Os moderados são o drama do presente

by RNPD

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Publicado em 1936 este livro (Les Modérés – Le Drame du Présent) é sem contestação um dos textos da época que menos envelheceram, tal era a capacidade de Bonnard de ir ao essencial, com o rigor de análise e a clareza de estilo de um grande escritor clássico. Personagem curioso, eleito para a Academia francesa apesar de um não-conformismo declarado que permite colocar este conservador típico na categoria dos verdadeiros revolucionários.

Durante toda a sua vida foi assombrado pelas difíceis ligações que devem manter os homens de pensamento e os homens de acção. Esteve sempre muito consciente de encarnar, no mais autentico de si, esse tipo humano bem particular que designaremos um dia “escritor comprometido”, numa época, a dos dias que se seguiram à última grande guerra, em que, forçado ao exílio, havia desaparecido da cena intelectual e política do país.

No prefácio desta nova edição de Les Modérés, Philippe Baillet traz um contributo muito pessoal sobre o personagem que foi Abel Bonnard e sobre a sua obra, sem dúvida mais literária que política, “Nem teórico, nem doutrinário, foi antes de tudo um artista e um esteta.”. O que não o impediu de se comprometer totalmente nos combates que julgava essenciais. Quis ser poeta do regresso à ordem e defensor daquilo que era, aos seus olhos, a civilização face à barbárie crescente do seu século.

Homem pouco ligado a partidos, mesmo se dará a sua assinatura a alguns manifestos, desejou sempre conservar intacta a sua independência de espírito, muito consciente do perigo de todo o colectivismo: “não se pensa conjuntamente”, afirmava.

Isso não impede nele, contudo, uma rejeição radical do individualismo. Cada ser é ao mesmo tempo singular e ligado ao mundo, o mesmo é dizer desde logo ao seu povo, à sua nação, à sua raça. Esta ligação estende-se a toda a criação e não é irrelevante que o autor de Les Modérés seja também o biógrafo de São Francisco de Assis.

Ferozmente oposto ao Renascimento, ao século das Luzes como à Revolução francesa, permanecerá nostálgico de uma ordem que seria, à vez, muito antiga e muito nova. Esta ordem, para ele, não existe sem beleza. Diz assim muito claramente, evocando precisamente São Francisco: “Como para todas as almas refinadas, o Bem e o Mal deviam surgir-lhe sob as espécies do Belo e do Feio”.

Um tal espírito não podia senão ser opositor de tudo o que é burguês e que se encarna naquela categoria social à qual cola o epíteto de “moderados”.

Os moderados são para Bonnard a quintessência da mediocridade, a expressão mais baixa do tipo humano que fabrica, no geral, a modernidade: o indivíduo.

Porque o indivíduo, bem mais consciente dos seus direitos do que dos seus deveres, é “o átomo de uma multidão em vez de ser o elemento de um povo”.

Não cessará de denunciar o que considera defeitos paralisantes, a começar pelo verbalismo que invade cada vez mais a sociedade. Mais de meio-século antes do incrível impacto da televisão, denuncia a incessante verborreia “ proveniente dos salões para reinar na rua”. Denuncia também – e com que premonição – o que designamos por consenso ou coabitação: “os moderados pensam tudo poder arranjar pelo diálogo, a conciliação, o compromisso, depressa seguidos da concessão e da rendição pura e simples ao adversário, ao seu vocabulário para começar.”

Fora de moda, o velho Bonnard que teria hoje cento e dez anos? Certamente que não. Permanece com uma espantosa juventude de espírito e de boa saúde. E como amamos ler sob a sua pluma:” há uma alegria suprema nas acções quase desesperadas: são, num certo sentido, as mais livres.”

Jean Mabire, National Hebdo de 12 a 18 de Agosto de 1993