A mesma música de sempre…

by RNPD

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«Sente-se primeiro. Esfregue bem os olhos. Agora leia: a banca de investimento está a ter os melhores lucros de sempre. Já se beliscou? Sim, não é um sonho. Mas pode ser o princípio de um pesadelo.

É difícil acreditar, mas vários dos maiores bancos de investimento do mundo estão a anunciar resultados recorde e já garantiram que 2009 vai mesmo ser o melhor ano de sempre. (…)

Várias razões explicam este desempenho, começando pela subida da Bolsa desde Março, que valorizou carteiras e disparou transacções e comissões daqueles que as intermedeiam. Mais: esta crise foi resolvida com dívida dos Estados, que foi colocada e aconselhada… pela banca de investimento. E são agora menos os actores para dividir o quinhão. A mesma banca tratará dos refinanciamentos e das colocações privadas, que já se reproduzem. Sobretudo: enquanto as taxas directoras a que os bancos centrais financiaram os bancos desceram para níveis recorde, os “spreads” que estes bancos cobram aos clientes dispararam. A diferença entre uma coisa e a outra foi lucro e tem servido de mata-borrão para absorver o lixo tóxico que cirandava nos balanços.

É o terceiro choque que recebemos da banca de investimento em três anos: há dois anos conhecemos-lhes as malvadezes da inovação financeira; há um ano vimo-los falir; este ano surpreendem-nos com os seus lucros. Não se lhes deseja outra sorte, mas as promessas de que a banca de investimento ia mudar para sempre eram dramas da mesma novela em que se aniquilam os “offshores”. Dois anos depois, mudou mesmo algo?(…)

…a banca de investimento, que arrastou o mundo para uma crise apocalíptica; que explicou que era grande de mais para falir, o que era verdade; que obrigou os contribuintes americanos, japoneses, europeus a endividarem os seus próprios filhos; essa banca continua no seu “halloween” de “doce ou travessura”. Ou recebe dinheiro ou rebenta com as economias.(…)»

Pedro Santos Guerreiro, no Jornal de Negócios, 9 de Novembro de 2009