Month: Agosto, 2009

RRRRRRRRORSCHACH!!!!!!!!

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Diário de Rorschach, 12 de Outubro de 1985…

Um cão morto na rua, esta manhã. Marcas de pneu no seu estômago destroçado. Esta cidade tem medo de mim. Eu vi a sua verdadeira face. As ruas são sarjetas e as sarjetas estão cheias de sangue, e quando finalmente transbordarem afogarão todos os vermes. O lixo acumulado de todo o seu sexo e crime subir-lhes-á à cintura e todas as putas e políticos vão olhar para acima e gritar: “salvem-nos!”… e eu vou olhar para baixo e dizer: “não”.Eles tiveram escolha, todos eles. Podiam ter seguido os passos de homens bons, como o meu pai ou o presidente Truman. Homens decentes que acreditavam num dia de trabalho por um dia de ordenado. Em vez disso seguiram os excrementos de libertinos e comunistas e não perceberam que o rasto levava a um precipício até ser tarde de mais. Não me digam que eles não tiveram escolha. Agora o mundo inteiro está à beira do abismo a contemplar o inferno…todos aqueles esquerdistas e intelectuais e bem-falantes…e de repente ninguém consegue pensar em nada para dizer.

Alan Moore, Dave Gibbons e John Higgins, “Watchmen”, volume 1, pg1

O regresso de Tobin

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A dimensão da crise retirou a taxa Tobin da sombra. De facto, Adair Turner (presidente da FSA, autoridade reguladora dos serviços financeiros do Reino Unido) parece considerar a ideia de ir mais longe do que um mero imposto sobre os negócios cambiais. “Se queremos parar as remunerações excessivas num sector financeiro inchado temos de reduzir o tamanho desse sector ou aplicar impostos especiais ao seu lucro antes de remuneração”, escreve.

A primeira linha de ataque para as autoridades será o aumento das exigências de capital das instituições financeiras, para impedir que especulem tão selvaticamente durante os “booms”.

Mas Turner acrescenta: “Se exigências de capital mais elevadas são insuficientes estou aberto a considerar impostos sobre as transacções financeiras – taxas Tobin. Esses impostos são desde há muito o sonho dos economistas do desenvolvimento e daqueles que se preocupam com as mudanças climáticas – uma boa fonte de rendimento para financiar bens públicos globais”

Embora sem tentar minimizar as dificuldades envolvidas na tentativa de conseguir apoio universal para uma taxa Tobin, Turner é um dos primeiros decisores políticos a sugerir que o esforço pode valer a pena.

“ O problema é que conseguir o acordo global será muito difícil. Mas ao menos as propostas para taxas especiais sobre os sectores financeiros, com exigências de capital mais elevadas, oferecem uma resposta aos lucros excessivos e por isso podem fazer alguma coisa quanto a isso. Pelo contrário, insistir que “alguém faça algo” quanto aos bónus é uma diversão populista.”

Tobin acreditava que algumas das objecções práticas à sua taxa eram exageradas. Ele argumentava que o risco das deslocalizações de negócio podia ser evitado impondo uma taxa penalizadora às transferências para paraísos fiscais ou cobrando a taxa Tobin onde a transacção ocorresse.

Turner afirma que a mera dimensão da crise significa que nada deve ser desconsiderado. “O que aconteceu resultou em enorme dano económico por todo o mundo e por isso temos mesmo de trabalhar para impedir que volte a acontecer em 5 ou 10 anos”, afirmou na entrevista de hoje. “E isso implica uma grande reconstrução do sistema financeiro global”.

The time is ripe for a Tobin tax

Uma religião vertical

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«A Mitologia nórdica exige mais ao homem do que o cristianismo, porque não oferece nenhum céu, nenhuma recompensa, excepto a sombria satisfação de haver agido correctamente (o Valhala pagão não é mais que uma sala de espera e um campo de preparação para a derrota final). Sob essa visão do mundo não é necessária qualquer recompensa ou ter a vitória assegurada no Ragnarok (NdT: a grande batalha trágica que encerrará um ciclo da vida) para cumprir com o Dever.

É por isso que o caminho para recuperar o Sagrado passa por:

1- Uma concepção aristocrática do homem
2- Uma ética fundada sobre a Honra (a “vergonha” em vez do “pecado”)
3- Uma atitude heróica perante os inconvenientes da existência
4- A exaltação e sacralização do mundo
5- A Beleza, o Corpo, a Saúde
6- A recusa dos “paraísos” e dos “infernos”
7- A ligação entre a estética e a moral»

Carlos Martínez-Cava

Não tem importância, continuamos!

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«(…) Apenas um homem deste tipo, face a uma realidade que recusa tenazmente adaptar-se às suas esperanças, face a um misterioso mecanismo que faz com que cada acção provoque no mundo consequências que aquele que agiu não desejava e não previa, poderá exclamar: “Não tem importância, nós continuamos!”.(…) Sorel está perfeitamente consciente que aquelas “imagens-motrizes”, aqueles mitos, poderão, no futuro, ser considerados como ilusão. Mas apesar disso, ele apropria-se da divisa “não tem importância, nós continuamos!” e diz:” não tem importância, mesmo se não passarem de ilusões, devemos trabalhar!”

“Devemos trabalhar politicamente”: a sua obra “Reflexões sobre a Violência” contribuiu seguramente e de maneira concreta para dar uma nova forma e um novo vigor às esperanças revolucionárias do proletariado. Ao receber a herança de Bakunine e Proudhon e sobretudo ao aderir com convicção às teses da filosofia bergsoniana, Sorel afasta-se do racionalismo de Marx e constrói uma teoria do Mito que é ao mesmo tempo uma filosofia da vida concreta. Para ele, o que a vida exprime de mais valioso e de mais nobre não provém da fria ditadura da razão mas antes revela-se nas situações de excepção, quando os homens, possuídos pelas grandes imagens míticas, participam numa luta. Apenas os povos ou os grupos sociais dispostos a abraçar vigorosamente a fé pela via de um Mito podem desempenhar uma missão histórica.

É na abertura ao Mito que se encontra o segredo da acção, dos heroísmos e do entusiasmo. Os exemplos da grandiosa eficácia do Mito são, para Sorel, a ideia de honra e de gloriosa reputação para o povo grego, a expectativa do julgamento final para o cristianismo primitivo, a fé na “virtude” e na liberdade revolucionária durante a revolução francesa ou o entusiasmo nacionalista na luta dos alemães pela independência em 1813. Pelo que Sorel pode observar da sua época, a abertura ao Mito não está certamente presente numa burguesia obcecada pelo dinheiro e pela propriedade, obreira de uma sociedade dominada pelo cepticismo e o relativismo, que coloca uma confiança cega nas infinitas discussões do parlamentarismo.

Não é a classe discutidora (parlamentar), como a havia designado Donoso Cortés, que pode ser portadora de um mito: apenas as massas do proletariado industrial revelam um poder de mobilização em torno de um mito político. O mito não pode ser teorizado no papel pelos intelectuais ou pelos homens de letras, ele é imanente à vida concreta, à fé instintiva das massas que abraçam a causa do socialismo: é o mito da greve geral. Depois de Sorel, o que a greve geral significa realmente e objectivamente numa dada situação política deixa de interessar: o que conta é a fé que o proletariado lhe atribui, e os efeitos, provocados por uma tal fé, na dinâmica da luta política.»

Excerto de “Le mécanisme de l’illusion : Sorel, Jünger et le mythe” de Nicolò Zanon em Trasgressioni n°2, 1986

Esta era não é para homens

«E as mulheres, uma das suas especialidades? Vão sobreviver aos homens?

– É evidente que as mulheres estão no centro da instrumentalização liberal. Teorizo isso enquanto pensador, mas os liberais constatam-nos enquanto comerciantes: as mulheres são o melhor agente do liberalismo, menos polarizadas pela solidariedade de classe, mais “psicologisantes”…sentem-se mais à vontade neste mundo da mercantilização integral, do desejo, das pulsões…o sistema que lhes garantiu a paridade compreendeu-o muito bem…o meu livro “Vers la féminisation” (rumo à efeminização) é uma das chaves de compreensão do nosso mundo. O mundo liberal assegura a sua sobrevivência, apesar das suas contradições suicidárias, liquidando o homem no sentido clássico e grego do termo, o homem consciente, apoiando-se no adolescente, na jovem mulher, que é sem dúvida a figura mais conseguida da decrepitude liberal. É a jovem mulher burguesa de esquerda que reina hoje nos Media, da manequim à entrevistadora política. Que ironia! É a ela, que pelo seu ser é a mais inapta a compreender o mundo, que entregamos a tarefa da análise e do comentário jornalístico. Esta estratégia perversa, fomentada por homens, é também o cume da misoginia sobre o qual todas as feministas se perdem.»

Alain Soral em entrevista ao “Le Choc du Mois” de junho de 2009

This is Engl…the same old shit!

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(Recensão ao filme “This is England” de Shane Meadows)

Shaun é um miúdo pobre de 12 anos que perdeu o pai na guerra das Malvinas. A viver com a mãe e sem amigos, numa Inglaterra de Tatcher onde as sub-culturas urbanas alastravam a grande velocidade, Shaun acaba por ser acolhido por um grupo de skinheads (e em particular Woody,o líder) que o fazem, pela primeira vez, sentir-se parte de algo.

Sem nunca o declarar explicitamente, o filme pretende ao mesmo tempo fazer uma espécie de retrospectiva histórica da evolução do movimento skinhead. Quando Shaun primeiramente encontra aquele grupo, os rapazes são apolíticos e estão completamente desligados do tipo de ideias que mais tarde viriam a ficar associadas aos skinheads no imaginário popular. São um mero produto das classes trabalhadoras e pouco educadas de uma Inglaterra marcada pelas desigualdades sociais.

É com a chegada de Combo que começa a sucessão de clichés e a manipulação fácil do espectador. Combo é um antigo companheiro de Woody que regressa da prisão (sim, adivinharam, para variar o “skinhead fascista” é um criminoso) com um discurso revoltado, patriótico e por vezes racista que vai politizar e dividir o grupo.

Ao contrário de outros, Shaun não rejeita o discurso de Combo, pois são aquelas ideias que lhe parecem resgatar e elevar a memória do pai, caído em combate “pela pátria”. Á medida que Shaun entra no mundo de Combo (que acaba por ser para ele a figura paternal que estava ausente) assistimos à sua transformação e, no auge dessa relação, simbolicamente, é a cruz de São Jorge, a Bandeira Inglesa, que se ergue no seu quarto.

Combo, o “skinhead racista”, é a chave de todo o filme e um lugar-comum ambulante. Ao assistir ao filme ocorreu-me que deve haver alguma espécie de guião pré-formatado de produção em série para estes personagens…

O modo como o cinema se serve destes filmes e destes personagens para fazer propaganda política é tão ostensivo que seria insultuoso para uma população menos ignara e mais imune à publicidade.

A fórmula é sempre a mesma: coloca-se o personagem a dizer meia dúzia de frases que são comummente usadas pelo discurso das organizações nacionalistas e que, por serem verdade e de apreensão intuitiva, fazem todo o sentido para as pessoas. Misturam-se depois, no discurso do personagem, essas frases com outras obviamente desacertadas e por fim vai-se revelando o mau carácter do personagem, mergulhado num mal-estar interior, movido pela revolta contra sabe-se lá o quê, sem ideais verdadeiros, traiçoeiro, propenso à violência injustificada e ao álcool e incapaz de agir de acordo com o que apregoa.

O objectivo desta fórmula, que é sempre a mesma neste tipo de filmes, é inculcar uma determinada imagem no cérebro dos espectadores que crie uma reacção condicionada automática a determinado discurso.

O propósito é que as pessoas, quando confrontadas no seu quotidiano com ideias de preferência nacional e salvaguarda da identidade racial, se intimamente as considerarem certas e justas as associem à imagem daqueles personagens retratados naqueles filmes que, por detrás de algumas dessas ideias, escondiam os mais aberrantes comportamentos, gerando no imaginário colectivo uma relação entre uma coisa e outra.

Bom, regressemos…a partir das primeiras cenas de Combo no filme pressente-se que ele é uma bomba-relógio à espera de explodir. É essa explosão anunciada, que redunda num homicídio (ena, que surpresa, não estávamos nada à espera disto: o “skinhead racista” mata um homem) que vai chocar e resgatar o pequeno Shaun.

No “final feliz” Shaun pega na bandeira inglesa que estava no seu quarto, que aliás lhe havia sido dada por Combo, a mesma bandeira em nome da qual o seu pai havia lutado e morrido, desloca-se à costa e… joga-a ao mar. Shaun atinge assim a redenção pela dessacralização da pátria e sentimos que, por fim, a sua alma pode ser salva!

In memoriam – Hugo Pratt

balada

«Pandora: Bom dia, Corto Maltese!
Corto: Ena! Estás muito bonita! Fazes-me lembrar um tango de Arola que eu ouvia no cabaré ‘Parda Flora’, em Buenos Aires.
Pandora: Talvez houvesse por lá alguém parecido comigo?
Corto: Não. É precisamente por não te pareceres com ninguém que gostaria de te encontrar sempre… em toda a parte…»

Hugo Pratt, A Balada do Mar Salgado

yupieeeeeeeee

empregos que detestamos copy

Combate os enfermos!

resiste copy

«A raiz da nossa doença é a noção de que os países não pertencem ao povo que os habitou durante gerações, mas a quem quer que esteja dentro das suas fronteiras – independentemente da cultura, atitude ou intenções. Uma outra falácia maliciosa é o ditame de que não devemos sentir uma especial ligação com um dado país, nação, raça ou cultura mas antes transferir a nossa preferência para o mundo inteiro, a “humanidade”, por igual. Os americanos e europeus que amam as suas terras mais do que as outras, que colocam as suas famílias e as suas vizinhanças antes de todas as outras, são pessoas normais. Aqueles que lhes dizem que as suas afeições devem ser globais e que as suas terras e vizinhanças pertencem aos homens de todo o mundo são doentes e perversos.»

Srdja Trifkovic

O tempo das vítimas

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Vários são os caminhos de fuga que surgem para este coitado homem que faliu as suas próprias idéias. Dois, no entanto, são os ora escolhidos: o infantilismo e a vitimização.

O infantilismo, como o próprio nome denomina, é o regresso do homem aos recônditos infantis da sua alma, especialmente a busca incessante pelo prazer imediato.

Vivemos, sem dúvida, numa época que não aceita a dor como elemento normal do ser humano. Pelo contrário, “dor” passa a ser algum tipo de indecência a ser suprida, imediatamente, com alguma dose maciça de lazer, entretenimento.

Sexo, drogas, presentismo, falta de preocupação para com o futuro, seja lá como for, a frustração passa a ser obscena e, em ponto inverso, a satisfação imediata das vontades transforma-se em regra.

Tal anseio de prazer pleno e atemporal, quando unido ao tipo de publicidade que temos hoje e, também, ao acesso a várias formas de crédito até então desconhecidas, acaba por gerar um verdadeiro curto-circuito temporal, fazendo desaparecer o intervalo que tradicionalmente existia entre desejo e satisfação (Pascal Bruckner).

É, sem dúvida, a quebra do interdito, a pulsão em seu estado bruto, brutalizando, também, a própria existência. Não sofra, drogue-se. Não perca tempo, viaje com o crédito que lhe é oferecido, eis que “Veneza afunda um centímetro por ano e a vida é agora”. Enfim, satisfaça os seus anseios sem se preocupar com nada além dessa própria satisfação.

Essa necessidade de satisfação imediata traz consigo um sentimento de “urgência” que passa a permear a própria forma pela qual o Indivíduo interpreta o mundo. Se, voltando novamente à Boaventura dos Santos, os olhos do observador é que criam a realidade, tem-se que os olhos de um ser que deseja esticar a linha temporal ao máximo não suportam encontrar, em sua leitura do mundo, aspectos de lentidão, principalmente se o vagar surge de uma promessa natimorta, qual seja o controle da resposta e seus efeitos.

Desta maneira, o ser moderno busca, às custas de eliminar a reflexão, uma resposta imediata para qualquer espécie de problema que passe a enfrentar.

A vitimização, por sua vez, é o retrato de uma sociedade cristã que, quando contestada, o foi pela doutrina marxista, ou seja, teoria de igual pregação.

Explica-se: tanto as doutrinas cristãs quanto as doutrinas marxistas colocam a vítima como centro do sistema, entendendo o sofrimento como algo bom e valoroso, a ser recompensado em alguma instância, em algum dia. Nesta senda, Pascal Bruckner atesta que “o Cristianismo colocou o pária, o fraco, a vítima, no centro da sociedade. As grandes ideologias que o quiseram suplantar não puseram este princípio em causa. O Marxismo, em particular, a única coisa que fez foi secularizar a mensagem principal do Cristianismo: os últimos serão os primeiros”.

O discurso da vitimização é, no mínimo, pernicioso, pois passa a difundir a idéia de que a existência de um Direito somente se comprova através da agressão ao mesmo. Como consequência, as próprias elites de um Estado, para se sentirem acobertadas pelo Direito, primeiro apontam para onde houve a quebra do mesmo. Em outras palavras, até a elite se declara “vítima”.

Tal atitude, por sua vez, inicia uma perigosa corrente. Vejamos bem: a elite, ao se proclamar vítima, inicia, com tal atitude, uma cadeia indissolúvel de desresponsabilização, e, novamente com Bruckner, quando a linguagem vitimária é utilizada pelas elites de um país, a própria noção de responsabilidade é posta em causa. Pertencer a uma elite implica, com efeito, que devemos assumir as consequências dos nossos actos. É a primeira coisa que se espera de um dirigente. A partir do momento em que as elites negam sistematicamente as suas responsabilidades, rompem o pacto democrático e dão início a uma longa cadeia de desresponsabilização.

Vivemos, pois, numa sociedade de pobres vítimas que buscam prazeres infantis e imediatos para solucionar as suas crises sem, por óbvio, assumirem o preço dos confortos que o Modernidade lhes trouxe.

Esta era a metapromessa da “ordem e progresso”?

Daniel Gerber, Direito penal do inimigo: Jackobs, Nazismo e a velha estória de sempre, pp 8-10