Do individualismo…
by RNPD

«É necessário um esclarecimento sobre os equívocos do que chamamos individualismo.
O reconhecimento e a exaltação da individuidade (o facto de se ser portador de uma individualidade) são consubstanciais à Europa de sempre, enquanto a maior parte das outras grandes culturas ignoram o indivíduo e apenas conhecem o grupo. Os poemas fundadores da Tradição europeia, a Ilíada e a Odisseia, exaltam ambos a individuidade dos heróis no confronto com o destino. Estes poemas não têm equivalente em nenhuma outra civilização. Cantam os heróis sob a forma épica (a Ilíada é a primeira das epopeias) e sob a do romance (a Odisseia é o primeiro de todos os romances). Por definição, os heróis são a expressão de uma forte individuidade. São pessoas no sentido grego do termo. Não são pessoas à nascença (no seu nascimento o pequeno indivíduo não é nada, está no estado potencial). Tornar-se uma pessoa é uma questão de mérito, pelo esforço contínuo e formação de si (dar-se a si mesmo uma forma interior). Antes de ter direitos, a pessoa tem primeiramente deveres, face a si própria, à sua linhagem, ao seu clã, à sua Cidade, ao seu ideal de vida. Os europeus que são portadores da herança grega por atavismo e por impregnação cultural, receberam esse legado. Ele foi posteriormente degenerado tornando-se o individualismo exacerbado das sociedades ocidentais contemporâneas, uma espécie de narcisismo hegemónico.
Historicamente a expressão primeira do individualismo moderno data da reforma calvinista que está na origem daquilo que Max Weber definiu como essência do capitalismo. Esta forma de individualismo foi depois celebrada de diversas formas na época do Iluminismo. Recebeu uma consagração ideológica com a declaração dos direitos do homem da revolução americana e da revolução francesa, enquanto o código civil (Napoleão) lhe dava uma consagração jurídica. O movimento das ideias havia-se associado à evolução da sociedade, à afirmação social e política da burguesia e do seu individualismo intrínseco, para produzir a grande revolução dos comportamentos que apenas triunfará verdadeiramente na Europa após as catástrofes de 1914/1945»
Dominique Venner, Le Siècle de 1914, p.385
O reconhecimento da individualidade é de facto uma característica das Democracias liberais ocidentais, frutos do iluminismo e da idade da razão. É também, a meu ver, uma negação do nacionalismo bacoco que se fixa na questão da identidade da Nação. Ou seja, a identidade do grupo que não reconhece a identidade do individuo.
O reconhecimento da individualidade nunca renegou a identidade nacional, e isso é salientado no texto…aliás, pelo contrário, na Europa, desde a tradição homérica ( e isso é particularmente vísivel na Ilíada), que o valor da “individuidade” (porque os indíviduos não são iguais nem valem todos o mesmo) é aferido na relação com o grupo, com a família, a tribo, a comunidade, os mestres e amigos etc., ou seja, no espírito de missão e no serviço do homem para com os seus e na admiração e reconhecimento desses face ao indíviduo que por eles se destaca.
Daí também que o autor distinga entre “individuidade” e o individualismo moderno exacerbado, esse sim um sub-produto das Luzes, que cria um homem abstracto, universal e sem legado histórico, que nasce de si mesmo e vive para si próprio. E depois morre…