A tirania do relógio

by RNPD

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Nenhuma outra característica distingue tanto a actual sociedade ocidental das sociedades anteriores, da Europa ou do Leste, como a sua concepção do tempo. (…)

O homem ocidental moderno vive num mundo que corre de acordo com os símbolos mecânicos e matemáticos do tempo do relógio. O relógio dita os seus movimentos e inibe as suas acções. O relógio transforma o tempo, de um processo da natureza, numa mercadoria que pode ser medida, comprada e vendida como o sabão ou as sultanas. E porque, sem um qualquer meio exacto de controlar o tempo, o capitalismo industrial nunca se poderia ter desenvolvido e continuado a explorar os trabalhadores, o relógio representa um elemento de tirania mecânica na vida do homem moderno mais potente do que qualquer explorador individual ou qualquer outra máquina.(…)

Desta dependência escravizante do tempo mecânico que se espalhou insidiosamente para todas as classes no século XIX cresceu a desmoralizante regimentação da vida que caracteriza hoje o trabalho nas empresas. O homem que não se conforma enfrenta a desaprovação social e a ruína económica. (…) Refeições apressadas, de manhã e à noite a usual correria para os comboios e autocarros, a pressão de ter de trabalhar em função de prazos horários, tudo contribui para desordens digestivas e nervosas, para arruinar a saúde e encurtar a vida.

Nem a imposição financeira de regularidade tende, no longo prazo, para uma maior eficiência. Na verdade, a qualidade do produto é geralmente muito mais pobre, porque o patrão, olhando o tempo como uma mercadoria que tem de pagar, obriga o trabalhador a manter uma tal velocidade que o seu trabalho tem necessariamente de ser descuidado. O critério passa a ser a quantidade em vez da qualidade, deixa de se retirar prazer do trabalho e o trabalhador, por sua vez, passa a ser um “observador do relógio”, preocupado apenas com a altura em que poderá fugir para o escasso e monótono período de lazer da sociedade industrial, em que “mata o tempo” atulhando-se mecanicamente na quantidade de cinema, rádio e jornais que o seu salário e o seu cansaço permitem acumular. Somente se estiver disposto a aceitar os riscos de viver pela sua fé ou pelas suas ideias pode o homem sem dinheiro evitar viver como um escravo do relógio.

O problema do relógio é, em geral, similar ao da máquina. O tempo mecânico é valioso como um meio de coordenação de actividades numa sociedade altamente desenvolvida, como a máquina é valiosa como um meio de redução do trabalho desnecessário ao mínimo. Ambos são valiosos pela contribuição que dão ao funcionamento harmonioso da sociedade, e deveriam ser utilizados na medida em que assistissem o homem a cooperar eficientemente e a eliminar o trabalho monótono e a confusão social. Mas nenhum deveria dominar a vida dos homens como sucede hoje em dia.

Agora o movimento do relógio define o tempo da vida dos homens – estes tornaram-se os servos do conceito de tempo que eles próprios criaram, e são mantidos no medo, como Frankenstein pelo seu próprio monstro. Numa sociedade sã e livre uma dominação tão arbitrária das funções do homem quer pelo relógio quer pela máquina estaria obviamente fora de questão. A dominação do homem pela criação do homem é ainda mais ridícula do que a dominação do homem pelo homem. O tempo mecânico seria relegado para a sua verdadeira função de meio de referência e coordenação e o homem regressaria novamente a uma visão equilibrada da vida, já não dominada pela veneração do relógio. A liberdade completa implica a liberdade da tirania das abstracções tanto com da dos homens.

George Woodcock in War Commentary – For Anarchism, Março de 1944