Samurai e Kamikaze

by RNPD

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Com a chegada do último terço do século XIX, o arquipélago nipónico conhece os seus últimos anos de isolacionismo. Apesar da xenofobia ambiente, sabiamente cultivada pelos conselheiros shogun de Edo (antiga Tóquio), a juventude Samurai apaixona-se pelo Ocidente moderno e sonha ver o Japão abrir-se rapidamente à mudança e ao progresso tão elogiados pelos simpáticos ocidentais. A 3 de Janeiro de 1868 o regime feudal é modificado e o imperador, Mutsu-Hito, de 15 anos, é oficialmente proclamado único detentor do poder. Nesse dia o Japão entra na era Meiji.

Jovens e intrépidos, voluntários e esclarecidos, os homens que tomam o poder são também ultranacionalistas, consequência de uma educação isolacionista e do sentimento de pertença a uma casta superior.

Mistura de teocracia, autoritarismo e democracia, a nova Constituição, decididamente conservadora, dedica-se mais a definir os deveres do indivíduo do que os seus direitos. Conscientes da inferioridade técnica do Japão face ao estrangeiro, o novo governo, apesar da sua inexperiência, beneficia de dois activos fundamentais que são um povo severo, religioso e trabalhador, e o apoio do Tennô (imperador) enquanto agente federador e fermento da renovação nacional. Fazendo prova de uma notável adaptação intelectual e um sólido equilíbrio, numerosas delegações de emissários e estudantes são enviadas para a Europa e América onde, usando a sua exótica afabilidade, observam, estudam e registam com aplicação as tecnologias ocidentais.

Mais preocupado com reformas do que com revoluções, o Japão moderniza-se a grande ritmo e orienta a sua prioridade máxima para as suas necessidades militares e navais. De origem largamente rural, o novo exército, copiado do modelo prussiano, torna-se o centro de gravidade da nação. No espaço de vinte anos o mundo assiste, primeiro incrédulo e depois inquieto, ao surgimento de um Japão vingativo que organiza a sua revolução industrial preservando ao mesmo tempo a sua independência política e as características essenciais da sua civilização.

Êxito incontestável, a restauração Meiji soube catalisar as energias adormecidas de todo um povo, transformando o humor belicoso da nobreza, outrora foco de discórdia e de fraqueza, num argumento precioso da luta que o Japão se prepara para conduzir contra o homem branco.

Evidentemente que uma semelhante metamorfose não ocorre sem provocar conflitos. A cultura religiosa tradicional é também profundamente alterada para uma finalidade imperialista. O novo regime instaura um culto patriótico em que o imperador é a divindade viva. O Bushido (literalmente “via do guerreiro”), anteriormente reservado à casta dos samurais, é alargado ao todo da sociedade. Todo o povo adopta o ideal marcial como código de vida. Assistimos igualmente ao regresso em força de uma ortodoxia shintoista revigorada, sacralizando o solo, o sangue e os antepassados num mesmo élan místico, em oposição ao budismo, de importação mais recente e de vocação universalista e relativista.

Religião estrangeira, introduzida no século VI, o Budismo, depois de ter arriscado a interdição pura e simples em função da sua doutrina da compaixão e da não-violência é intimado a ajustar-se às aspirações do novo Japão. As seitas budistas escolhem cooperar. O “novo budismo” torna-se então lealista e nacionalista. A pomba transforma-se em falcão. O resultado: o Yamato Damashii (“o espirito do Japão”), religião de Estado, sincretismo do budismo, do shintoismo e do confucionismo.

Depois de uma entrada fracassada na era industrial, o Japão vê-se rapidamente constrangido pelas necessidades económicas e demográficas a seguir as exortações dos zaibatsu, carteis industriais que apelam ao colonialismo para resolver as necessidades da nação. O budismo vai fornecer a justificação moral a essas ambições territoriais. De agressão militar que era ao início, a guerra torna-se, aos olhos dos japoneses, uma missão mundial de emancipação dos povos oprimidos , uma “guerra santa para a construção de uma ordem nova na Ásia oriental”. D.T.Suzuki, mestre Zen ainda venerado nos nossos dias, torna-se o propagandista zeloso dessa ideia. Não é verdade que há um preceito Zen que diz: “ se te tornas mestre de cada lugar onde te encontras, então, onde quer que estejas está a verdade…”? (1)

Todas as guerras que o Japão conduzirá no século XX procederão da mesma política de escalada. Do primeiro conflito sino-japonês, em 1894-95, ao fatal bombardeamento de Pearl Harbour a 7 de Dezembro de 1941, passando pela invasão da Manchúria em 1931 e os três ataques repetidos contra a URSS em 1938 e 1939.

Quanto à implicação do clero budista, sabemos graças ao livro de Brian Victoria (2) que não se tratava de uma derrapagem mas antes de um processo lógico inscrito na evolução do budismo nipónico.

(1) cf. Aventures d’un espion japonais au Tibet de Hisao Kimura e Scott Berry
(2) Le zen en guerre 1868-1945, Brian Victoria

Laurent Schang, via Euro-Synergies