Quando os deuses não eram omnipotentes

by RNPD

null

«Na filosofia grega – isso está fora de questão –, e não mais nos Estóicos do que em Platão, o infinito nunca foi considerado como algo mais do que uma imperfeição, um não-ser. A religião Grega colocava acima de Zeus um Fatum que regulava todas as suas acções e limitava a sua potência. Os filósofos gregos, do mesmo modo, sempre subordinaram a divindade a um princípio inteligível (Platão) ou a identificaram ao inteligível (Aristóteles) ou à lei do universo (Estóicos). Foi preciso chegar a Plotino, isto é, à época em que se faz sentir a influência oriental, para que o infinito se torne um atributo positivo e que um ser supremo seja concebido, não mais como uma inteligência rigorosamente determinada, mas como uma actividade em que nada limita ou condiciona a potência. Enquanto que para o pensamento grego a divindade se aproxima da pura inteligência, o pensamento moderno concebe-a sobretudo como uma vontade pura. Vemo-lo bem em Descartes e Spinoza. Daí é impossível defender que o desenvolvimento da ideia moderna de Deus se tenha feito por evolução: Aqui é mais de “revolução” que é preciso falar. Entre as duas concepções não há, tanto as separa, identidade, mas oposição verdadeira.»

Victor Brochard, La morale ancienne et la morale moderne, Revue Philosophique, Janeiro de 1901