”.

Nenhuma ideia é então mais odiosa para os cristãos do que a ideia de pátria: como poderíamos servir ao mesmo tempo a terra dos pais e o Pai dos céus? Não é da nascença, nem da pertença à Cidade, nem da antiguidade da linhagem, que depende a salvação, mas unicamente da conformidade aos dogmas. A partir daí não há outra distinção do que aquela entre os crentes e os não crentes, as outras fronteiras devem desaparecer. Hermas, que goza em Roma de grande autoridade, condena por todo o lado os convertidos ao exílio: “Vós, os servidores de Deus, habitais sobre uma terra estrangeira. A vossa Cidade é longe desta Cidade.”

Estas disposições de espírito explicam a reacção romana. Celso, patriota preocupado com a salvação do Estado, que pressente o enfraquecimento do Imperium e o rebaixamento do sentimento cívico que poderia resultar do triunfo do igualitarismo cristão, começa a sua obra “Discurso verdadeiro contra os cristãos”, com estas palavras: “Há uma nova raça de homens nascidos ontem, sem pátria nem antigas tradições, ligados contra todas as instituições religiosas e civis, perseguidos pela justiça, marcados pela infâmia e que se glorificam na execração pública, são os cristãos. São facciosos que pretendem manter-se à parte e separar-se da sociedade comum.”

O princípio imperial é, naquela época, o instrumento de uma concepção que se realiza na forma de um vasto projecto. Graças a ele, a pax romana reina num mundo ordenado (…) Mas, para os cristãos, o Estado pagão é obra de Satanás. O império, símbolo supremo de uma força orgulhosa, é apenas uma arrogante derisão. Toda a harmoniosa sociedade romana é declarada culpada, a sua resistência às exigências monoteístas, as suas tradições, o seu modo de vida, são uma ofensa às leis do socialismo celestial. Culpada, ela deve ser punida, isto é, destruída.

Alain de Benoist, in “Les idées à l’endroit”, 1979