Da religiosidade nipónica

by RNPD

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«No seguimento da sua derrota, as acusações de crimes atingiram a nação nipónica como a Alemanha. Enumeravam as atrocidades perpetradas, nomeadamente contra a China (doze milhões de mortos segundo a acusação). Depois de 1945, vários generais e dirigentes japoneses de alto nível foram julgados pelos americanos nos processos de Tóquio, equivalentes para o Japão ao processo de Nuremberga. Os principais acusados foram enforcados. Contudo, hoje, o santuário shintoista de Yasukini, perto de Tóquio, honra a memória dos 2,5 milhões de combatentes japoneses tombados entre 1931 e 1945. Entre eles, os catorze criminosos de guerra enforcados no seguimento dos processos de Tóquio, incluido o quase ditador de então, general Tojo. Desde a sua chegada ao poder, em Abril de 2001, que o primeiro-ministro Junichiro Koizumi, respeitando uma promessa eleitoral, foi todos os anos em Agosto (data da capitulação japonesa de 1945) ao santuário de Yasukini inclinar-se em kimono tradicional. O mesmo é dizer que o Japão pacifico de hoje não cultiva uma culpabilidade comparável à dos europeus e se encontra bem. Entendamo-nos. Não é questão de negar a realidade, o horror e a amplitude de crimes de massa de que os vencidos, aliás, não detêm o monopólio (pense-se em Hiroshima, Nagasaki, nos bombardeamentos aterradores sobre as cidades alemãs). Mas, a menos que se queira destruir uma nação, não podemos fundar a nossa memória colectiva sobre uma culpabilidade eternamente renovada. No Japão os livros escolares nos quais as crianças formam o seu espírito não evocam os acontecimentos da guerra segundo a interpretação dos vencedores mas segundo aquela da continuidade nacional. Porquê esta diferença com a Europa? Existem muitas razões, sem dúvida. Uma delas liga-se com o carácter da religião nacional, o shintoismo. Ao contrário do cristianismo, que tanto marcou a consciência dos europeus, mesmo quando desligados desta religião, o shintoismo ignora a ideia da culpa, do pecado e do arrependimento. Ele mantém os japoneses ao abrigo dos tormentos de uma consciência moral culpada e torturada.»

Dominique Venner in Le siècle de 1914