This is Engl…the same old shit!

by RNPD

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(Recensão ao filme “This is England” de Shane Meadows)

Shaun é um miúdo pobre de 12 anos que perdeu o pai na guerra das Malvinas. A viver com a mãe e sem amigos, numa Inglaterra de Tatcher onde as sub-culturas urbanas alastravam a grande velocidade, Shaun acaba por ser acolhido por um grupo de skinheads (e em particular Woody,o líder) que o fazem, pela primeira vez, sentir-se parte de algo.

Sem nunca o declarar explicitamente, o filme pretende ao mesmo tempo fazer uma espécie de retrospectiva histórica da evolução do movimento skinhead. Quando Shaun primeiramente encontra aquele grupo, os rapazes são apolíticos e estão completamente desligados do tipo de ideias que mais tarde viriam a ficar associadas aos skinheads no imaginário popular. São um mero produto das classes trabalhadoras e pouco educadas de uma Inglaterra marcada pelas desigualdades sociais.

É com a chegada de Combo que começa a sucessão de clichés e a manipulação fácil do espectador. Combo é um antigo companheiro de Woody que regressa da prisão (sim, adivinharam, para variar o “skinhead fascista” é um criminoso) com um discurso revoltado, patriótico e por vezes racista que vai politizar e dividir o grupo.

Ao contrário de outros, Shaun não rejeita o discurso de Combo, pois são aquelas ideias que lhe parecem resgatar e elevar a memória do pai, caído em combate “pela pátria”. Á medida que Shaun entra no mundo de Combo (que acaba por ser para ele a figura paternal que estava ausente) assistimos à sua transformação e, no auge dessa relação, simbolicamente, é a cruz de São Jorge, a Bandeira Inglesa, que se ergue no seu quarto.

Combo, o “skinhead racista”, é a chave de todo o filme e um lugar-comum ambulante. Ao assistir ao filme ocorreu-me que deve haver alguma espécie de guião pré-formatado de produção em série para estes personagens…

O modo como o cinema se serve destes filmes e destes personagens para fazer propaganda política é tão ostensivo que seria insultuoso para uma população menos ignara e mais imune à publicidade.

A fórmula é sempre a mesma: coloca-se o personagem a dizer meia dúzia de frases que são comummente usadas pelo discurso das organizações nacionalistas e que, por serem verdade e de apreensão intuitiva, fazem todo o sentido para as pessoas. Misturam-se depois, no discurso do personagem, essas frases com outras obviamente desacertadas e por fim vai-se revelando o mau carácter do personagem, mergulhado num mal-estar interior, movido pela revolta contra sabe-se lá o quê, sem ideais verdadeiros, traiçoeiro, propenso à violência injustificada e ao álcool e incapaz de agir de acordo com o que apregoa.

O objectivo desta fórmula, que é sempre a mesma neste tipo de filmes, é inculcar uma determinada imagem no cérebro dos espectadores que crie uma reacção condicionada automática a determinado discurso.

O propósito é que as pessoas, quando confrontadas no seu quotidiano com ideias de preferência nacional e salvaguarda da identidade racial, se intimamente as considerarem certas e justas as associem à imagem daqueles personagens retratados naqueles filmes que, por detrás de algumas dessas ideias, escondiam os mais aberrantes comportamentos, gerando no imaginário colectivo uma relação entre uma coisa e outra.

Bom, regressemos…a partir das primeiras cenas de Combo no filme pressente-se que ele é uma bomba-relógio à espera de explodir. É essa explosão anunciada, que redunda num homicídio (ena, que surpresa, não estávamos nada à espera disto: o “skinhead racista” mata um homem) que vai chocar e resgatar o pequeno Shaun.

No “final feliz” Shaun pega na bandeira inglesa que estava no seu quarto, que aliás lhe havia sido dada por Combo, a mesma bandeira em nome da qual o seu pai havia lutado e morrido, desloca-se à costa e… joga-a ao mar. Shaun atinge assim a redenção pela dessacralização da pátria e sentimos que, por fim, a sua alma pode ser salva!