Os valores homéricos

by RNPD

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Para os antigos, Homero era “o começo, o meio e o fim”. Deduzia-se implicitamente dos seus poemas uma visão do mundo e mesmo uma filosofia . Heraclito resumiu-lhe o fundamento cósmico com uma frase bem própria:” O universo, o mesmo para todos os seres, não foi criado por nenhum deus nem por nenhum homem, mas sempre foi, é, e será fogo eternamente vivo…”

A natureza como fundamento

Em Homero a percepção de um Cosmos incriado e ordenado é acompanhada de uma visão encantada do mundo, sustentada pelos antigos mitos. Os mitos não são uma crença, mas a manifestação do divino no mundo. As florestas, as rochas, os animais selvagens, têm uma alma que protege Ártemis (Diana para os romanos). Toda a natureza se confunde com o sagrado e os homens não estão aí isolados. Mas ela não está destinada a satisfazer-lhes os caprichos. Nela, na sua imanência, aqui e agora, eles aprendem, pelo contrário, a resposta às suas angústias:

“As gerações dos mortais assemelham-se às folhas das árvores que umas os ventos atiram no solo sem vida; outras brotam na Primavera de novo por toda a floresta viçosa. Desaparecem ou nascem os homens da mesma maneira.” (Ilíada VI). Gira a roda das estações e da vida, cada um transmitindo algo de si aos que vêm a seguir, seguro assim de ser uma parcela de eternidade. Certeza reforçada pela consciência da lembrança a deixar na memória do futuro, como diz Helena na Ilíada:”Duro destino Zeus nos deu para que nos celebrem nas gerações porvindouras os cantos excelsos dos vates” (Ilíada, VI). Talvez, mas a glória de um nobre nome apaga-se como o resto. O que não se apaga é interior, perante nós mesmos, na verdade da nossa consciência: termos vivido de forma nobre, sem baixeza, termos conseguido mantermo-nos em coerência com o modelo que estabelecemos para nós próprios.

A excelência como objectivo

À imagem dos heróis, os verdadeiros homens, nobres e realizados (kalos agatos) procuram na coragem da acção a medida da sua excelência (aretê), da mesma forma que as mulheres procuram no amor ou na entrega de si a luz que as faz existir. A uns e outros importa apenas o que é belo e forte. “Ser sempre o melhor”, recomenda Peleu ao seu filho Aquiles (Ilíada VI). Quando Penélope se atormenta pela ideia de que o seu filho Telémaco pudesse ser morto pelos “pretendentes” (usurpadores), o que ela teme é que ele morra “sem glória”, antes de ter atingido o que faria dele um herói como o seu pai (Odisseia, IV). Ela sabe que os homens nada devem esperar dos deuses e não contar com outro recurso para além deles próprios, como diz Heitor rechaçando um presságio funesto:”Combater pela pátria, não há melhor presságio!” (Ilíada, XII). No combate final da Ilíada, compreendendo que está condenado pelos deuses ou pelo destino, Heitor eleva-se do desespero por um sobressalto de heroísmo trágico:” Não morrerei, então, sem luta e sem glória, nem sem um feito grandioso que seja recitado pelos homens que virão!” (Ilíada XXII)

A Beleza como horizonte

A íliada começa com a cólera de Aquiles e termina com o seu apaziguamento face à dor de Príamo. Os heróis de Homero não são modelos de perfeição. Estão sujeitos ao erro e à desmesura relativamente inclusive à sua vitalidade. Por esta razão caem sob o golpe de uma lei imanente que é a força dos mitos gregos e da tragédia. Toda a falta implica castigo, a de Agamenon como a de Aquiles. Mas também o inocente pode subitamente ser atingido pelo azar, como Heitor e tantos outros, porque nada está ao abrigo do trágico destino. Esta visão do mundo é estrangeira à ideia de uma justiça transcendente que pune o mal ou o pecado. Em Homero, nem o prazer, nem o gosto pela força, nem a sexualidade, são alguma vez associados ao mal. Helena não é culpada da guerra pretendida pelos deuses (Ilíada III). Apenas os deuses são culpados das fatalidades que se abatem sobre os homens. As virtudes cantadas por Homero não são morais mas sim estéticas. Ele acredita na unidade do ser humano que qualifica o seu estilo e os seus actos. Os homens definem-se, portanto, em função do belo e do feio, do nobre e do vil, não do bem ou do mal. Ou, para dizer as coisas de outro modo, o esforço em direcção à beleza é a condição do bem. Mas a beleza não é nada sem lealdade e valentia. Assim, Páris não é verdadeiramente belo uma vez que é cobarde. Não passa de um vaidoso que menospreza o seu irmão Heitor e até Helena, que seduziu por magia. Ao contrário Nestor, apesar da sua idade avançada, conserva a beleza da sua coragem. Uma vida bela, objectivo último do melhor da filosofia grega, de que Homero foi a expressão primordial, pressupõe o culto da natureza, o respeito pelo pudor (Nausica ou Penélope), a benevolência do forte em relação ao fraco (excepto nos combates), o desprezo pela baixeza e a fealdade, a admiração pelo herói infeliz. Se a observação da natureza ensina aos gregos a moderar as suas paixões, a controlar os seus desejos, a ideia que fazem da sabedoria antes de Platão não é insípida. Sabem que está associada aos acordos fundamentais nascidos das oposições superadas: masculino e feminino, violência e doçura, instinto e razão. Heraclito inseriu-se na escola de Homero quando disse:” A natureza ama os contrários: é com eles que produz a harmonia.”

Dominique Venner