A virtude aristocrática

by RNPD

null(O regresso de Ulisses)

Os valores e as instituições sociais da Ilíada são certamente, no todo, pós-micénicos – e talvez no geral uma versão poetizada das realidades da idade negra imediatamente anterior ao tempo do poeta. A sua base é aristocrática. Há uma estratificação entre a aristocracia guerreira (à cabeça da qual, primus inter pares, está um homem, como Agamenon) e a massa do campesinato livre e outras ocupações, que podem gozar de algum tipo de estatuto de cidadania mas a quem Ulisses diz “silêncio e escutai os homens que vos são superiores, vós que sois cobardes e inaptos para a luta, não sois estimados nem na guerra nem no Conselho”(Ilíada, II), daí também o deflagrar da guerra de Tróia, resultado de uma quebra do código quando Páris, apesar de convidado de Menelau, lhe roubou a mulher Helena (XIII). Acima de tudo está a ética individualista à qual aderem os heróis aristocráticos; a sua preocupação com a honra pessoal (timê) e a ambição de “ser sempre o melhor e distinguido acima do resto” (VI). Esse “melhor”, contudo, implica reconhecimento mútuo. A deles não é uma visão na qual a consciência e as sanções morais internas contem largamente. A grande sanção que reconhecem é o risco de perderem a face perante os seus pares. É uma “cultura da vergonha”, não uma “cultura do pecado”.

Michael Silk, Homer – The Iliad – A Student Guide, pag.25