Caritas in Ruina

by RNPD

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A última encíclica publicada pelo Vaticano, Caritas in Veritate, não parece ter retido a atenção dos observadores. Mesmo a imprensa católica não lhe dirige mais que breves comentários. Trata-se, porém, de um documento importante, mais não seja porque o Papa Bento XVI, falando em nome da Igreja Católica, pronuncia-se pela primeira vez, e sem qualquer ambiguidade, por um governo mundial:

«Urge a presença de uma verdadeira Autoridade política mundial, delineada já pelo meu predecessor, o Beato João XXIII (…) Além disso, uma tal Autoridade deverá ser reconhecida por todos, gozar de poder efectivo para garantir a cada um a segurança, a observância da justiça, o respeito dos direitos. Obviamente, deve gozar da faculdade de fazer com que as partes respeitem as próprias decisões (…) O desenvolvimento integral dos povos e a colaboração internacional exigem que seja instituído um grau superior de ordenamento internacional de tipo subsidiário para o governo da globalização e que se dê finalmente actuação a uma ordem social conforme à ordem moral e àquela ligação entre esfera moral e social, entre política e esfera económica e civil que aparece já perspectivada no Estatuto das Nações Unidas.» (§67)

Promulgada no passado 29 de Junho, esta encíclica, esperada há mais de dois anos, insere-se na linha das grandes encíclicas sociais da Igreja: Rerum novarum (1891), Quadragesimo anno (1931), Populorum progressio (1967), Sollicitudo rei socialis (1987) et Centesimus annus (1991). Ela surpreende pela sua extensão (cerca de 150 páginas) e pelo seu carácter heterogéneo, que dá a sensação de ter tido a participação de vários redactores. O texto contém críticas incontestáveis da sociedade de mercado contemporânea, mas estas são de carácter puramente reformista e moral (“podemos fazer um bom ou um mau uso do mercado e da lógica do lucro, sendo que hoje prevalece o mau”) e não são acompanhadas por nenhuma proposição alternativa concreta. O liberalismo e o capitalismo são criticados sem jamais serem citados. O Papa limita-se a dizer que “toda a decisão económica tem uma consequência de carácter moral” e que a actividade económica “ deve procurar a o bem comum”. A teoria do decrescimento é claramente criticada. O Papa mais frequentemente citado (78 vezes) é Paulo VI. Em particular é elogiado por ter conseguido “ a interacção existente entre o élan em direcção à unificação da humanidade e o ideal cristão de uma única família de povos”.

A ideia geral, conforme à doutrina cristã e reafirmada ao longo daquelas páginas, é que “ a humanidade” está em “ processo de unidade”. Essa seria a “verdade da globalização” (§42). Os cristãos devem, por isso, favorecer uma orientação “aberta à transcendência do processo de integração mundial” (§42):

«Numa sociedade em vias de globalização, o bem comum e o empenho em seu favor não podem deixar de assumir as dimensões da família humana inteira (…) para dar forma de unidade e paz à cidade do homem e torná-la em certa medida antecipação que prefigura a cidade de Deus sem barreiras» (§7)

A unidade da espécie humana é assim chamada a transformar-se em “verdadeira comunhão”. Esta “visão optimista e evolucionista do futuro da humanidade conduz o Papa a uma escolha política: o mundialismo” constata Yves Chiron (Aletheia, 10 de Julho de 2009). Em France Catholique (14 de Julho de 2009) Philippe Arondel, por seu lado, exprimiu o seu “mal-estar” com a “utilização de um vocabulário que namora o discurso economicista mais clássico e também o mais contaminado pelo liberalismo dominante”.

Alain de Benoist in Élements, Outubro de 2009