Da nossa laboriosa humildade nascerá a adesão

by RNPD

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À força de inspirar o ar dos tempos e das suas cintilantes superficialidades, o indivíduo moderno transformou-se, pouco a pouco, num gigantesco balão de vaidade.

Pensando “merecer”, acreditando “ter direito”, ele posa como centro e finalidade do mundo.

De tal forma convencido de que a sua existência é digna do maior interesse, passa os seus dias a expor a interminável lista de lamentáveis trivialidades que os compõem sobre todos os meios de expressão postos à disposição do seu narcisismo, a começar, claro, pela internet.

Facebook: ou quando cada um se torna o paparazzi da sua própria insignificância.

-“Também eu me embebedo nos bares como a Paris Hilton, não há razão para que isso não se saiba…”

Nunca a sede neurótica de se “distinguir”, de se “fazer notar”, mesmo por um parco quarto de hora, foi tão virulenta como nesta hora de triunfo absoluto da clonagem, proporcionado pela vitória total sobre a diversidade do homem alcançada pela televisão com a ajuda da moda e da publicidade.

Exibo-me logo existo!

Se, desde sempre, o desejo de reconhecimento e a necessidade de ser amado e admirado foram motores possantes da actividade humana, eles não podiam outrora ser concebidos, salvo algumas excepções megalomaníacas, senão como a recompensa de um trabalho, de uma obra ou da manifestação de qualidades particulares e não como uma autoprodução do ego, cultivada por cada um em direcção a si próprio.

Antes eram os pares, os anciãos, os mestres e os professores que distinguiam o mérito e atribuíam os louros, oferecidos como homenagem do reconhecimento colectivo. Assim se estabeleciam hierarquias integradas e aceites que alimentavam ao mesmo tempo o culto da excelência entre os eleitos, que podiam sempre cair se diminuíssem o seu esforço, e o sentimento de orgulho daqueles que queriam imitá-los e acompanhá-los.

Camponeses, artesãos, artistas, poetas, escritores, estudantes…todos se inseriam neste sistema de observação recíproca e de elitismo comunitário.

Pelo contrário, hoje vemos o reino da autoproclamação dos méritos e, daí, a exigência de reconhecimento precede toda a realização. Suplicamos por amor, reclamamos respeito e interesse, solicitamos atenção e consideração em nome de qualidades “naturais” que atribuímos a nós próprios sem o mínimo argumento ou a mais pequena demonstração.

Delírio egoísta sem limite, esta inversão do “ónus da prova” do mérito ou das qualidades de cada qual conduz à atomização sem regresso de uma sociedade onde cada um, estimando-se extraordinário, não consegue ver o mundo senão como um vasto reservatório para os seus caprichos e o outro como subalterno ao seu serviço ou concorrente que odiosamente ensombra o seu brilho.

A nulidade vulgar das “elites” e das “estrelas” desta época torna odioso e intolerável o facto de não se estar no seu lugar, uma vez que nada distingue a sua pretensiosa mediocridade da nossa. Daí a actual produção industrial de invejosos e amargurados, de frustrados e ciumentos lastimosos…

Uma vez que é suficiente “ser eu” para “tudo merecer” que sentido tem doravante o esforço de melhoramento e excelência?

Se o simples facto de ser uma mulher induz a que deva “ser tratada como uma princesa”, porque não deverei ser infiel, caprichosa, indiferente e maliciosa?

Se um corte de cabelo abstracto e algumas linhas de coca me atribuem o estatuto de artista porque perderei eu o meu tempo a suar sangue e lágrimas sobre uma obra já suplantada pela aparência?

Se o facto de ser um “jovem problemático” não deve “fechar-me qualquer porta” por que razão deixarei de o ser?

Se toda a gente pode ser não importa o quê, porque farei eu o esforço de ser alguém?

À excepção dos santos, os homens têm necessidade, para ultrapassar as baixezas e as falhas da sua natureza, da emulação de modelos a respeitar e a seguir e do aguilhão das hierarquias de mérito.

Se falseamos esta estimulante auto-regulação, é toda a possibilidade de vida comum decente e suportável que desaparece.

A urgência é portanto reaprender a humildade e a discrição, a vontade de fazer, de dar provas antes de obter, a beleza da aprendizagem e da escuta, a necessidade de encarnar no quotidiano antes de explicar ou demonstrar, e a grandeza das pequenas coisas feitas com seriedade e aplicação.

É preciso produzir, criar e amar sem nada mais esperar do que o que virá naturalmente. Da nossa laboriosa humildade nascerá a estima e depois a adesão de onde sairá o mundo novo.

Zentropa