O tempo das vítimas

by RNPD

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Vários são os caminhos de fuga que surgem para este coitado homem que faliu as suas próprias idéias. Dois, no entanto, são os ora escolhidos: o infantilismo e a vitimização.

O infantilismo, como o próprio nome denomina, é o regresso do homem aos recônditos infantis da sua alma, especialmente a busca incessante pelo prazer imediato.

Vivemos, sem dúvida, numa época que não aceita a dor como elemento normal do ser humano. Pelo contrário, “dor” passa a ser algum tipo de indecência a ser suprida, imediatamente, com alguma dose maciça de lazer, entretenimento.

Sexo, drogas, presentismo, falta de preocupação para com o futuro, seja lá como for, a frustração passa a ser obscena e, em ponto inverso, a satisfação imediata das vontades transforma-se em regra.

Tal anseio de prazer pleno e atemporal, quando unido ao tipo de publicidade que temos hoje e, também, ao acesso a várias formas de crédito até então desconhecidas, acaba por gerar um verdadeiro curto-circuito temporal, fazendo desaparecer o intervalo que tradicionalmente existia entre desejo e satisfação (Pascal Bruckner).

É, sem dúvida, a quebra do interdito, a pulsão em seu estado bruto, brutalizando, também, a própria existência. Não sofra, drogue-se. Não perca tempo, viaje com o crédito que lhe é oferecido, eis que “Veneza afunda um centímetro por ano e a vida é agora”. Enfim, satisfaça os seus anseios sem se preocupar com nada além dessa própria satisfação.

Essa necessidade de satisfação imediata traz consigo um sentimento de “urgência” que passa a permear a própria forma pela qual o Indivíduo interpreta o mundo. Se, voltando novamente à Boaventura dos Santos, os olhos do observador é que criam a realidade, tem-se que os olhos de um ser que deseja esticar a linha temporal ao máximo não suportam encontrar, em sua leitura do mundo, aspectos de lentidão, principalmente se o vagar surge de uma promessa natimorta, qual seja o controle da resposta e seus efeitos.

Desta maneira, o ser moderno busca, às custas de eliminar a reflexão, uma resposta imediata para qualquer espécie de problema que passe a enfrentar.

A vitimização, por sua vez, é o retrato de uma sociedade cristã que, quando contestada, o foi pela doutrina marxista, ou seja, teoria de igual pregação.

Explica-se: tanto as doutrinas cristãs quanto as doutrinas marxistas colocam a vítima como centro do sistema, entendendo o sofrimento como algo bom e valoroso, a ser recompensado em alguma instância, em algum dia. Nesta senda, Pascal Bruckner atesta que “o Cristianismo colocou o pária, o fraco, a vítima, no centro da sociedade. As grandes ideologias que o quiseram suplantar não puseram este princípio em causa. O Marxismo, em particular, a única coisa que fez foi secularizar a mensagem principal do Cristianismo: os últimos serão os primeiros”.

O discurso da vitimização é, no mínimo, pernicioso, pois passa a difundir a idéia de que a existência de um Direito somente se comprova através da agressão ao mesmo. Como consequência, as próprias elites de um Estado, para se sentirem acobertadas pelo Direito, primeiro apontam para onde houve a quebra do mesmo. Em outras palavras, até a elite se declara “vítima”.

Tal atitude, por sua vez, inicia uma perigosa corrente. Vejamos bem: a elite, ao se proclamar vítima, inicia, com tal atitude, uma cadeia indissolúvel de desresponsabilização, e, novamente com Bruckner, quando a linguagem vitimária é utilizada pelas elites de um país, a própria noção de responsabilidade é posta em causa. Pertencer a uma elite implica, com efeito, que devemos assumir as consequências dos nossos actos. É a primeira coisa que se espera de um dirigente. A partir do momento em que as elites negam sistematicamente as suas responsabilidades, rompem o pacto democrático e dão início a uma longa cadeia de desresponsabilização.

Vivemos, pois, numa sociedade de pobres vítimas que buscam prazeres infantis e imediatos para solucionar as suas crises sem, por óbvio, assumirem o preço dos confortos que o Modernidade lhes trouxe.

Esta era a metapromessa da “ordem e progresso”?

Daniel Gerber, Direito penal do inimigo: Jackobs, Nazismo e a velha estória de sempre, pp 8-10