Como éramos inúteis…

by RNPD

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“Como éramos inúteis…” escreve Nietzsche. Refere-se à sua juventude, passada na companhia de um seu amigo. O tão enigmático filósofo refere-se a uma certa “maneira de ser”, que tem o seu ponto cardinal no período jovem da vida. Arrisco a dizer (correndo o risco de não mais ser lido depois disto) que quem nunca experimentou a sensação a que se refere o filósofo, e à qual me refiro neste texto, não teve nunca esperança de ser um Homem Livre. Ao menos por um momento.

A polémica de Nietzsche é obviamente social (quanto mais cultural e consequentemente política), radicada no sistema em que vive, e é facilmente dirigida à sociedade de hoje: ele insurge-se contra o igualitarismo democrático-burguês e utilitarista, contra o homem prático moderno (o dito “homo-economicus”) que encontra exclusivamente naquilo que é material a sua razão de vida. A isto opõe aquilo que nós, vulgarmente, chamamos “superhomem” (bem distanciado do superman americano e bem longe de ser super…), que é um Mito, um ponto de referência, uma figura ideal que representa a verdadeira tensão e vontade de superação, onde ao “útil” do homem moderno é oposto o “inútil” (“como éramos inúteis”…), ou seja, às “coisas” são opostas as “ideias”, aos “objectos” os “pensamentos”, à pávida moral a virtude da coragem, à racionalidade prática a inocência infantil, à conservação passiva a criação “divina e superhumana”, ao conformismo e egoísmo a intransigência e a incontrolabilidade, ao feio, servil, mesquinho, baixo, temeroso, vil e “normal” opõe o orgulho de quem ri do ridículo da lei do lucro e da moral pequeno-burguesa. Em pouquíssimas palavras, à modernidade opõe a tradição.

Nietzsche, pensado alegremente na sua juventude despreocupada e pura (“como éramos inúteis”…) olha os jovens do seu tempo e das gerações futuras, a sua especulação filosófica, neste âmbito, baseia-se sobre a descrição daquilo que aos seus olhos é o decadente cenário da sua cultura, para incentivar os jovens a rebelarem-se contra a praxis democrática da educação de massa e contra a submissão da educação e da cultura à economia. Não será nem o primeiro nem o último a desenvolver este pensamento, mas a perda do “deslumbramento infantil” da sociedade moderna, para benefício da “competência-eficiência” (que é sempre auto-anulação e alienação…) da sociedade moderna, está frequentemente presente nos seus escritos. E é denunciada com surpreendente vigor. Esta “sujeição total” do homem ao mero interesse económico é para Nietzsche uma verdadeira castração da evolução natural do homem, constrangido a viver “à altura do seu próprio tempo, em que se conhecem todas as realidades para enriquecer, e do modo mais fácil”. Vitória da predação, e portanto da involução, regresso, decadência. Aí está a modernidade, o espaço por excelência da subversão (“a inversão dos valores”), onde as massas são informes, indistintas, iguais a si mesmas. O nada, por fim!

“ Não podemos silenciar o facto de que muitos pressupostos dos nossos métodos modernos de educação transportem consigo um carácter inatural, e que as mais fatais fraquezas da nossa época se devem precisamente a esses métodos inaturais de educação”

O homem utilitário, numa tal época, torna-se escravo e sufocado por uma moral mísera e materialista, drogado pela educação de massa, e agente da ideia igualitarista. O igualitarismo, que Nietzsche vê como historicização nos séculos da moral cristã, é um poder que oprime o homem, o homem que quer ser “livre para” e não “livre de”. Ele vê como alma portadora deste homem decadente e símbolo da opressão moral a figura do “padre”, mas não apenas no âmbito da Igreja, mas também na figura do político, e portanto na cultura, na arte, na ciência. Em suma, qualquer instituição moderna é escrava do pensamento moderno (“humano, demasiado humano”).

Só através de um grande “Não”, uma grande recusa, um inimaginável desprezo face a esta sociedade, uma grande revolução será posta em marcha. E talvez apenas assim, os homens poderão novamente sentir aquela estranha e única sensação de invencível liberdade, com os olhos plenos de curiosidade em direcção ao mundo e o coração pleno de ardor. Só assim poderemos voltar a sentir-nos, nem que seja apenas por um segundo, “inúteis”. Inúteis para viver intensamente a nossa vida e abraçar, igualmente intensamente, a nossa morte. “Aquele que cumpre plenamente a sua vida, terá uma morte vitoriosa. Assim se deveria aprender a morrer. Esta é a morte melhor: morrer em combate e espalhar um ânimo grande”. Parece impossível, caros homens livres, actuar conforme estas palavras na realidade em que vivemos, mas não podemos (não podemos!) resignarmo-nos a uma existência de “produzir- consumir- distrair”. Somos assim, e não podemos ser de outro modo” recorda-nos Evola.

E depois…o superhomem nietzschiano, o “recorda quem éramos” do Rei Leónidas, o grito de vingança de Aquiles e o grito de liberdade de William Wallace, o “mito da caverna” de Platão, o “cavalgar o tigre” de Evola, ou o “virá o nosso dia” de Bobby Sands, o “pátria ou morte” do Che, ou Dante quando nos diz “ Sejam homens, e não ovelhas tontas” e tantos outros, podem ser interpretados também individualmente, se se trata de rebelião, na falta de uma verdadeira direcção. Pode ser chamado anarquia, fascismo, comunismo, nacional-socialismo, racismo, socialismo, existencialismo, bandoleirismo, populismo, etc. Aquilo que verdadeiramente devemos comungar é a fé face a uma guerra que, seja interior ou militante, assume uma forma quase metafísica, mas sobretudo deve reconhecer-se no mesmo inimigo a combater. Uma guerra para ser combatida mesmo sozinhos, se necessário. Contra tudo e contra todos. Uma guerra também já perdida, “inútil”…precisamente. Nós somos os rebeldes. Os inúteis.

“ O rebelde quer apenas permanecer fiel a si mesmo, fiel a uma escolha feita quando rapaz” escreve Massimo Fini. Procurai qualquer coisa pela qual valha a pena viver, e será a mesma coisa pela qual valerá a pena morrer, de outra forma não sereis prontos e fortes e livres o suficiente para viver, e algum outro encontrará essa “qualquer coisa” por vós. Isto, ensinam-nos os nossos pais. E Nietzsche:” A Natureza coloca no mundo, de tanto a tanto, certos homens a quem atribui missões superiores ao comum. Estes têm um destino especial: para eles é normal que não valham as leis comuns, esses devem fazer valer as suas ideias, a sua força, e devem usá-la.”

Marco Aurelio Casalino