No coração dos homens generosos…

by RNPD

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«Na alvorada do 12 de Abril de 1861 rebenta a primeira granada da guerra de Secessão. De uma parte e de outra acredita-se numa guerra curta, fresca e alegre. Este conflito durará quatro anos. Será o mais sangrento de toda a história americana. As perdas serão superiores em um terço àquelas dos americanos durante a segunda guerra mundial, 618.000 contra 407.000 para uma população sete vezes menos numerosa.

Destruído pela guerra e pela reconstrução, o velho Sul sobreviverá no seu mito, na imagem de um passado ideal projectado sobre o futuro. Essa mensagem, na sua condenação de uma sociedade dominada pelo lucro e pelos imperativos económicos, tem tonalidades estranhamente actuais. O Sul sobreviverá, igualmente, nos seus filhos perdidos, os grandes fora-da-lei do Oeste, Jesse James, Cole Younger, John W.Hardin, Bill Doolin e mesmo os Dalton. Denunciados no Norte como bandidos cruéis, estes antigos guerrilheiros confederados, obrigados a continuar a guerra por sua conta pessoal, serão cantados no Sul como Robins dos Bosques.

O seu ideal cavalheiresco perpetuar-se-á no Western. O cowboy é um sulista, tem o ardor, o amor da vida livre e dos grandes espaços, o sentido meticuloso da Honra, o desprezo pela hipocrisia puritana e o respeito pela mulher.

É talvez o filme de Griffith, «O nascimento de uma nação» (1914), um dos monumentos do cinema, que dará ao Sul a sua primeira vingança. Pela sua parte toda uma geração de romancistas transmitirá a lenda dourada do velho Sul, seja Thomas Nelson Page ou Joel Chandler Harris. O Sul tornar-se-á o lugar de inspiração da literatura americana. Caldwell, Faulkner, Melville, Adams, Henry James, Pen Warren encontrarão aí o alimento da sua obra.

E depois virá, em 1936, «E tudo o vento levou» de Margaret Mitchell e o seu sucesso cintilante nos EUA e na Europa. Este livro fará renascer as brancas plantações no seu baú de magnólias e madressilvas, as jovens senhoras de crinolina, os fazendeiros galantes e os gentis-homens perseguidos pela angústia de um destino inexorável. Mas para lá da evocação fiel de uma época terrível, e da trama romântica cativante, o que atrai nesse livro é a nostalgia fremente que brota ao longo das páginas. Nostalgia de um mundo que deveria desaparecer, de um mundo irremediavelmente condenado, mas sobre o qual não se deixa de sonhar, como um paraíso perdido. Porque, se o Sul está morto, ele continua a viver no coração dos homens generosos.»

Dominique Venner, in Le Blanc Soleil des vaincus : l’épopée sudiste et la guerre de Sécession, 1607-1865, La Table ronde, 1975