Quando Sorel encontrou Nietzsche…

by RNPD

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Mas Sorel é a grande descoberta…Sorel com o seu «socialismo ético», a sua «metafísica sindicalista», o seu primado do mito sobre a utopia; é o marxismo heterodoxo, voluntarista, aristocrático. E toda uma filosofia e teoria da acção. «Para mim o essencial era agir. Mas repito que é a Sorel que devo mais. Foi este mestre do sindicalismo que, pelas suas rudes teorias sobre a táctica revolucionária, contribuiu mais para formar a disciplina, a energia e o poder das coortes fascistas» dirá, num jeito empolgado e romantizado, retrospectivamente, em 1922.

E depois de Sorel, Nietzsche. Nietzsche, o grande irracionalista, o grande niilista, o grande iconoclasta, o inimigo de Sócrates e da tradição racionalista europeia, da qual Marx é, pelo menos em certa direcção, um produto acabado. Nietzsche, que o «socialista fascista» Drieu de La Rochelle contraporá a Marx, serve de inspirador a Mussolini. «Nietzsche marca o centro de um próximo ideal. Mas de um ideal fundamentalmente diferente daqueles nos quais acreditaram as gerações passadas. Para o compreender ver-se-á surgir uma nova geração de espíritos livres, fortificados pela guerra, pela solidão, pelos perigos graves aos quais terão estado expostos, espíritos que hão-de conhecer os ventos, os glaciares, a neve das altas montanhas e saberão medir, com um olhar sereno, toda a profundidade dos abismos» – escreverá, depois, num texto cujo estilo deve bastante ao mestre descoberto.

Ao niilismo nietzschiano junta-se, nesta fase, um profundo anticlericalismo e anti-cristianismo com a repetição de uma cena clássica dos ateus militantes da época – há um episódio paralelo na biografia de Antero –, de relógio na mão, dando cinco minutos a Deus para o destruir. E, curiosamente, o socialista extremista utiliza argumentos nietzscheanos para atacar o cristianismo «culpado de ter feito cair o magnífico edifício do império romano, enfraquecendo, com ideologias, a sua resistência aos golpes dos bárbaros».

Jaime Nogueira Pinto, A Direita e as Direitas, pp.79-80, Difel