Não tem importância, continuamos!

by RNPD

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«(…) Apenas um homem deste tipo, face a uma realidade que recusa tenazmente adaptar-se às suas esperanças, face a um misterioso mecanismo que faz com que cada acção provoque no mundo consequências que aquele que agiu não desejava e não previa, poderá exclamar: “Não tem importância, nós continuamos!”.(…) Sorel está perfeitamente consciente que aquelas “imagens-motrizes”, aqueles mitos, poderão, no futuro, ser considerados como ilusão. Mas apesar disso, ele apropria-se da divisa “não tem importância, nós continuamos!” e diz:” não tem importância, mesmo se não passarem de ilusões, devemos trabalhar!”

“Devemos trabalhar politicamente”: a sua obra “Reflexões sobre a Violência” contribuiu seguramente e de maneira concreta para dar uma nova forma e um novo vigor às esperanças revolucionárias do proletariado. Ao receber a herança de Bakunine e Proudhon e sobretudo ao aderir com convicção às teses da filosofia bergsoniana, Sorel afasta-se do racionalismo de Marx e constrói uma teoria do Mito que é ao mesmo tempo uma filosofia da vida concreta. Para ele, o que a vida exprime de mais valioso e de mais nobre não provém da fria ditadura da razão mas antes revela-se nas situações de excepção, quando os homens, possuídos pelas grandes imagens míticas, participam numa luta. Apenas os povos ou os grupos sociais dispostos a abraçar vigorosamente a fé pela via de um Mito podem desempenhar uma missão histórica.

É na abertura ao Mito que se encontra o segredo da acção, dos heroísmos e do entusiasmo. Os exemplos da grandiosa eficácia do Mito são, para Sorel, a ideia de honra e de gloriosa reputação para o povo grego, a expectativa do julgamento final para o cristianismo primitivo, a fé na “virtude” e na liberdade revolucionária durante a revolução francesa ou o entusiasmo nacionalista na luta dos alemães pela independência em 1813. Pelo que Sorel pode observar da sua época, a abertura ao Mito não está certamente presente numa burguesia obcecada pelo dinheiro e pela propriedade, obreira de uma sociedade dominada pelo cepticismo e o relativismo, que coloca uma confiança cega nas infinitas discussões do parlamentarismo.

Não é a classe discutidora (parlamentar), como a havia designado Donoso Cortés, que pode ser portadora de um mito: apenas as massas do proletariado industrial revelam um poder de mobilização em torno de um mito político. O mito não pode ser teorizado no papel pelos intelectuais ou pelos homens de letras, ele é imanente à vida concreta, à fé instintiva das massas que abraçam a causa do socialismo: é o mito da greve geral. Depois de Sorel, o que a greve geral significa realmente e objectivamente numa dada situação política deixa de interessar: o que conta é a fé que o proletariado lhe atribui, e os efeitos, provocados por uma tal fé, na dinâmica da luta política.»

Excerto de “Le mécanisme de l’illusion : Sorel, Jünger et le mythe” de Nicolò Zanon em Trasgressioni n°2, 1986