Aristocracia e Virtude (I)

by RNPD

«O sentido do dever é, nos poemas homéricos, uma característica essencial da Nobreza, que se orgulha por lhe ser imposta uma medida exigente. A força educadora da Nobreza reside no facto de despertar o sentimento do dever, estabelecendo-se como o ideal que, deste modo, o indivíduo tem sempre diante dos olhos. Pode-se sempre apelar para este sentimento – aidos – e a sua violação desperta nos outros o sentimento que lhe está estreitamente vinculado, a nemesis. Ambos são em Homero conceitos constitutivos do ideal ético da aristocracia. O orgulho da nobreza, baseado numa longa série de progenitores ilustres, é acompanhado pelo conhecimento de que esta proeminência só se pode conservar através das virtudes pelas quais foi conquistada. O nome de aristoi convém a um grupo numeroso. Mas, neste grupo, que se ergue acima da massa, há uma luta para aspirar ao prémio da arete. A luta e a vitória são, no conceito cavaleiresco, a autêntica prova de fogo da virtude humana. Elas não significam simplesmente a superação física do adversário, mas a comprovação da arete conquistada na rigorosa exercitação das qualidades naturais. A palavra aristeia, empregada mais tarde para os combates singulares dos grandes heróis épicos, corresponde plenamente àquela concepção. O esforço e a vida inteira desses heróis são uma luta incessante pela supremacia entre os seus pares, uma corrida para alcançar o primeiro prémio. Daí o inesgotável gáudio na narração poética dessas aristeiai. Até na paz se mostra a satisfação da rivalidade pela arete viril, ocasião para cada um se manifestar em jogos guerreiros, como a Ilíada os descreve a propósito dos jogos fúnebres realizados, numa curta pausa da guerra, em honra de Pátroclo morto. Foi esta emulação que fixou como lema da cavalaria o verso citado pelos educadores de todos os tempos, e que o igualitarismo da novíssima sabedoria pedagógica abandonou: αἰὲν ἀριστεύειν καὶ ὑπείροχον ἔμμεναι ἄλλων (aspira sempre à excelência e prevalece sobre todos os outros).

Nesta frase o poeta condensou, de modo breve e certeiro, a consciência pedagógica da nobreza. Quando Glauco enfrenta Diomedes no campo de batalha, e quer mostrar-se adversário digno dele, enumera, à moda homérica, os seus antepassados ilustres e prossegue: Hipóloco me gerou, a ele devo a minha origem. Quando me enviou a Tróia, advertiu-me insistentemente de que lutasse sem cessar por alcançar o poder da mais alta virtude humana e sempre fosse, entre todos, o primeiro. Não é possível exprimir de modo mais belo como o sentimento de nobre emulação formava a juventude heróica.»

Werner Jaeger, Paideia – A formação do homem grego, tradução de Artur Parreira, Livraria Martins Fontes Ltda., 1986, pp.28-29