A superclasse global e o novo mundo que está a criar

by RNPD

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«Não os elegemos. Não os podemos pôr fora. E eles estão a ficar mais fortes a cada dia.

Chamem-lhes a superclasse.

No momento, os americanos estão concentrados na campanha eleitoral. Entretanto, muitos não percebem uma realidade da era global que pode interessar muito mais do que a sua escolha presidencial: numa lista cada vez maior de temas, as grandes decisões estão a ser tomadas ou profundamente influenciadas por uma mal compreendida rede internacional de lideres empresariais, financeiros, governamentais, culturais e militares que estão para além do alcance dos cidadãos(…)

Duvidam? Olhem para a actual crise financeira. Á medida que os reguladores governamentais tentaram evitar mais perdas de mercado, chegaram à conclusão que talvez o instrumento mais eficaz à sua disposição fosse o que o presidente do New York Federal Reserve Bank descreveu como o seu “poder de convocação” – a capacidade de juntar os grandes agentes de Wall street e dos mercados de capitais numa sala ou numa conferência telefónica para colaborarem na resolução do problema. Isto tornou-se, de facto, uma parte central da gestão de crises, tanto porque os governos nacionais têm uma autoridade reguladora limitada sobre os mercados globais como porque os fluxos financeiros tornaram-se tão grandes que o poder real está com os maiores jogadores – como as 50 instituições financeiras que controlam quase $50 triliões em activos, quase um terço de todos os activos mundiais.

A maior parte das grandes empresas são hoje maiores e mais globais, o que lhes permite escolher entre vários regimes reguladores ou programas de incentivo ao investimento dos diferentes governos. Jogam os dirigentes do país X contra os do país Y, ganhando uma vantagem que torna obsoletas as velhas regras do comércio. As maiores corporações do mundo, como a Exxon ou Wal-Mart, têm vendas anuais (e portanto recursos financeiros) que rivalizam com o PIB de todos os países com excepção dos cerca de 20 mais ricos. As maiores 250 empresas do mundo têm vendas que igualam cerca de 1/3 do PIB global (são medidas diferentes, mas dão uma ideia rudimentar de dimensão relativa).

As maiores organizações de comunicação social, como a News Corp de Robert Murdoch, que é efectivamente controlada por um único indivíduo, alcançam muito mais pessoas todos os dias do que qualquer governo nacional pode conseguir.(…)

As pessoas que dirigem estas grandes organizações internacionais podem ter muito mais poder sobre aspectos chave da nossa vida quotidiana e das tendências globais do que a maioria dos funcionários em Washington, excepto nas circunstâncias mais extremas (…)

Muitos reconhecem que têm cada vez mais em comum com os outros membros da elite global do que têm com o povo das suas próprias nações.(…)»

David Rothkopf, Washington Post, 4 de Maio de 2008